Fotografia

O Caos Festivo das 24 Horas dos Piqueniques Indianos

O fotógrafo Arko Datto passou quatro anos a documentar as maratonas dos indianos a comer e a beber em piqueniques organizados nos meses de inverno. Friday, June 15, 2018

Por Sarah Gibbens
Fotografias Por Arko Datto
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Na Índia oriental, os meses de inverno são mais convidativos do que os de verão. Entre dezembro e fevereiro, quando o calor opressivo típico da região aligeira, as gentes ansiosas por atividades ao ar livre rumam às zonas litorais ou aos muitos rios da região para passar um dia inteiro a dançar, comer e beber.

Grupos de amigos e famílias inteiras alugam autocarros para percorrer grandes distâncias, à procura do lugar ideal para fazer um piquenique, levando na bagagem grandes quantidades de comida e álcool. Assim que assentam arraiais, os grupos, que se fazem acompanhar, por vezes, de um chef profissional, põem música hindi e bengali a alto e bom som, enquanto uma galinha, acabada de matar, e arroz cozem ao lume de uma fogueira improvisada, com copos de uísque e rum a acompanhar. Nas margens e nas praias, a agenda do dia tende a ir além dos jogos e das danças levadas à exaustão.

Três homens tiram uma fotografia.

O fotógrafo Arko Datto nasceu em Calcutá e desde pequeno que convive de perto com estas festividades, ainda que a sua família nunca tenha feito parte delas. Durante quatro anos, Datto fotografou esta tradição anual, que o levou a viajar pelo destinos mais populares, situados no litoral, em torno de Calcutá.

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O seu interesse por estes piqueniques nasceu após testemunhar um incidente trágico com um barco que se virou, com um grupo de foliões a bordo.  Segundo Datto, o barco transportava mais pessoas do que aquelas que a sua capacidade permitia, numa zona bastante profunda de um rio, quando a embarcação cedeu subitamente ante o excesso de peso. Embora não se lembre do número de pessoas que morreram afogadas, o episódio levou-o a dedicar-se, de forma ativa, ao registo fotográfico dos piqueniques de inverno.

Um grupo de mulheres joga à apanhada. Muitas vezes, homens e mulheres desfrutam dos piqueniques por separado.

Para um acontecimento tão enraizado na folia, Datto também quis captar aquilo que interpreta como as zonas sombrias destes eventos. Datto espera que as suas imagens deixem transparecer questões sociais de relevo, tais como as diferenças de género, numa cultura onde os crimes contra as mulheres aumentaram, progressivamente, nos últimos cinco anos.

"É muito difícil a convivência entre homens e mulheres sobre um mesmo espaço, sobretudo em público, e até mesmo numa situação tão banal quanto a de um piquenique”, afirmou Datto. Grupos de jovens adultos, na sua maioria homens, passam o dia a beber, evoluindo, muitas vezes, para brigas. “A ideia é ficar de rastos”, referiu Datto. Como consequência, as mulheres que participam nestes piqueniques, sem as respetivas famílias, tendem a usar de toda a prudência.

Colunas de som retumbam música popular de filmes bengali e hindi.

O próprio Datto usava de toda a cautela, enquanto fotografava. De vez em quando, a máquina fotográfica atraía a atenção de homens embriagados, ansiosos por causar confusão. Numa das suas imagens, pode observar-se um grupo de homens alcoolizados envolvidos num confronto com uma mulher. Noutra imagem, uma multidão imobiliza dois homens, que terão tentado, alegadamente, abusar de uma jovem.

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As fotografias de Datto também põem em relevo as questões ambientais. As praias e as margens dos rios, que acolhem as festas de inverno são “bonitas e limpas”, pelo menos por enquanto. Meses de piqueniques sucessivos podem contribuir para a degradação das delicadas margens dos rios, acelerando o processo de erosão. E os próprios rios são deixados contaminados.

Uma mulher posa para uma fotografia, segurando uma guitarra.

Apesar das impurezas, num local de piquenique no Ganges, situado perto de uma fábrica de tijolos, as pessoas cobrem-se de lama. Numa fotografia, pode observar-se homens cobertos por uma camada espessa de lama escura da cabeça aos pés. Ao fim de umas horas, uma vez endurecida, os homens retiram-na da corpo, revelando uma pele mais suave.

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"É suposto ser terapêutico, mas a ironia é que a lama está poluída”, realçou Datto. Os banhos de lama são uma forma comum de terapia, praticada em todo o mundo, mas, quando a lama provém de águas poluídas, esta forma de terapia pode ser mais prejudicial do que benéfica.

Duas mulheres navegam a bordo de uma embarcação em Sunderban Tiger Reserve, perto de Kolkata.

De facto, o Ganges, o rio mais venerado da Índia, é também um dos mais tóxicos do mundo. Anos de contaminação por esgotos humanos e lixos industriais deixaram as águas impregnadas com bactérias perigosas e carcinógenos.

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Datto não pretendia retratar o evento como bom ou mau, alegre ou preocupante. A tradição da descontração pode ser representada de muitas formas, e Datto esperava captar esta diversidade de comportamentos nas fotografias: homens que brigam, famílias que estreitam laços, crianças que brincam livres. No seu conjunto, Datto descreve-as como o retrato de um caos festivo.

Arko Datto é um fotógrafo sediado em Calcutá, na Índia. Descubra mais sobre o seu trabalho no website do autor.

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