A Poesia Gráfica da Beleza e da Força Bruta do Oceano

Esta fotógrafa vive em função das marés, das ondas que se impõem em altura e do vento que desafia a beleza natural dos nossos oceanos.quarta-feira, 4 de julho de 2018

Por Alexandra E. Petri
Fotografias Por Michaela Skovranova
A fotógrafa Michaela Skovranova diz que nadar com as baleias-corcunda em Tonga ajudou-a a focar-se, essencialmente, na fotografia e realização subaquáticas.
Este artigo é parte integrante do projeto Women of Impact, um trabalho da National Geographic centrado nas mulheres que quebram barreiras nas áreas em que se distinguem, contribuindo para mudar as comunidades e inspirando a ação. Junte-se ao nosso grupo do Facebook.

Michaela Skovranova diz, em jeito de graça, que a sua primeira fotografia subaquática foi, na verdade, tirada a partir do vidro de um tanque num aquário.

Nos tempos em que era ainda uma estudante universitária, Skovranova, uma fotógrafa estabelecida na Austrália, trabalhou como responsável pela área educacional no Wild Life Sydney Zoo. O seu trabalho exigia deslocações constantes ao Sea Life Sydney Aquarium, situado no porto de Darling, em Sydney. Nesses dias, Skovranova chegava cedo ao aquário, por volta das seis ou sete horas da manhã, e circulava pelas instalações com a máquina fotográfica em punho. “Perguntei-me como seria nadar com os animais e fotografá-los”, afirma.

Os animais que gostava de fotografar no aquário eram as focas-monge, também conhecidas por lobos-marinhos.  Skovranova recorda a forma como estes animais interagiam com ela, fixando-a quando os contemplava através do vidro. Skovranova detinha-se a observar a forma como brincavam entre si, e apercebeu-se de que, quando se afastava, as focas paravam de brincar.

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“Elas estabeleceram relações comigo e eu com elas”, diz Skovranova.

Skovranova emigrou para a Austrália, deixando para trás a Eslováquia, um país europeu sem litoral, quando tinha 13 anos de idade. Estava longe de ser uma boa nadadora e ainda não o é, afirma com modéstia, e ao início sentia-se intimidada pelo oceano.  As correntes eram fortes e ela não sabia como romper as ondas. Mas desenvolveu uma profunda afeição pelas águas, uma relação para a vida, reforçada pela sua curiosidade e criatividade e pela sua máquina fotográfica.

Leões-marinhos australianos, uma espécie ameaçada de extinção, brincam nas águas que banham a Ilha de Hopkins, no sul da Austrália. A fotografia em águas pouco profundas, permite a Skovranova fazer uso da luz natural no registo de imagens. Ela tenta sempre levar o mínimo equipamento possível, quando mergulha.

“Apaixonei-me pelo oceano, porque me sinto, fisicamente, mais presente, quando estou dentro de água”, afirma Skovranova. “Há uma sensação de leveza e sinto a ausência de um certo nível de ruído e uma espécie de privação sensorial. Quando estou no oceano, nada mais existe.”

Foi em 2014 que Skovranova deu um grande passo na sua relação com a água, ao aventurar-se na fotografia subaquática. Desde então, viajou pela Austrália, Tonga e Antártida, documentando a vida pouco abaixo da superfície do oceano, usando o mínimo de equipamento possível. Embora tenha uma licença de mergulho, Skovranova prefere o mergulho livre ou aquilo que chama de suster a respiração. Tendo em conta as formas de vida selvagem que fotografa e as profundidades a que trabalha, Skovranova diz que suster a respiração é uma aquisição que surgiu naturalmente e que lhe permite deixar-se guiar e influenciar pelos elementos em seu redor.

Uma tartaruga nada nas águas do oceano. “Aquilo que gosto de fazer quando saio para fotografar é estar pronta tanto quanto possível e depois mergulhar e deixar o resto para os elementos”, explica Skovranova.

“Adoro colaborar com a natureza”, explica. Skovranova mantém-se em águas pouco profundas, a cerca de 10 metros da superfície do oceano, e faz uso das sombras e efeitos da luz natural, em vez de usar iluminação estroboscópica. Manter-se perto da superfície também torna mais acessível às pessoas grande parte das formas de vida que retrata, incluindo baleias e leões-marinhos. “Pode apreciar-se a complexidade destas criaturas: elas comunicam umas com as outras, amam, choram e cantam, tal como nós”, afirma.

Ainda assim, Skovranova gosta de deixar uma pequena parte ao sabor da imaginação.

“Eu não quero mostrar tudo. Não quero que as imagens sejam muito reveladoras ou demasiado perfeitas”, explica Skovranova. “Quero todos os espectros de luz e que o plâncton e tudo o que se mistura com a água estejam ali, para mostrar realmente o quanto a paisagem muda de dia para dia ou de hora para hora.”

Skovranova espera também que as suas fotos deixem transparecer o quão especial é a sua relação com a água, em particular às pessoas para quem o oceano “está longe do alcance dos olhos, longe das suas mentes”.

Os pinguins estavam destinados a ser uma das primeiras formas de vida a retratar por Skovranova, durante a sua incursão pela Antártica, mas a viagem acabou por ser diferente daquilo que tinha esperava. “Nunca nada acontece como imagino”, afirma. “Sou uma defensora convicta de que temos de partir para o terreno nas mais diversas condições e desafiarmo-nos a nós mesmos.”

“Adoraria que as pessoas que habitam regiões longínquas, sentissem a presença do oceano, que sentissem cada gota de água e estabelecessem laços de afinidade muito próprios”, afirma Skovranova.

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