Fotografia

Como a Derradeira Foto de Um Tubarão se Tornou Viral

Um fotógrafo tira uma fotografia que lança a sua carreira e que ganhou viva própria. quarta-feira, 25 de julho de 2018

Por Alexa Keefe
Fotografias Por Thomas P. Peschak
A película no rolo da máquina dava-lhe para pouco mais do que uns cinco ou seis fotogramas, quando o fotógrafo Tom Peschak tirou a fotografia com que tanto sonhara: um grande tubarão-branco aflora à superfície no encalço do caiaque do investigador Trey Snow. "Em vez do cientista seguir no rasto do tubarão, o tubarão segue no rasto do cientista”, diz Peschak.

Durante o furacão Harvey em 2017, a fotografia de um tubarão a nadar numa rua inundada em Houston foi publicada no Twitter, tuitada e retuitada milhares de vezes. Nessa altura, o fotógrafo da National Geographic Thomas Peschak recebeu um email lacónico: “Adivinha quem está de regresso?”.

Peschak conhece bem aquele grande tubarão-branco. Fotografou-o há 15 anos, quando emergiu à superfície da água, para seguir no encalço do cientista Trey Snow, enquanto este remava num caiaque amarelo-vivo, ao largo da costa da África do Sul.  Desde então, sucedem-se as reproduções da imagem do tubarão para o incluir em cenários, que recriam falsas cenas de terror.

À semelhança de tantas outras imagens que despertam a nossa atenção, a fotografia original do tubarão tirada por Peschak resultou de uma combinação de ingenuidade, paciência e de um acaso feliz.

Em 2003, o cientista da vida marinha Michael Scholl da Fundação do Tubarão-Branco alertou Peschak para a presença de um número invulgarmente elevado de tubarões ao largo da costa mais meridional da África do Sul.

A dupla tentou ir ao encontro dos tubarões num barco de investigação, mas descobriu que o barulho do motor alterava o comportamento destas criaturas marinhas. Peschak teve então uma ideia. Tinha comprado recentemente um caiaque de mar, que causaria certamente menor perturbação entre os peixes. Porque não tentar avistá-los?

“Como a ideia parva foi minha, coube-me ir primeiro”, diz.

NO SÍTIO CERTO, À HORA CERTA

E funcionou. “Com um GPS instalado no caiaque, conseguimos seguir no encalço do tubarão até águas pouco profundas e observar o comportamento natural”, diz Peschak. “Quando isso aconteceu, veio ao de cima o fotógrafo em mim”.

Um rolo de fotografias revelado mostra a sucessão de momentos que culminaram na emblemática fotografia que Tom Peschak descreve como “a derradeira imagem do cientista de tubarões”.

Paschek passou os meses seguintes no barco de investigação, à espera de condições mais favoráveis para voltar a descer o caiaque sobre a água.

O fotógrafo estava pronto, quando o dia chegou por fim. Situado num ponto estratégico, na zona superior da embarcação, Paschek observava pacientemente, enquanto Scholl remava no encalço dos tubarões em Haaibaai, ou Baía dos Tubarões para os africanos.

Uma cena bonita, mas que não o convencia.

“De repente, surge um tubarão por detrás do caiaque, elevando-se rapidamente na coluna de água”, diz Paschek. “O rolo na máquina daria para mais umas cinco ou seis fotografias. Quando a barbatana dorsal aflorou à superfície da água, o cientista no caiaque olhou para trás, e clique”.

“Em vez do cientista seguir no rasto do tubarão, o tubarão seguiu no rasto do cientista, o que era muito mais emocionante. Por vezes, as melhores imagens são aquelas que não planeamos.”

UM TUBARÃO TORNA-SE VIRAL

A fotografia, publicada originalmente nas revistas e nos jornais sul-africanos, teve eco imediato junto do público.

“O meu website teve 100 000 acessos nas primeiras 24 horas, um fenómeno viral em 2003”, ri. “Mas não estava à espera de que as pessoas pensassem que a fotografia era falsa”.

Teorias da conspiração invadiram os fóruns na internet. Tudo era escrutinado ao mais pequeno detalhe, desde o ângulo das sombras à ondulação em ambos os lados do tubarão, para perceber se a imagem tinha sido clonada ou não.

A atenção foi, no fundo, uma maldição e uma bênção.

A imagem pôs Peschak no mapa enquanto fotógrafo, mas, em vez de despertar sensibilidades para a majestosidade dos tubarões, o foco estava na espetacularidade improvável da fotografia. Uma imagem demasiado espetacular para ser real.

“Durante um tempo, fiz-me acompanhar do negativo original, quando tinha entrevistas com meios de comunicação, para provar a autenticidade da imagem”, diz Peschak.

Esta ironia não se esgotou com Peschak, quando o tubarão começou a aparecer em vários lugares na internet alguns anos mais tarde, ora trazido pela tempestade Irene para as ruas da cidade de Porto Rico em 2011, ora nadando no interior de um centro comercial no Kuwait, após a explosão de um aquário, ora semeando o terror entre os habitantes de Houston.

No caso do furacão Harvey, foi a comunidade de fãs online que alertou Peschak para o regresso do tubarão. Cada vez que descobrem uma nova réplica da fotografia, os fãs “indignam-se mais do que eu”, diz Peschak.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em NationalGeographic.com.

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