A Un-selfie: Recuperar o Autorretrato

Acredito que a feminilidade de uma mulher está na forma como usa o seu cabelo. Esta sou eu por detrás de um vidro, numa manifestação da minha feminilidade.quinta-feira, 5 de julho de 2018

Por Marie McGrory
Acredito que a feminilidade de uma mulher está na forma como usa o seu cabelo. Esta sou eu por detrás de um vidro, numa manifestação da minha feminilidade.

A SELFIE

Num dia calmo, devo ver provavelmente umas vinte selfies, enquanto passo os olhos pelas redes sociais. Noutros dias, estou certa de que devem ascender às centenas.

Quando os fotógrafos residentes da National Geographic, Mark Thiessen e Becky Hale, lançaram o desafio do autorretrato, sob o título Self-Portrait, refleti sobre o tema. Não posso dizer que tenha ficado particularmente entusiasmada com o projeto, ao início.  O advento da selfie tinha-me deixado com ideias erradas sobre o quão pouco original é virar a câmara do telemóvel para si próprio. Uma selfie é uma das fotografias mais fáceis que uma pessoa pode tirar, afinal de contas, muitas pessoas têm a lente de uma câmara voltada para si mesmas, cada vez que pegam no telemóvel. As selfies são uma forma de mostrar o novo corte de cabelo ou a nova indumentária. Para um conjunto de pessoas, as selfies são uma forma de tirar fotografias, sem ter de falar com um estranho.

A certa altura, o autorretrato tornou-se mais do que um retrato de mim mesma. Comecei a olhar para além da imagem refletida no espelho, à procura apenas da minha única identidade. Dei-me conta que, ao tentarmos mostrar as nossas múltiplas personalidades, tendemos a pôr em risco a nossa individualidade, e torna-se cada vez mais difícil abraçar a nossa singularidade. Chamei a estes múltiplos eus “sombras”, doppelgängers, talvez pessoas que gostaríamos de ser, mas não somos.
Eu a observar os pássaros.

Quer seja o retrato de uns braços estendidos ou de um reflexo no espelho, as selfies tornaram-se para mim numa imagem tão comum, que, à força de as ver todos os dias, quase que me esquecia da beleza e vulnerabilidade do seu antecessor. Claro que vimos algumas selfies clássicas engraçadas, durante o trabalho de edição do projeto. E também estas têm o seu lugar e o seu tempo. Mas, à segunda semana do projeto, comecei a sentir-me revigorada por uma palavra, que estava arredada do meu léxico há demasiado tempo: o autorretrato.

Há 30 anos, comprazia-me na minha juventude e beleza. Há 30 anos, comprei a minha primeira máquina fotográfica e tirei um autorretrato. Sentia-me poderosa e jovem. Há 30 anos, ninguém me disse que a idade faz-se acompanhar de uma espécie de dor sofrida pela perda da juventude e da beleza. 30 anos passaram tão rápido, mas ainda sinto a vivacidade daquela rapariga jovem dentro de mim.
Um momento captado com recurso ao temporizador, numa tarde, na companhia do meu filho.

Os autorretratos não são selfies. São imagens belas e reveladoras. Os bons autorretratos são extremamente difíceis de conseguir. Após examinar milhares de imagens, fiquei perplexa ao aperceber-me de que, na fase final de edição, as imagens selecionadas não tinham basicamente um rosto. Eu não precisava de ver a face de uma pessoa para lhe conhecer um pouco da sua essência: a batalha de Ocean contra o cancro, a luta de Katrina contra o envelhecimento e o prazer de quatro décadas de Amanda pela panificação.

Estas imagens lembram-me por que adorava estudar os autorretratos durante as minhas primeiras aulas de fotografia no secundário. Retratavam artistas, que se mostravam como queriam ser vistos, revelando algo profundamente pessoal e ilustrando algo que não podiam explicar por palavras.

Reparei na beleza das sombras sobre a parede da piscina, e, enquanto a esvaziavam, não resisti e introduzi-me na cena.
Aos oito anos, os meus olhos mal podiam acreditar, quando o primeiro pão que cozi saiu perfeito do forno. Tal como no livro que tinha visto na biblioteca. Quarenta anos mais tarde, continuo apaixonada pelo pão e pelo seu processo de fabrico.

Toda esta reflexão deu origem a um debate nos nossos escritórios sobre os autorretratos de que tínhamos gostado. Janna recordou o autorretrato refletido de Maynard Owen Williams e Coburn partilhou Untitled 96 de Cindy Sherman. Na memória recente, interessei-me pelo trabalho de Kyle Thompson. Este projeto reavivou o meu amor por estes momentos crus e reveladores, quando um fotógrafo vira a máquina fotográfica na sua própria direção.

Por vezes, tenho a impressão de que desligo, de que não sei quem sou enquanto artista. Este estado mental obscuro é emocionalmente esgotante. Entro num estado de isolamento, que decorre da minha própria incerteza. Esta fotografia representa a minha falta de confiança nas minhas capacidades artísticas e reflete o desenvolvimento do meu próprio estilo e o significado que se esconde por trás da minha fotografia.
Este é um dos muitos autorretratos íntimos tirados em 2011, durante a minha batalha contra um linfoma Hodgkin, de estádio IV, uma doença oncológica que afeta o sangue. Enquanto me submetia aos tratamentos de quimioterapia, na esperança de uma cura, o autorretrato e a fotografia foram a arma que escolhi para combater a doença e focar-me na cura. A imagem retrata o despertar para a minha nova realidade e destino incerto. Hoje, posso dizer que estou curada!

Este artigo foi publicado inicialmente a 9 de junho de 2014, tendo sido atualizado posteriormente.

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