Fotografia

Brian Skerry: Nada com Gigantes

Thursday, September 6, 2018

Por Brian Skerry
Um espécime de atum-rabilho é fotografado no Golfo de São Lourenço, no Canadá.

Em fevereiro de 2014, a revista da National Geographic dedicou umas páginas à espécie do atum, uma supercriatura vítima constante da sobrepesca, num artigo assinado por Kenneth Brower, com fotografias de Brian Skerry. Aqui, Skerry fala sobre a sua experiência ao nadar com atuns-rabilhos e sobre a magia de estar debaixo de água com estes “puros-sangues dos mares”.
 

Nas águas escuras e geladas, formas gigantes de matéria viva faziam sentir a sua presença, sem que eu lhes antevisse os contornos, mas tão-somente os olhos grandes, que sabia seguirem cada movimento meu resguardadas na escuridão que preenche a profundidade dos oceanos. Os peixes tinham quase três metros de comprimento e vários metros de largura, pesando cerca de 450 quilos, e moviam-se na água como nenhum outro peixe.

Irrompiam sem aviso das águas profundas, nadando em círculos, e viravam subitamente, numa manobra ágil e rápida, exibindo novas cores, para desaparecer novamente na escuridão. Pelo menos uma dúzia de atuns nadou à minha volta, enquanto eu tentava seguir-lhes os movimentos, observando-os em todos os ângulos. À passagem, a opulência dos seus corpos parecia querer arrastar-me.

Inebriado pela beleza da cena, obriguei-me a sair do transe e comecei a fotografar, sem deixar, no entanto, de pensar “no quão perfeitos são estes habitantes dos oceanos”. Estas eram as criaturas que me visitavam em sonhos e inquietavam o meu espírito. Sentindo-me por vezes como o capitão Ahab, persegui estes animais durante quase duas décadas, numa cruzada não para os capturar, mas sim para os fotografar. E, por fim, ali estava eu, num trabalho para a revista da National Geographic, incumbido de levar imagens destas bestas esquivas e enigmáticas. Eu estava no reino do norte do último dos gigantes. Nadava com atuns-rabilhos.

Atuns-rabilhos nadam no Golfo de São Lourenço, no Canadá. Os atuns concentram-se nesta região no verão e no início do outono para se alimentarem de arenque e cavala.

Embora tenha encontrado atuns, aproximar-me deles foi um desafio. Era outono no Golfo de São Lourenço, no Canadá, quando os ventos de oeste fustigam o mar e as ondas se erguem agitadas sob uma crista de espuma branca, balançando os barcos de pesca comercial e retesando as amarras que os prendem ao cais. Todas as noites, ouvia os ventos uivantes no meu quarto, revestido por painéis de pinho, no hotel onde me instalara, e rezava para que os ventos acalmassem na manhã seguinte e eu pudesse voltar a mar alto. Nas duas semanas que passei na região, conto pelos dedos de uma mão as oportunidades que tive para mergulhar naquelas águas. Foram encontros breves, é certo, mas muito, muito especiais.

Estar debaixo de água com atuns é ser testemunha do sentido divino da natureza. Estes seres são verdadeiros puros-sangues dos mares, como poucos o são, se é que os há. São animais que atravessam oceanos inteiros a cada ano, capazes de gerar calor que lhes permite nadar praticamente desde o equador até aos polos.  Com uma estrutura hidrodinâmica que foi estudada por engenheiros navais, os atuns são mais velozes do que um torpedo e têm uma resistência física que nos é difícil de compreender. São peixes de sangue quente, que crescem ao longo de toda a sua vida — um atum com 30 anos pode chegar a pesar mais de uma tonelada —, embora atualmente, tanto quanto é do nosso conhecimento, seja difícil que um espécime atinja esta idade pela pressão esmagadora que a indústria da pesca exerce sobre a espécie.

Um atum-rabilho nada no leito do Golfo de São Lourenço. Predador voraz, o atum-rabilho alimenta-se sobretudo de pequenos peixes, crustáceos e lulas, mas é, também ele, vítima da pesca intensiva pela sua carne rica em gordura e que serve a indústria alimentar dos pratos crus.

Do ponto de vista da fotografia, os atuns levantam mais desafios do que qualquer outro tema que eu tenha fotografado à data. Os corpos extremamente luzidios são autênticos espelhos em movimento rápido e a diferença da exposição entre as águas à superfície e as águas a alguns metros de profundidade chega a ser de 5 pontos de abertura de diafragma. Olhando através do visor, concentrei-me no tema e fiz-me valer dos meus mais de 30 anos de experiência do mundo marinho. Tentei antecipar os movimentos dos atuns, calculando quando é que irromperiam das profundidades e dariam a volta. Ajustei a posição do meu corpo para evitar que me sentissem como uma ameaça e levá-los a aproximarem-se o mais possível para conseguir o enquadramento perfeito.   

Embora o meu propósito tenha sido alcançado, o meu espírito continua inquieto. Sonho com as andanças destes peixes, com as suas viagens épicas pelos desfiladeiros submersos do Atlântico e as migrações ao longo de vias rápidas ancestrais rumo às zonas de desova. Para mim, nadar com atuns foi, em tempos, apenas um sonho. Mas, com esta experiência, os meus sonhos ganharam vida, animados por pinceladas em tons de prata, amarelo e azul, e fazem-me querer regressar às águas profundas e deter-me nos olhos inquietos e vigilantes dos atuns.


Sharks, uma das exposições mais emblemáticas da National Geographic, está instalada na Galeria da Biodiversidade da Universidade do Porto até ao final do ano. Não perca a oportunidade de ver uma nova perspetiva dos tubarões, pelo olhar de Brian Skerry.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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