Fotografia

Os Tubarões pelo Olhar de Brian Skerry

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Por Brian Skerry
O mergulhador Vincent Canabal e a mulher, Deb, gerem uma empresa de ecoturismo orientada para os tubarões. Na imagem, Canabal surge ao lado de um tubarão-tigre a cerca de sete metros de profundidade. O casal usa iscos para atrair os tubarões, ou, de outro modo, seria difícil que os tubarões se aproximassem.

A primeira vez que contactei com um tubarão debaixo de água foi há 30 anos. Era um tubarão-azul, com cerca de um metro e meio de comprimento, que nadava ao largo da costa de Rhode Island. Tenho ainda muito presente na memória a elegância dos seus movimentos, como um avião de caça que flui na travessia de mares temperados. Essa experiência despertou em mim um fascínio por tubarões e, com o passar dos anos, encontrei nestes animais um objeto fotográfico que elevei à condição do sublime: eles são a representação do equilíbrio perfeito entre a elegância e a força. Mas, por maior que seja a beleza visual destes animais, o meu apelo foi muito além do simples registo fotográfico, e comecei a sentir um interesse cada vez maior em criar narrativas sobre as suas vidas, porque me apercebi do quanto estes seres são importantes para o nosso planeta e da fragilidade da sua condição.

Quando nadei pela primeira vez com um tubarão em 1982, poucos mergulhadores tinham esperança de avistar estes grandes predadores nos seus mergulhos. Havia muitas ideias preconcebidas e erradas em torno dos tubarões, e eram poucos aqueles que acreditavam que um encontro com estes animais pudesse ter um desfecho positivo. Mas o pensamento e as atitudes têm vindo a mudar ao longo dos anos, e hoje muitos mergulhadores rumam com frequência a lugares onde é possível observar tubarões, levando ao aparecimento de legiões de embaixadores em defesa destes animais. Apesar desta mudança de atitude no seio de vários grupos, os tubarões continuaram a ser demonizados. E quando um animal é percecionado como um ser perigoso ou mau, são poucos aqueles que se opõem à sua morte.

Um tubarão-tigre nada no norte das Bahamas numa zona conhecida por praia do Tigre. Este lugar tornou-se uma atração turística para os mergulhadores que pretendem observar tubarões-tigre. Embora seja geralmente seguro nadar com os tubarões neste lugar, os tubarões-tigre não devem ser subestimados enquanto predadores, sendo potencialmente perigosos.

Estima-se que cerca de 100 milhões de tubarões morram, anualmente, às mãos do Homem em todo o planeta. Não podemos esperar que os ecossistemas se mantenham equilibrados, privando-os de um número tão elevado de um dos seus maiores predadores. A morte de tubarões tem sérias repercussões no oceano, e um oceano em desequilíbrio reflete-se em tudo o mais, incluindo em nós, seres humanos. Enquanto fotojornalista do universo marinho e confesso admirador de tubarões, sinto que tenho esta responsabilidade e dever de urgência de levar um novo olhar sobre estes animais, como uma forma de sensibilização social e consciência coletiva.

Embora as vidas destes animais sejam ainda algo enigmáticas, os investigadores têm feito descobertas fascinantes sobre a espécie, o que, a par do uso das mais recentes tecnologias da fotografia, tornam este o momento perfeito e crucial para transmitir essas histórias.

Vincent Canabal é um cirurgião do serviço de urgência, que constituiu, recentemente, com a mulher, Deb uma empresa de ecoturismo, que promove o mergulho em zonas habitadas por tubarões, nas Bahamas. Embora os tubarões sejam geralmente criaturas bem-comportadas, existem sempre alguns riscos inerentes ao mergulho.

Em 2013, comecei um novo trabalho dedicado aos tubarões, com uma breve viagem de reconhecimento às Bahamas e a um lugar conhecido por praia do Tigre. Estive neste local em 2006, quando fotografava para um artigo da National Geographic sobre os tubarões que habitavam as águas das Bahamas. Estava curioso para ver o que tinha mudado, e se a população de tubarões-tigre ainda se mantinha em número equilibrado. Uns quantos mergulhos foram suficientes para me aperceber de que o número de indivíduos terá até talvez aumentado e que este lugar único cresceu enquanto referência do ecoturismo para os mergulhadores que pretendem ficar frente a frente com predadores de topo, de grande dimensão.

No futuro, irei continuar nesta viagem fotográfica, levantando o véu que encobre os tubarões para fazer incidir sobre as suas vidas uma nova luz. Acredito que a sensibilização trará o reconhecimento do seu valor e a aposta na conservação da espécie.
 

Sharks, uma das exposições mais emblemáticas da National Geographic, está instalada na Galeria da Biodiversidade da Universidade do Porto até ao final do ano. Não perca a oportunidade de ver uma nova perspetiva dos tubarões, pelo olhar de Brian Skerry.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

Continuar a Ler