Fotografia

Como as Mulheres Fotógrafas Acedem a Mundos Escondidos dos Homens

Pedimos às fotógrafas da National Geographic para refletirem sobre a forma como o género influencia o seu trabalho.Tuesday, March 19

Por Nina Strochlic
“Se eu pudesse dar um conselho às mulheres, sobretudo às mulheres de zonas mais pobres, eu diria para valorizarem a sua perspetiva. Sendo eu uma mulher filipina, quem me dera ter dado valor às minhas raízes mais cedo. Quando eu era mais nova, perdi demasiado tempo a tentar moldar-me de formas que não era eu, porque acreditava que só assim é que seria fotógrafa. Não valorizei as coisas que me fizeram ser eu própria.”

Existem benefícios para fotógrafos que sejam mulheres: são bem vindas em mundos secretos, convidadas a entrar nas casas das pessoas, e são confiadas com os temas mais delicados. Mas também existem desvantagens: as lutas para serem levadas a sério numa indústria dominada pelos homens, as situações perigosas e imprevisíveis, e os estereótipos sobre até onde é que as mulheres devem ir e os tópicos que devem abordar. Pedimos às fotógrafas da National Geographic de todo o mundo para partilharem as suas memórias, para refletirem sobre a forma como o género está interligado com o seu trabalho, sobre as oportunidades para as mulheres mais jovens que querem seguir os seus passos e sobre o futuro da sua área. Elas mostraram-nos as suas fotografias favoritas de mulheres – uma jovem falcoeira na Mongólia (acima), uma motociclista saudita, uma gueixa japonesa a fazer uma pausa para fumar – e contaram-nos as histórias dos bastidores. Também nos disseram que se sentem otimistas em relação às mudanças no status quo, graças àquelas que lutaram durante décadas para serem levadas a sério. “Durante muito tempo, olhámos predominantemente para o mundo através da experiência e da visão dos fotógrafos masculinos”, diz a fotógrafa Daniella Zalcman. “Agora, isso está a mudar cada vez mais depressa – já era sem tempo.” Eis as suas palavras e fotografias.

"Não importa de onde somos ou a língua que falamos, haverá sempre aspetos da experiência feminina que nos ligam. Acredito que o nível de confiança e de intimidade que consegui forjar com as mulheres que fotografo seria muito mais difícil de obter se eu fosse homem."
"Enquanto fotógrafas, acho que um dos maiores desafios é quebrar as barreiras e os estereótipos dentro da indústria. Atualmente, o nosso dever é redistribuir as cartas equitativamente. E nesse sentido, precisamos que o nosso trabalho, processos e forma de pensar sejam credíveis e respeitados. Acredito que esta é a nossa grande oportunidade para aproveitar este momento histórico, para lançar as bases de uma cultura mais justa e equitativa, para todos nós.”
“O ano que passou ficou marcado por uma série de mudanças para as mulheres sauditas. Foi-nos permitido o acesso a estádios, a jogos de futebol, a concertos e, ainda mais importante, podemos finalmente conduzir. Há dois anos atrás era impensável considerar estas mudanças. Enquanto fotógrafa saudita, existiram muitas situações em que eu estava a fotografar de lágrimas nos olhos, tanto de alegria, como de incredulidade. No entanto, percebo a responsabilidade que tenho para com o trabalho que documento. Sou obrigada a partilhar um lado saudita que nem sempre é o esperado, ou aceite, pelas pessoas de fora e, infelizmente, às vezes também não é bem aceite pelos sauditas. As imagens que retratam mulheres fortes nem sempre são bem recebidas pelos homens. Talvez encarem isso como uma ameaça? Eu tento captar imagens de mulheres que acredito serem poderosas. Imagens que eu possa mostrar às minhas filhas e dizer: ‘Vejam! Estas podem ser vocês também!’”
“As pessoas atrás da câmera não refletem as pessoas à sua frente, ou o público para quem trabalham. Eu acredito que a diversificação do fotojornalismo também é uma grande oportunidade – nós, enquanto indústria, temos a possibilidade de desfazer anos de patriarcado e de racismo que está entrincheirado em toda a história da fotografia. Nós temos o conhecimento e a capacidade e, acredito eu, a vontade para mudar a forma como representamos coletivamente o mundo. Parece que a maré está a mudar, sinto-me otimista em relação ao futuro do fotojornalismo poder vir a ser muito diferente do que foi no passado.”
“O sexismo institucional, praticado abertamente, ainda é a questão mais importante para as mulheres fotógrafas, pois afeta bastante as nossas vidas de uma forma interligada: práticas de contratação (a sua frequência, os ordenados, a qualidade das tarefas), saúde e estabilidade pessoal e financeira, e as atitudes para com as denúncias de assédio sexual. O simples facto de tudo isto acontecer frequentemente é prejudicial, tanto para as nossas vidas profissionais, como pessoais – e com ações muito raras por parte de indivíduos ou de empresas de comunicação que admitam ou resolvam o problema.”
“Eu estava numa sala apinhada, com cerca de cinquenta mulheres, nos arredores de Lahore, no Paquistão – os bebés choravam, as mulheres coscuvilhavam e os raios de luz entravam pelo teto aberto – e não consegui evitar a energia que emanava da sala e que percorria todo o meu corpo. Estas mulheres estavam a reunir-se uma semana antes das eleições, num país que figura entre os piores do mundo no que à participação política feminina diz respeito. Elas vinham quase todas de famílias pobres, muitas eram analfabetas, e muitas nunca tinham votado na vida. Quando Bushra Khaliq, uma ativista dos direitos humanos, começou a falar, a sala ficou em silêncio. Ela perguntou às mulheres na sala: ‘Quem é que vai determinar o vosso voto?’ Todas as mulheres responderam em uníssono: ‘Eu!’”
"Esta fotografia foi tirada quando eu estava na Síria, na região curda de Rojava. Eu estava a acompanhar jovens combatentes de várias facções curdas, na sua luta contra o Estado Islâmico, e estas raparigas integravam uma unidade de franco-atiradores que havia lutado em Kobane. Uma noite, quando as luzes se apagaram, elas começaram a cantar canções curdas tradicionais, com os seus homólogos masculinos a recorrerem aos telemóveis para as iluminar. Eu pensei que este era um momento muito comovente para estas jovens raparigas e mulheres (a maioria entre os 16 e os 25 anos) que lutam e morrem ao lado dos homens, no norte da Síria, com a esperança de derrubar o Estado Islâmico, sonhando com um estado curdo."
“Sê verdadeira contigo, com a tua visão, e concentra a tua energia no ato de fazer o trabalho. Mesmo que a tua visão não esteja totalmente clara, acredita que esta se revelará com o teu processo de envolvimento na ação. Tem em mente que a tua vida pessoal irá inevitavelmente refletir-se no teu trabalho, mas não te negligencies neste aspeto, porque a ligação profunda que tens à tua profissão sairá fortalecida.”
“Na minha profissão tive a sorte de conhecer e partilhar com muitas mulheres que deixaram a sua marca em mim. Mulheres que abriram portas para mundos desconhecidos, partilharam as suas vidas e os seus segredos, e transformaram-se em canais de comunicação. Para mim, foram como mães, irmãs e amigas, e viverão para sempre num cantinho do meu coração, onde guardo todos estes momentos.”
"Nas nações mais desenvolvidas as mulheres fotógrafas progrediram em grande número, mas muitas das nossas irmãs continuam a lutar nos países em desenvolvimento, onde as culturas tradicionais proíbem as mulheres de trabalhar naquilo que ainda é considerado um negócio de homens. No mundo inteiro, ainda lutamos pela igualdade e pelo reconhecimento, tanto em oportunidades de publicação do nosso trabalho, como pelos nossos salários. Mas muitas das nossas irmãs ainda lutam contra uma opressão maior, e contra os costumes culturais que não lhes permitem avançar enquanto artistas ou contadoras de histórias."
“O nosso mundo precisa de diversidade – de todas as formas possíveis – e temos uma excelente oportunidade para trazer uma perspetiva diferente para a nossa indústria, criar de uma maneira que nunca nos foi possível até agora. A indústria mudou, existem muito mais oportunidades, conhecimento e equipamento disponíveis para as mulheres fotógrafas. Temos vozes fortes que comunicam com o nosso público de uma forma única, e que nunca poderá ser desvalorizada.”
“O surf de ondas gigantes, um dos desportos mais perigosos do mundo, tem sido tradicionalmente dominado por homens. Concentrar-me nas atletas fabulosas que surfam há anos sem obter o mesmo reconhecimento que os homens foi uma experiência inspiradora. No meu primeiro dia em Mavericks, zona de surf da Califórnia, observava surfistas a competir por ondas de 12 metros, enquanto ouvia os observadores à minha volta a referirem-se a elas por ‘ele’. Apercebi-me imediatamente de que ninguém tinha considerado a possibilidade de existirem mulheres entre eles.”
“Na Índia existem dois tipos de fotógrafos: um é o fotógrafo, e o outro é a mulher fotógrafa. Muitas vezes, quando surgem oportunidades de trabalho e os editores estão à procura de fotógrafos, estão na realidade à procura de homens. A não ser que digam explicitamente que precisam de uma fotógrafa, geralmente devido a requisitos específicos para a história, não procuram, de forma proativa, mulheres.”
“Reena Bihari, operária numa fábrica, observa a vida noturna em Bangalore, na Índia, a partir do terraço do seu dormitório. Ela vem de uma pequena aldeia onde as mulheres da sua idade, pela primeira vez, são encorajadas a trabalhar na grande cidade, em vez de serem forçadas a casar. Eu lembro-me da noite em que tirei esta fotografia. Ela estava a observar o mundo dos homens nas ruas em baixo, a brisa quente parecia emanar da própria rua. Era a primeira vez que Bihari estava num edifício com mais de um piso. Ela disse que se sentia poderosa. A perspetiva tem um papel enorme na nossa perceção do mundo. É por isso que é importante termos fotógrafos de todo o lado – incluindo mulheres.”
“Este é um retrato que fiz da trapezista Kristin Finley, que abandonou a sua carreira empresarial e enveredou corajosamente pelo caminho, pouco convencional, de se tonar numa artista circense. Ela já trabalhou com circos de todo o país, incluindo o extinto Ringling Bros. Circus. Falámos depois do circo ter fechado e ela, com a sua personalidade genuína, disse-me: ‘A vida continua. Ou ficas a chorar com pena de ti própria, ou pegas na trouxa e segues em frente.’”
“As mulheres Samburu, no norte do Quénia, são obrigadas por tradição a casar muito novas e sem estudos, não tendo sequer a possibilidade de trabalhar. Mas Sasha Dorothy Lowuekuduk, a primeira mulher a gerir o Santuário de Elefantes de Reteti, na remota cordilheira de montanhas Mathews, está a desbravar novos caminhos. Apesar dela e das mulheres que trabalham consigo enfrentarem alguma resistência, a equipa de Reteti está unida na sua missão de salvar crias de elefante abandonadas, recuperar a sua saúde e devolvê-las à natureza. Isso requer vigilância e cuidados 24 horas por dia, mas a paixão de Lowuekuduk em salvar estes bebés, alguns deles com mais de 100 quilos, parece não ter limites. Num mundo onde nos focamos apenas nos desafios e nas coisas que nos dividem, também é importante falarmos sobre as soluções.”
“Em 1932, quando Anna Zavorotnya era apenas uma bebé com seis meses de idade, sobreviveu ao Holodomor, ou “Holocausto Ucraniano” (fome imposta à Ucrânia durante a era soviética). Ela foi resgatada de um grupo de aldeões famintos que recorria ao canibalismo para sobreviver, e que quase a chacinou. Anna também sobreviveu à ocupação Nazi da Ucrânia. Em 1986, testemunhou o pior desastre nuclear do mundo, quando o reator Nº 4 explodiu na cidade de Pripyat, em Chernobil. Ela decidiu regressar a casa poucos meses depois do acidente nuclear. Eu observei-a a correr pelo seu quintal, com uma energia quase louca, numa cidade fantasma onde restam três habitantes. Anna matou um porco para o Natal; e ofereceu-me um copo de licor caseiro. Perguntei-lhe porque tinha decidido regressar – não tinha medo da radiação? ‘Radiação? Não, não a consigo ver. E que tal fome? Tenho medo disso!’ respondeu ela. Apesar de todas as adversidades que enfrentou ao longo da vida, o espírito de Anna permanecia indomável.”
“Cala as vozes na tua cabeça que te dizem que a fotografia é demasiado difícil, demasiado cara, ou que é simplesmente algo que as mulheres não conseguem fazer, e dá os primeiros passos na arte de fotografar! As mulheres são contadoras de histórias por natureza, e o nosso planeta nunca precisou tanto de pessoas apaixonadas a contar histórias, que nos ajudem a perceber o nosso lugar no mundo, como agora; nunca existiu uma altura melhor para ser fotógrafa do que agora, em que o mundo precisa de nós.”
“Uma gueixa japonesa. As suas vidas são tão restritas e privadas que muitos japoneses nunca viram uma. Eu fui a primeira fotógrafa a quem foi permitida a entrada no seu mundo secreto e exclusivo, para fazer o meu livro ‘Gueixa: A vida, as Vozes, a Arte’ – um livro que só poderia ser fotografado por uma mulher. Estive seis meses, durante um período de três anos, em salas minúsculas nas casas de gueixas, e nos bastidores dos teatros onde atuavam, e vi como tudo numa mudava numa gueixa assim que entrava um homem. A sua postura, maneirismos, voz – ela transformava-se no seu eu profissional, uma mulher treinada para servir e entreter os homens. Para deleitar o ego masculino, disse-me uma delas. Será que ela deixaria um homem fotógrafo ver, de forma real e desprotegida, o seu eu?”
“Eu penso que apesar de ainda existirem desafios colossais para as mulheres fotógrafas, também estamos a viver um momento único na história: estamos finalmente a ter conversas reais e sustentadas sobre a forma como as pessoas por detrás das lentes têm impacto na maneira como a fotografia é feita – e sabemos como é que as pessoas consomem e interiorizam histórias. Estamos, penso eu, a começar a perceber que se queremos ter uma visão equilibrada, informada e delicada do nosso mundo, precisamos que os nossos criadores de imagens e contadores de histórias sejam um conjunto diverso e inclusivo de criativos.”
“Sê humilde, honesta e verdadeira a fotografar, e conta sempre as histórias de uma forma intima e sincera. A fotografia é uma jornada, uma exploração do nosso inconsciente, uma ferramenta para o autoconhecimento e descoberta pessoais que nos permite ser crianças novamente, porque nos dá a habilidade de ficarmos maravilhadas. Por isso, mantem sempre a mente aberta, sem preconceitos ou julgamentos, porque a única coisa que nos liga às pessoas e às histórias que contamos está na capacidade de maravilharmos e de abrirmos o nosso coração.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com