Entrevista a Matthieu Paley – o Fotógrafo do Mundo Vive em Portugal

Distinguido com prémios como o World Press Photo e Fotógrafo Internacional do Ano, Matthieu Paley é o verdadeiro fotógrafo do mundo e no ano passado mudou-se com a família para Portugal.

Monday, October 21, 2019,
Por National Geographic
Matthieu Paley, explorador de comunidades, numa palestra na edição de 2018 do National Geographic Exodus Aveiro ...
Matthieu Paley, explorador de comunidades, numa palestra na edição de 2018 do National Geographic Exodus Aveiro Fest.
Fotografia de National Geographic Exodus Aveiro Fest

Nos últimos 20 anos a paixão de Matthieu Paley levou-o a correr o mundo em diferentes missões para várias revistas e Organizações Não Governamentais. É um contribuidor frequente da National Geographic e publicou vários livros sobre os destinos mais remotos por onde tem passado. O seu trabalho foca-se em regiões que são desvirtuadas ou incompreendidas, especialmente com temas relacionados com o comprometimento da cultura e do meio ambiente.

A sua primeira história para a National Geographic foi sobre os nómadas do povo quirguiz, nas montanhas do Afeganistão, para a revista de fevereiro de 2013. No projeto “A Evolução da Dieta”, o fotógrafo documentou o que custa levar comida para a mesa em diferentes comunidades autossuficientes. Mostrou ao mundo que o corpo humano tem uma capacidade de adaptação inacreditável que nos permite ajustarmo-nos às condições geográficas em que estamos inseridos e, sobretudo, aos recursos naturais que temos disponíveis.

Deixou o seu país de origem – a França – para viver em alguns dos locais mais isolados do planeta. Depois de viver no Paquistão, em Hong Kong e na Turquia, o fotógrafo está atualmente a viver em Portugal, com a mulher – Mareile Paley - e os dois filhos do casal.

A National Geographic abre as portas do mundo e Matthieu Paley é o superlativo deste objetivo.

Tem alguma memória de infância preferida?
Quando tinha 5 anos, o meu pai construiu uma caravana e todos os verões durante meses, viajávamos por toda a Europa, até à Turquia e Norte de África. Estas são memórias maravilhosas. Há dois anos, fiz exatamente a mesma coisa para os meus filhos, por todas as memórias destes tempos.

Como se sente num mundo cada vez mais digital e vertical?
O digital é a realidade atual… usar este acesso digital que temos para uma quantidade incrível de informação ou para desperdiçar o nosso tempo. É também um grande desafio enquanto pai. É algo em que penso muito, em termos do uso do ecrã e o que estão a fazer com isto. Temos de estar atentos, sem estar completamente contra isso.
Como fotógrafo, se não estiver longe das profundezas dos Himalaias ou em algum sítio remoto - mesmo quando estou em alguma zona remota - tenho pessoas ao meu redor que estão constantemente a olhar para o telefone e sou muito sensível a isso, porque estou sempre à espera que algo aconteça ou que haja algum tipo de interação humana.
O lado vertical, demorei um pouco de tempo para me acostumar, mas habituo-me a qualquer tipo de forma de ver e rapidamente se torna natural ver ou forçar ligeiramente a imagem vertical. Gosto de brincar com formatos. Acho que isso nos permite refrescar a forma de compor uma imagem.

Qual é a sua opinião sobre a instantaneidade das fotografias de hoje em dia?
Depende se decidirmos fotografar e publicá-las imediatamente. Eu não gosto de o fazer. Eu trabalho muito com ‘atraso’, não gosto de ser um escravo do conteúdo.
Com as redes sociais, por exemplo, se começarmos a trabalhar uma história num local, o nosso público espera que alimentemos esse espaço e publiquemos coisas novas, e eu não gosto de ser incomodado quando estou em viagem, então costumo fazer isso algumas semanas depois. Às vezes faço isso em campo, mas com uma abordagem mais leve sobre o que me rodeia, uma perspetiva peculiar de algo.
Não quero aprofundar um tema no meio digital de uma maneira instantânea e acho que o problema com todas as notícias rápidas e de última hora, todos os programas de TV que apresentam algo que aconteceu há um minuto atrás, é que não tiveram tempo para serem digeridas e entendidas adequadamente e muitas vezes é enganador.
Este tipo de feed de notícias instantâneo deve ser usado com muito cuidado.

Que preocupações leva na mochila?
Tenho as minhas próprias preocupações em contar uma história, porque quando estou a ir para um trabalho, a viajar, tenho que contar uma história sobre algo específico, então tenho que entender muito bem essa história para ter uma imagem com significado, não apenas a imagem bonita mas uma imagem bonita, boa, forte, que se encaixa na história em que estou a trabalhar. Essa é a minha constante preocupação, de conseguir essa interseção entre uma imagem que é forte e uma imagem que não é puramente bonita.
A minha preocupação é descobrir quem eu acabei de fotografar, os seus nomes e os antecedentes, e toda essa pesquisa que acho muito importante para escrever uma legenda, que traga outra camada de entendimento sobre o que vemos... ser fotógrafo hoje em dia é um trabalho muito multidimensional, está longe de apenas tirar uma foto. Há muita pesquisa em campo, muita pesquisa antes de viajar, para entender o tema e garantir que somos capazes de entendê-lo bem para encontrar essa conexão, encontrar o significado subjacente no seu ambiente e depois fotografá-lo.

Que história gostaria de contar em Portugal?
É mais uma história global. Estou interessado no êxodo rural. A parte central de Portugal que, nos últimos 20 a 30 anos, está a esvaziar-se, assim como em França e em muitos outros países. O equilíbrio entre urbano e rural foi enviesado para o urbano há quase 10 anos, cerca de 60% do mundo vive num ambiente urbano. Não há muito tempo, era o oposto, era muito mais forte nas áreas rurais.
Estou interessado nesta paisagem abandonada, nestas aldeias abandonadas que ficam para trás. Não é especificamente em Portugal, é mais um fenómeno global, mas este seria um país interessante para fotografar o tema.

Já viveu nos EUA, Turquia, Paquistão, Hong Kong, Índia e Tajiquistão e, agora, Portugal. O que o encanta em Portugal?
Muitas coisas (risos)! Gosto do facto de não ser um país grande. É um país que não tem uma população grande, então parece que podemos enfrentar muitos dos problemas. Portugal tem coragem de enfrentar muitos problemas relacionados com temas com que me preocupo, como o meio ambiente e a poluição, pelo menos para os meus olhos vindos da Ásia. É realmente bom ver um bom nível de respeito e cuidado com isso. Isso faz-me sentir confortável.
Logisticamente, a localização é boa para mim. Agora vivo na Arrábida e tenho acesso à cidade, ao aeroporto, mas gosto de viver num ambiente natural, isso é ótimo... e para os meus filhos e para a minha esposa é bom. Eu sou francês, a minha mulher é alemã, não estamos muito longe de casa, mas moramos num sítio interessante, que é diferente.
O que eu gosto aqui é de aprender sobre outro país e isso é sempre o que eu quero. Se puder viver num sítio onde posso aprender outra coisa... uma língua diferente, uma cultura diferente, isso torna-se emocionante!

Se pudesse pedir um desejo para o Planeta, qual seria?
Que as pessoas se preocupassem com o que está a acontecer e que fossem menos egoístas. O problema com as pessoas é que a única maneira de as tornar interessadas sobre um problema é se lhes acertarmos na carteira. Se não atingir a sua prosperidade, podem sentir e dizer "sim, sim, claro, eu debato-me por isso", mas não farão nada.
Gostaria que as pessoas tivessem sensibilidade para o que está a acontecer em escala global e não olhassem apenas para o seu bairro e para o próprio país. Estamos todos ligados e isso é algo que eu gostaria que fosse sentido pela maioria de nós.
 

CURIOSIDADES

Cresceu na… Normandia, no norte de França.
O seu herói é… Tenho muitos, não tenho apenas um.
Num dia típico… Não existe um dia típico quando se é um fotógrafo freelancer (risos)! Depende se estou em casa, a trabalhar,... Quando estou em casa, fico muito tempo à frente do computador. Quando estou a trabalhar, ando muito a pé, conheço pessoas e tomo notas, foco-me no meu trabalho. É por isso que gosto da minha profissão, não existem dias típicos.
Para se divertir… faço kitesurf. Adoro estar na água!
O seu sítio preferido no mundo é… a zona ocidental dos Himalaias, no norte do Paquistão e no Tajiquistão. Esse é de longe o meu sítio favorito. É a minha segunda casa… Falo a língua, vou lá há 20 anos.
Não consegue viajar sem… uma almofada.
E se não fosse fotógrafo tinha sido… talvez desportista (surf, kitesurf, ...). Hoje em dia interesso-me muito por agricultura e permacultura e talvez me envolvesse nisso, tendo uma quinta. Se me pudesse dizer, ficaria muito curioso (risos)! De facto, não sei.
O seu melhor conselho para os seus filhos é… manter sempre o foco no que os motiva, no que os entusiasma e não se desviarem disso. Porque a vida dar-lhes-á oportunidades de fazer algo que talvez profissionalmente lhes dê mais dinheiro, mas – seja qual for a decisão deles – garantam que está conectado com o que querem fazer com a sua vida. Não é fácil, porque têm de se conhecer a si próprios.

 

MAIS SOBRE

Continuar a Ler