As Melhores Fotografias da Década

Descubra algumas das fotografias mais poderosas da National Geographic da década.

Por Susan Goldberg
Publicado 10/01/2020, 11:00 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
PROVÍNCIA DE BADAKHSHAN, AFEGANISTÃO – Entre os motivos que há muito compelem a fotógrafa londrina Lynsey ...
PROVÍNCIA DE BADAKHSHAN, AFEGANISTÃO – Entre os motivos que há muito compelem a fotógrafa londrina Lynsey Addario estão a mortalidade materna, algo que já documentou em vários países, e a vida difícil das mulheres no Afeganistão da atualidade. O drama que Lynsey encontrou numa estrada rural afegã em dezembro de 2010 entrelaçou ambos os temas. Surpreendida com a visão invulgar de mulheres sozinhas no campo, Lynsey e o médico que a acompanhava descobriram que uma das mulheres estava grávida e em trabalho de parto. O marido desta mulher já tinha perdido uma esposa em trabalho de parto. Agora, o seu carro estava avariado, e ele estava a tentar encontrar outro veículo, mas Lynsey e o seu companheiro levaram a família até um hospital. Este episódio teve um final feliz. Com a ajuda das enfermeiras, a mãe de 18 anos deu à luz uma menina.
Fotografia de Lynsey Addario

Quando dizemos as palavras “National Geographic”, a primeira coisa que nos vem à cabeça é fotografia.

Ao longo de mais de 130 anos, a National Geographic ficou conhecida por levar as pessoas em jornadas visuais por todos os cantos da Terra – das montanhas mais elevadas aos oceanos mais profundos, das selvas aos desertos, das grandes metrópoles às zonas rurais mais remotas. Só nos últimos 10 anos, os nossos fotógrafos captaram 21.613.329 imagens para documentar a vida no nosso planeta –  e para as nossas plataformas de impressão e digitais. Mais de 21.6 milhões de fotografias! É um número incrível, e muito assustador, isto se o tentarmos reduzir a uma lista dos "melhores" ou "favoritos".

Agora que a década de 2010 terminou, foi exatamente isso que fizemos. Escolhemos  15 imagens, de 14 fotógrafos, que mais se destacaram nos últimos 10 anos: um urso a comer um bisonte numa icónica paisagem americana; um pangolim em perigo de extinção com a sua cria; o rosto de uma mulher que morreu, e que em breve seria transplantado para outra mulher que desejava ter uma segunda oportunidade na vida; uma criança noiva no Iémen; o olhar confiante e direto de uma rapariga transexual de 9 anos de idade. Todos podemos ter uma lista diferente das fotografias da National Geographic que mais nos tocaram nos últimos 10 anos. E claro, não existem escolhas "certas" – apenas imagens importantes que tocam os nossos corações e que podem ajudar a trazer alguma sensibilidade para fazer deste mundo um lugar melhor.

Obrigado por ler a National Geographic.

HAJJAH, IÉMEN – Os homens que acompanham estas raparigas iemenitas não são os seus pais. Para o seu projeto aclamado internacionalmente – Too Young to Wed, ou Demasiado Nova Para Casar – a fotógrafa americana Stephanie Sinclair passou vários anos a estudar as sociedades de todo o mundo onde se invoca a “honra” familiar ou a tradição cultural para forçar raparigas menores de idade a casar. Esta imagem das jovens iemenitas Ghada e Tahani, e dos seus maridos, que ilustrou um artigo da National Geographic em junho de 2011, foi destacada nas campanhas anti-casamento das Nações Unidas. A ONU e os Estados Unidos definem agora que a proteção contra o casamento precoce coagido é um dos direitos humanos básicos.
Fotografia de Stephanie Sinclair
DJIBOUTI – No início de 2013, Paul Salopek, escritor da National Geographic, deu literalmente os primeiros passos de uma caminhada que ele esperava que durasse 7 anos – 34.000 km ao longo de 4 continentes, recriando as primeiras grandes migrações humanas, desde África Oriental até às Américas. Juntamente com ele em Djibuti, ao longo da costa do Mar Vermelho, estava o fotógrafo John Stanmeyer que uma noite se deparou com esta imagem: pessoas que queriam obter sinal de telemóvel da vizinha Somália. "Fiquei surpreendido", diz Stanmeyer. “O símbolo da migração da atualidade, onde o único elo que temos com os nossos entes queridos é a omnipresença dos telemóveis.” Em relação a Salopek, ainda está a caminhar. A sua paragem mais recente: Mianmar. Paul Salopek ainda tem mais 20.000 km para percorrer.
Fotografia de John Stanmeyer
HOLLYWOOD, EUA – O nome deste puma é P22, e o fotógrafo Steve Winter já tinha ouvido falar dele há algum tempo. A equipa do Serviço Nacional de Parques sabia que um puma tinha atravessado duas das estradas mais movimentadas do país, para se instalar algures no Parque Griffith, em Los Angeles. Para um artigo da National Geographic de dezembro de 2013 sobre pumas urbanos, Winter caminhou pelo parque, montou câmaras ocultas e sensíveis ao movimento que podiam ser acedidas remotamente. Mais de um ano depois, o P22 acionou uma das câmaras – com o famoso letreiro de Hollywood em pano de fundo. "Isto desencadeou um movimento para proteger os últimos pumas do sul da Califórnia e outros animais selvagens", diz Winter. O dia P22 é comemorado todos os anos em Los Angeles.
Fotografia de Steve Winter
PARQUE NACIONAL GRAND TETON, EUA – Enviado para o Wyoming em 2014, o fotógrafo britânico Charlie Hamilton James ficou tão fascinado com a vida animal da região que acabou por mudar temporariamente a sua família para Jackson Hole. Em colaboração com o Serviço Nacional de Parques, Charlie montou uma câmara "armadilha", acionada remotamente por sensores de movimento, para documentar a vida animal no depósito de carcaças do Parque Nacional Grand Teton – um local para onde são levados os restos mortais de animais atropelados, longe dos turistas, para os animais necrófagos agirem naturalmente. A câmara captou este urso-pardo adulto a afastar corvos da carcaça de um bisonte. "Isto é o que eu mais adoro nas armadilhas fotográficas", diz a editora de fotografia da National Geographic, Kathy Moran. "Preparamos o cenário, mas nunca sabemos o que vai acontecer.”
Fotografia de Charlie Hamilton James
HASTINGS, SERRA LEOA – “Esta imagem atormenta-me como poucas”, diz o fotógrafo Pete Muller. Em 2014, num trabalho na África Ocidental durante uma súbita epidemia de ébola, Muller estava num centro de cuidados médicos da Serra Leoa quando um paciente infetado saiu da área de quarentena e tentou escalar uma parede para sair. Este surto devastou a região, e uma pessoa infetada era uma ameaça mortal; foi necessário um policia armado e dois enfermeiros com fatos protetores para acalmar o homem e para o levar de regresso à cama – onde morreu 12 horas depois.
Fotografia de Pete Muller
ST. AUGUSTINE, EUA – Joel Sartore, sediado no Nebraska, passou quase 15 anos a fotografar animais em cativeiro – um registo visual, diz Sartore, da abundância de vida selvagem em perigo de extinção. Photo Ark, nome dado por Sartore ao projeto, inclui agora imagens de 10.000 animais, incluindo uma cria de pangolim-arborícola (Phataginus tricuspis) cuja mãe foi fotografada pelas lentes de Sartore numa instalação de vida selvagem na Flórida em 2015. “Parecia que eu estava noutro planeta ”, diz Sartore. "Os pangolins são mamíferos, mas são diferentes de tudo o que eu alguma vez tinha visto." Capturados pela sua carne e pelas supostas propriedades curativas das suas escamas, os pangolins asiáticos e africanos estão entre os mamíferos mais traficados do planeta.
Fotografia de Joel Sartore
FLINT, EUA – Em janeiro de 2016, depois dos relatórios de investigação revelarem que a água de Flint tinha níveis perigosos de chumbo e outros contaminantes, o fotógrafo Wayne Lawrence documentou a luta dos habitantes que tentavam encontrar água limpa e a forma como lidaram com a traição das autoridades públicas. Lawrence viu pela primeira vez os irmãos da família Abron – Antonio, de 13 anos, e as suas irmãs Julie e India, ambas com 12 anos – dentro de um quartel dos bombeiros a recolher a oferta diária de garrafas de água. Para estas crianças que estudavam em casa (a mãe comprou os uniformes escolares em lojas de roupa em segunda mão), esta era agora a única fonte de água potável disponível para beber, cozinhar e tomar banho. Lawrence, lembrando-se da triste visita a Flint, disse: "Foi realmente de partir o coração, visitar casa atrás de casa e ouvir sempre as mesmas histórias de horror.”
Fotografia de Wayne Lawrence
KANSAS CITY, EUA – Robin Hammond, fotógrafo neozelandês que ficou conhecido pelas suas imagens de pessoas LGBTQ do mundo inteiro, conheceu Avery Jackson quando estava a fazer um trabalho para a edição de janeiro de 2017 da National Geographic – "Revolução de Género". Hammond estava a fotografar rapazes e raparigas de 9 anos de idade em 8 países. Mas esta menina de 9 anos teve um impacto especial: Avery passou os seus primeiros 4 anos de vida como rapaz, mas com o apoio da sua família em Kansas City, no Missouri, começou a viver em 2012 como rapariga transgénero. Os editores escolheram a sua fotografia para a capa da edição dos assinantes – uma decisão que, segundo a editora-chefe Susan Goldberg, deixa os leitores "entusiasmados, horrorizados, preocupados e gratos". No que diz respeito a Hammond, esta gratidão contínua é o que tem sobressaído; professores e jovens agradeceram por ajudar a abrir caminho para debates muito importantes. "Ela emanava confiança e energia", diz Hammond sobre Avery. "A fotografia dela diz: Estou orgulhosa. Estou feliz. Sou uma rapariga normal."
Fotografia de Robin Hammond
PENÍNSULA YAMAL, RÚSSIA – Um cortinado a fazer de capa e uma caixa de papelão a fazer de coroa real. "Princesa da Tundra", diz Kristina Khudi, de 8 anos, durante uma brincadeira de final de tarde. Kristina faz parte de uma família de pastores de renas de Nenets, no extremo norte da Sibéria, mas está em casa a passar as férias de verão – estuda num internato estadual. A fotógrafa Evgenia Arbugaeva, que cresceu no Ártico russo, juntou-se a estes pastores indígenas para um artigo da National Geographic em outubro de 2017. Esta jornada secular que os pastores fazem todos os anos, uma jornada onde levam as renas a percorrer os mais de 1280 km da Península Yamal, está ameaçada pelo aquecimento do clima e pelo desenvolvimento de um campo de extração de gás que atravessa parte das pastagens de Nenets.
Fotografia de Evgenia Arbugaeva
YOSEMITE, EUA – Antes de Alex Honnold fazer o seu famoso ‘free solo’ no El Capitan do Parque Nacional de Yosemite – escalando a parede de rocha mais famosa do planeta sem qualquer tipo de material de segurança ou ajuda – o fotógrafo Jimmy Chin costumava escalar com ele. Integrado na equipa que documentou a escalada de Honnold em junho de 2017, para o filme da National Geographic “Free Solo”, Chin foi obrigado a concentrar-se enquanto o seu amigo estava a mais de 760 metros de altura a enfrentar a parte final da escalada. "Os riscos nunca tinham sido tão elevados", diz Chin. "Isto representa alcançar o impossível, o sublime: a perfeição."
Fotografia de Jimmy Chin
AURORA, EUA – Durante 15 anos, a fotógrafa Lynn Johnson e a editora de fotografias Kurt Mutchle, ambas da National Geographic, acompanharam a história de Susan Potter, uma mulher que declarou que queria ser congelada depois de morrer para o seu cadáver ser fatiado e usado para criar uma base de dados de investigação. Susan Potter tinha 72 anos quando se ofereceu para o Projeto Humano Visível da Universidade do Colorado. Esta ativista dos direitos das pessoas com deficiências usava cadeira de rodas e pensou que o seu fim chegaria em breve. Mas viveu até aos 87 anos. Lynn Johnson, juntamente com a escritora Cathy Newman, acompanharam Susan Potter durante a morte e ao longo do meticuloso processo de congelação e corte do seu corpo em 27.000 fatias. Este artigo sobre Susan Potter e sobre a sua personalidade complexa, e muitas vezes, difícil foi publicado na edição de janeiro de 2019 da National Geographic.
Fotografia de Lynn Johnson
CLEVELAND, EUA – “Reverência”, diz a fotógrafa Lynn Johnson, lembrando-se do momento em que ela e a equipa médica se reuniram em torno do rosto humano cuidadosamente colocado na mesa da sala de operações. Apenas o rosto, uma coisa viva, cortada de um doador de órgãos, ainda não ligado ao seu próximo receptor. "Isto fez-nos questionar tudo o que sabemos e pensamos sobre identidade", diz Lynn Johnson. Durante mais de 2 anos, a sua amiga e colega fotógrafa Maggie Steber documentou a história de Katie Stubblefield, uma jovem paciente da Clínica de Cleveland que ficou desfigurada numa tentativa de suicídio – quando Katie tinha 18 anos. A morte de outra jovem possibilitou o processo de transplante facial que foi documentado de forma íntima por Katie, Lynn e pela escritora Joanna Connors, na edição de setembro de 2018 da National Geographic. A operação durou 31 horas e foi bem-sucedida. Katie tem trabalhado de forma continuada nos músculos da fala e da face e recentemente disse que espera entrar na faculdade.
Fotografia de Lynn Johnson
LAIKIPIA, QUÉNIA – “Esta imagem demorou 10 anos a fazer”, diz a fotógrafa Ami Vitale, sediada em Montana, que conheceu o rinoceronte-branco-do-norte chamado Sudan em 2009. Um dos únicos 9 machos que restavam na altura, Sudan estava num jardim zoológico na República Checa. Os esforços de última hora para salvar a espécie incluíram o transporte aéreo de Sudan e de outros 3 rinocerontes para o Quénia. Os 4 animais enormes sobreviveram à realocação, mas em 2018, quando se soube que Sudan, que tinha 45 anos de idade, estava a morrer, Ami Vitale percebeu que estava perante o último macho que restava da espécie. Na Ol Pejeta Conservancy, Ami viu Joseph Wachira, um dos tratadores preferidos de Sudan, a inclinar-se para uma última caricia. "Para mim, isto não foi apenas um artigo", diz Ami Vitale. “A caça furtiva não está a abrandar. Estamos a testemunhar a extinção agora, durante o nosso turno de vigia.”
Fotografia de Ami Vitale

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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