As Fotografias Dramáticas Podem Mudar o Rumo da História – mas nem Sempre

A fotografia de uma vítima de COVID-19 está a galvanizar os debates na Indonésia. Mas será que vai fomentar mudanças duradouras?

Wednesday, July 29, 2020,
Por Susan Ager
O corpo de uma vítima suspeita de COVID-19 jaz num hospital indonésio. Após a morte do ...

O corpo de uma vítima suspeita de COVID-19 jaz num hospital indonésio. Após a morte do paciente, os enfermeiros envolveram o corpo em camadas de plástico e aplicaram desinfetante para evitar a propagação do vírus.

Fotografia de Joshua Irwandi

A imagem é assustadora. Um cadáver jaz numa cama de hospital, embrulhado em plástico – uma múmia dos tempos modernos. A sala é escura, estéril, impessoal. Ninguém se senta ao lado do corpo para lamentar a vida perdida.

Esta pessoa morreu num hospital indonésio, alegadamente vítima de COVID-19. As enfermeiras, com receio de uma potencial infecção, enrolaram o corpo em plástico e borrifaram-no com desinfetante. Agora é completamente anónimo – com características físicas ocultas, nome e sexo desconhecidos, é um objeto que aguarda para ser descartado.


O fotojornalista Joshua Irwandi captou a imagem enquanto acompanhava de perto os funcionários de um hospital indonésio – como parte de uma bolsa atribuída pela National Geographic Society. A fotografia teve impacto nesta nação de 270 milhões de habitantes, um país que teve uma resposta lenta no combate à pandemia global.

“É evidente que o poder desta imagem galvanizou a discussão sobre o coronavírus”, disse Joshua Irwandi a partir de sua casa na Indonésia,

Mas será que é suficiente para alterar a trajetória da pandemia na Indonésia, onde o Coronavirus Tracker da Universidade Johns Hopkins registava 4.781 mortes e 100.303 casos no dia 27 de julho – um número que se acredita subestimar largamente os valores reais?

Este tipo de questão surge sempre que uma fotografia revela uma catástrofe. Será que uma imagem de morte ou sofrimento consegue alterar a política ou o sentimento do público em geral? E mesmo que algumas imagens o tenham feito no passado, será que as fotografias ainda retêm esse poder num mundo saturado de imagens? E se as imagens conseguem fazer a diferença no século XXI, por que razão está a demorar tanto tempo?

Do outro lado do mundo, uma fotografia captada por Julia Le Duc provocou este tipo de questões há cerca de um ano. A imagem mostra um jovem deitado de barriga para baixo em águas turvas, com a sua filha ao lado, também ela morta. A criança está debaixo da camisa preta do pai, que tem o braço em volta do pescoço da filha como se estivessem no oceano a dar um mergulho. Óscar Alberto Martínez Ramírez, um refugiado de El Salvador, afogou-se quando tentava atravessar o Rio Grande para os Estados Unidos com a sua filha Valéria, que tinha menos de dois anos.

O fotógrafo James Rodriguez, que documentou os efeitos das políticas de tolerância zero de Donald Trump sobre a imigração nas famílias guatemaltecas, disse pouco tempo depois que a fotografia de Julia Le Duc se tinha tornado viral. “Isto ultrapassa o que vimos até agora. Observamos uma espécie de crescendo, demasiada cobertura, muitas imagens. Mas depois surge algo assim, algo que sobressai. A cabeça da criança escondida dentro da camisa. Não vemos rostos. Não vemos sangue.”

“Nós, que trabalhamos com estes temas, esperamos que, com a narrativa, eventualmente haja algo que marque a diferença, algo que afete a opinião pública e impacte as políticas públicas.”

Contudo, James Rodriguez e outros interrogam-se por que razão as imagens de “estrangeiros mortos”, como ele diz, aparecem com muito mais frequência na imprensa norte-americana do que as imagens de americanos mortos. “Com todas as mortes devido a armas de fogo nos EUA, alguém viu sequer uma única fotografia de uma criança morta?”

James Rodriguez tem dois filhos. Uma imagem como esta enche-o de dor e sofrimento, como aconteceu com uma fotografia captada há cinco anos de um refugiado sírio de três anos de idade, que deu à costa numa praia turca.

Rodriguez nunca mais se esqueceu do primeiro nome da criança: Aylan.

Em 2015, esperava-se que uma imagem tão poderosa, fotografada por Nilufer Demir, conseguisse mudar a opinião sobre os refugiados, que eram e continuam a ser amplamente olhados com desconfiança e colocados de parte.

As imagens de morte ou sofrimento tornam-se realmente icónicas, de formas que podem magoar e ajudar. Dois dias depois de as fotografias do pequeno Aylan terem sido publicadas, o primeiro-ministro britânico David Cameron anunciou que o seu país acolheria milhares de refugiados sírios.

Mas há outras notícias que emergem depois de as fotografias tocarem nos nossos corações. A menina que chorava numa fotografia bastante conhecida de Getty John Moore, que documentava as separações familiares na fronteira EUA-México, acabou por ser apenas uma fotografia de uma menina a chorar. A mãe pegou na criança ao colo dois minutos depois, e estava tudo bem.

Um ano depois, outra imagem de um menino sírio ficou famosa – ele parecia ter sido espancado e estava ensanguentado, abandonado numa cadeira cor de laranja – a criança apareceu mais tarde nos noticiários sírios como uma forma de apoio ao governo. Mas o menino, que se tinha tornado no símbolo do terror do governo contra os seus cidadãos, tinha agora o cabelo limpo e penteado, com um rosto rechonchudo e sorridente. Mohamad Kheir Daqneesh, o pai da criança, criticou os rebeldes sírios numa entrevista dada na televisão, dizendo que temia pela segurança do seu filho depois de a imagem ter recebido tanta publicidade. “Mudei o nome do Omran”, disse o pai. “Mudei-lhe o corte de cabelo, para que ninguém o filmasse ou reconhecesse.”

Enquanto eu trabalhava neste artigo, passei esta informação a um editor de fotografia da National Geographic. “Oh, que ótimas notícias”, respondeu ele. “Eu penso nele de vez em quando. É bom saber que está bem.”

As imagens ficam gravadas nas nossas mentes. Os sentimentos que evocam ficam plantados nos nossos corações, como acontece com as fotografias que tiramos das pessoas que amamos. Mas será que destino de uma pessoa, captado por uma câmara, consegue mudar o mundo, ou pelo menos captar a sua dor?

‘Protestos pelo mundo inteiro’
Isto já aconteceu anteriormente. Em 1972, no auge da Guerra do Vietname, o fotógrafo Nick Ut da Associated Press, ele próprio um vietnamita de apenas 19 anos, tinha acabado de fotografar um incidente que aconteceu quando um avião fez um ataque com napalm.

Numa entrevista dada em 2012, Nick Ut recordou o momento: “Vi o braço esquerdo dela a queimar e a pele a sair nas costas. Eu pensei de imediato que ela ia morrer… Ela estava aos gritos, e eu pensei, meu Deus.”

Os seus editores debateram se a fotografia devia ser publicada. A rapariga estava nua e eles estavam preocupados por poder ofender os leitores. Mas um dos editores insistiu e a imagem acabou por ser publicada em jornais do mundo inteiro.

“No dia seguinte”, disse Nick Ut,“houve protestos contra a guerra em todo o mundo. Japão, Londres, Paris... Todos os dias depois da publicação, as pessoas estavam a protestar em Washington DC, à porta da Casa Branca. A Napalm Girl estava por todo o lado.”

A rapariga sobreviveu, depois de Nick a ter levado e a outras crianças para um hospital e ter ameaçado a exposição do caso na imprensa caso os funcionários se recusassem a cuidar delas. Agora, uma mulher de meia idade, Kim Phuc chama ao fotógrafo “Tio Nick”.

Sujeitos desconhecidos
Depois do furacão de 2008 no Haiti, Patrick Farrell, fotógrafo do Miami Herald, foi elogiado por uma imagem de outra criança nua, desta vez um rapaz, que empurrava um carrinho de bebé sujo e partido, aparentemente recuperado dos escombros lamacentos. Novamente, um rapaz levou o público a interrogar-se sobre a sua história, o seu futuro, e a tecer paralelos com as suas próprias vidas.

Patrick Farrell, ainda no Herald, disse-me em 2015 que a imagem estava entre as primeiras publicadas após as tempestades iniciais no Haiti. E, juntamente com outras fotografias, valeu-lhe um Pulitzer. “As imagens eram impressionantes, gráficas e dolorosas de se ver”, disse Patrick Farrell, “mas abriram os olhos das pessoas, sobretudo em Miami, a duas horas de distância de avião. Isso fez com que as pessoas saíssem das suas vidas bastante confortáveis.”

Mais de 4 mil milhões de dólares foram prometidos ou doados após estes eventos. Ninguém sabe o que aconteceu ao rapaz, com quem Patrick Farrell nunca falou. Ele acredita que a imagem é comovente porque “está tudo destruído, mas aquele miúdo empilhou algumas coisas no carrinho e estava a empurrá-lo para algures. Não sabemos onde.”

O rosto de outra refugiada também captou os eventos de uma crise e prendeu o olhar de quem a viu. A imagem do fotógrafo Steve McCurry, de uma jovem rapariga afegã num campo de refugiados no Paquistão, apareceu na capa da edição de junho de 1985 da National Geographic, e permanece gravada na memória de milhões de pessoas – uma rapariga com cabelos despenteados, envoltos num pano vermelho, com olhos ardentes e cheios de... quê? Medo? Rebeldia? Determinação?

Steve McCurry regressou ao Paquistão 17 anos depois para a encontrar, cansada e desgastada. Sharbat Gula nunca tinha visto a sua fotografia icónica. Ela nunca mais tinha sido fotografada desde então. Mas os seus olhos azuis-esverdeados são reconhecidos e lembrados por terem tocado nos corações endurecidos do mundo inteiro.

À espera de mudança
Os fotógrafos tendem a acreditar que as imagens impressionantes podem tocar de tal forma nos corações de outras pessoas que conseguem destruir as políticas antiquadas que provocam tanto sofrimento. Patrick Farrell tinha a certeza de que a imagem do rapaz sírio afogado forçaria uma ação contra a crise de refugiados que já dura há décadas.

“As pessoas nos Estados Unidos ouviam estas histórias como se não fossem nada. É como um ruído de fundo que ouvimos, mas que ignoramos.”

Mas, até agora, a Síria permanece debaixo de cerco em todos os sentidos, o seu povo está ferido e continua a morrer.

E na fronteira EUA-México, a crise continua, tal como nas nações em dificuldades mais a sul.

E na Indonésia, as reações à imagem da vítima de COVID-19 foram hostis, com o chefe da equipa de resposta governamental ao coronavírus a questionar a ética de Irwandi por tirar a fotografia. Em resposta, a associação de fotojornalismo do país determinou que a imagem respeitava os padrões jornalísticos.

Se as fotografias poderosas ainda conseguem realmente mudar a história, parece que a história não está com pressa de mudar.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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