Fotografia de Vítima de COVID-19 na Indonésia Desperta Fascínio – e Negação

Uma vítima de coronavírus embrulhada em plástico mostra o que muitos não queriam que a população visse.

Tuesday, July 28, 2020,
Por David Beard
O corpo de uma vítima suspeita de COVID-19 jaz num hospital indonésio. Após a morte do ...

O corpo de uma vítima suspeita de COVID-19 jaz num hospital indonésio. Após a morte do paciente, os enfermeiros envolveram o corpo em camadas de plástico e aplicaram desinfetante para evitar a propagação do vírus.

Fotografia de JOSHUA IRWANDI

O fotojornalista Joshua Irwandi acompanhou de perto os funcionários de um hospital na Indonésia, captando uma imagem impressionante de um corpo envolto em plástico – de uma vítima de COVID-19 – certificando-se de que não revelava características distintas ou até o sexo da vítima.

A imagem, captada para a National Geographic como parte de uma bolsa concedida pela National Geographic Society, chocou os 270 milhões de pessoas que vivem no país. A resposta da Indonésia à pandemia global foi lenta, com o presidente Joko “Jokowi” Widodo a promover em março um medicamento herbal não comprovado. Algumas das reações à fotografia de Joshua Irwandi, que humanizaram o sofrimento provocado pelo vírus, foram hostis.


A fotografia de Joshua Irwandi foi exibida na televisão, foi partilhada pelo porta-voz da equipa de resposta ao coronavírus do país, e foi amplamente partilhada sem o consentimento de Irwandi pela imprensa indonésia. Mais de 340 mil pessoas “gostaram” da imagem na página de Instagram de Joshua Irwandi, que ele publicou após o artigo da National Geographic ter sido publicado no dia 14 de julho. Nas primeiras horas que se seguiram à publicação da imagem no Instagram da National Geographic, mais de 1 milhão de pessoas também colocaram um “gosto” na publicação.

“Está claro que o poder desta imagem galvanizou a discussão sobre o coronavírus”, disse Joshua Irwandi na Indonésia. “Temos de reconhecer o sacrifício e o risco que os médicos e enfermeiros estão a enfrentar.”

Não há dúvidas de que a fotografia surtiu efeito, diz Fred Ritchin, reitor emérito do Centro Internacional de Fotografia: “Vemos uma pessoa mumificada. Faz-nos olhar para a imagem, faz-nos sentir o terror.”

Ao mesmo tempo, existe uma certa distância, diz Fred Ritchin. “Para mim, a imagem era a de alguém a ser atirado fora, descartado, embrulhado em celofane, borrifado com desinfetante, mumificado, desumanizado, distanciado... Faz sentido de certa forma. As pessoas distanciam-se de outras pessoas com o vírus porque não querem estar sequer perto da doença.”

Depois de Joshua Irwandi ter publicado a fotografia, um cantor popular com um número massivo de seguidores acusou o fotógrafo de ter fabricado a notícia – disse que a COVID-19 não era assim tão perigosa e opinou que não devia ser permitido a um fotojornalista tirar uma fotografia num hospital, já que a família não podia ver a vítima. Os seguidores do cantor acusaram Joshua Irwandi de montar a fotografia com um manequim e chamaram-no de “escravo” da Organização Mundial de Saúde. A ética do fotógrafo de 28 anos também foi questionada pelo governo, que sugeria que o nome do hospital, que não foi divulgado na fotografia, devia ser revelado, segundo a CNN Indonésia.

“Detalhes da minha vida privada foram publicados sem a minha autorização”, disse Irwandi. “Desviámo-nos completamente da intenção fotojornalística da minha fotografia.”

Contudo, Joshua Irwandi teve o apoio da associação de fotojornalistas do país. A associação respondeu que a imagem respeitava os padrões jornalísticos – e exigiu que o cantor se retratasse e pedisse desculpa, algo que fez posteriormente.

Joshua Irwandi diz que algumas autoridades governamentais afirmaram que o país devia levar a COVID-19 mais a sério. No dia 25 de julho, o Coronavirus Tracker da Universidade Johns Hopkins registava 4.714 mortes por COVID-19 e 97.286 casos na Indonésia, embora se acredite que esta contagem subestime largamente os números reais. Muitas pessoas não praticam o distanciamento social e são poucas as que usam máscara. As restrições sociais em grande escala começaram a desaparecer durante o mês passado.

Irwandi tem esperança de que a imagem incentive os indonésios a tomarem precauções – e a salvar vidas. E citou um desafio feito aos fotojornalistas em maio pela professora Sarah Elizabeth Lewis de Harvard – ir para além das estatísticas e mostrar como a COVID-19 está a afetar as pessoas. E outros fotógrafos, como Lynsey Addario, foram motivados a fazer o mesmo. (Addario também foi apoiada por uma bolsa da National Geographic Society para fazer a cobertura da COVID-19.)

Portanto, qual é o passo seguinte de Joshua Irwandi?

Ele pausa durante um momento.

“Penso que vou dar pouco nas vistas durante um tempo.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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