Entrevista ao fotojornalista José Sarmento Matos

Publicado 3/05/2021, 17:46 WEST
O fotojornalista José Sarmento Matos.

O fotojornalista José Sarmento Matos.

Fotografia de João Silva

José Sarmento Matos, fotógrafo documental português amplamente premiado, foi distinguido com uma bolsa do Fundo de Emergência da National Geographic Society. Em 2014, concluiu o mestrado em fotografia documental e fotojornalismo na London College of Communication, onde lecionou entre 2016 e 2019. Em 2015 foi considerado pela Magnum Photos um dos 30 melhores fotógrafos do mundo com menos de 30 anos. E em 2020 venceu o prémio Estação Imagem em Coimbra.

José Sarmento Matos foca o seu trabalho em temas relacionados com desigualdade social e identidade. O fotógrafo documental é também fotógrafo de cena para a A + E Networks / canal HISTORY - fazendo fotografia de cena de filmes e séries na Europa e Norte de África. Colabora com frequência com o jornal norte americano, The New York Times, o Le Monde, The Guardian Weekend e o jornal Público.

Durante a pandemia desenvolveu o projeto "Jamaika", financiado com a bolsa que recebeu da National Geographic Society, em colaboração com moradores do bairro e o músico Kid Robinn, foi um dos trabalhos selecionados pela National Geographic Society para ser apoiado pelo Fundo de Emergência COVID-19 para Jornalistas.
 

Como "chegou" ao Bairro da Jamaica?
Já tinha entrado no bairro antes, não cheguei lá de para-quedas, tinha feito um trabalho para a Bloomberg - um trabalho de um dia, e esse trabalho foi, de facto, o que me obrigou a ver esta realidade, que parece uma realidade quase paralela. Na altura, tive na dúvida de aceitar o trabalho ou não, porque não achei justo mais um trabalho jornalístico feito sobre um tema tão sensível num só dia.

E foi a partir daí que comecei a pensar na importância ou na dificuldade que uma pandemia cria mais desigualdade num contexto de vidas com condições habitacionais muito, muito precárias. A pandemia segrega-nos a todos, mas segrega mais as pessoas que já estão extremamente descriminadas. Por exemplo, há uma pessoa no bairro que quando estava grávida, depois de ter a prescrição de uma receita de um centro de saúde para fazer exames numa clínica privada foi lhe negado o acesso por vir do bairro da Jamaica, em plena pandemia. Neste caso, tinha havido um surto um mês antes desse episódio [no bairro] que foi noticiado como uma grande surto, quando havia duas dúzias de pessoas infetadas, envolveu novamente um grande aparato policial.

Outra coisa curiosa, nós povo português somos um povo emigrante e imigrante em muitos sítios. O que é que vê no futuro? Será que a COVID-19 veio abrir os olhos a mais gente?
Acho que não, acho que a COVID-19 veio piorar o problema de certas pessoas a terem menos facilidade em analisar os problemas dos outros. Temos de pensar qual é o nosso trabalho, responsabilidade, seja como ser humano, seja como jornalista, seja como pessoa que não sofre de discriminação racial, ou outro tipo de discriminação diariamente. Como é que a minha vida, de facto, é facilitada e qual é o meu propósito e responsabilidade. Não é apenas usar esse facilitismo mas também tentar mudar e expor desigualdades, sendo que, eu de alguma forma, sou uma pessoa que tenho esse privilégio. E aqui falamos de vários privilégios, só o facto de eu poder ir a um bairro para fazer um projeto, é um privilégio, sou eu que estou interessado naquelas histórias, em querer saber sobre uma questão de desigualdade de habitação e expor essa desigualdade.

Por não perceber esta realidade ao principio - e não sei se já percebo – fui recorrendo às pessoas certas, que conhecem mais e que estudam estas questões, como pessoas do Chão - Etnografia Urbana ou a jornalista Joana Gorjão Henriques, por exemplo. Depois, recorrendo às próprias pessoas do bairro, dando-lhes as ferramentas para eles contarem o seu-dia-dia, não só com cameras que lhes cedi como através de entrevistas colaborativas. Para além disso, recorri à música de um rapper local, Kid Robinn, que me conta a vida do bairro de um modo que eu não conseguiria pôr em fotografias num espaço de quatro ou cinco meses, e se pusesse só em fotografia seria um trabalho extremamente incompleto.

Inspirou alguma daquelas crianças, ou alguém mais velho, a seguir esta carreira de fotojornalismo?
Acho que não. Talvez a Lurdes, tenha mais interesse em fotografia /vídeo agora, porque teve tanto tempo a filmar a vida dela com a mãe. Antes da Naíde Jordão [fixer de José Sarmento Matos no bairro] me apresentar o Kid Robbin, procurei alguém que quisesse ser jornalista, não encontrei ninguém. Aliás isso também revela bastante o que é a realidade num bairro em que as oportunidades são tão escassas, que tu procuras ou expressas-te da forma como podes, e a música é uma delas. Em muitos bairros isso acontece, o rap especificamente, ou a dança ou procurares um carreira de jogador de futebol, que são oportunidades. Não é que sejam fáceis, não são, mas são duas saídas que vêm de outras inspirações, de outras pessoas que saíram dali.

Se eu crio sonhos nas pessoas para serem fotojornalistas? Por um lado, espero que não, sendo uma profissão tão instável, não sei se pretendo criar esse interesse e criar uma expectativa.

No entanto, gostava de desenvolver workshops com as crianças e outros eventos que possam dar mais ferramentas para eles contarem as suas histórias. Apesar de ser uma profissão instável, é fundamental criarmos oportunidades para haver uma diversidade maior de perspetivas.

Quais são as suas expectativas e como é que as pretende gerir? Não deve ser fácil, ter um trabalho assim e depois querer fazer mais.
Eu tenho uma maneira de trabalhar muito flana. Não estou louco à procura de temas, não me interessa isso. Em todos os trabalhos que eu fiz, os temas surgem através de acontecimentos/ momentos que me que me levaram até um “sítio” específico.

Não faço ideia qual será o próximo projeto, porque provavelmente não estávamos a ter esta conversa, se não tivesse ido ao bairro com este assignment para a Bloomberg. Quero continuar o trabalho no Bairro da Jamaica, não sei se me quero comprometer com isso já, mas gostava que fosse até ao bairro acabar. E o processo seguinte, o realojamento.

Queria de alguma forma acompanhar este tema durante algum tempo, para também deixar documentado uma situação que é atual, que eu espero que se altere, mas que um dia também possamos relembrar que isto aconteceu. Estamos no século XXI e aquelas condições habitacionais, segregação e descriminação racial existem nos dias de hoje, e é muito fácil esquecermos isso. Acho que é importante desenvolver estes trabalhos de uma forma longa e profunda, não só para ouvirmos as pessoas, mas também para um dia estudarmos a história e nos apercebemos-nos que isto aconteceu no nosso tempo. Se calhar as futuras gerações vão ter vergonha da forma como, em Portugal, hoje existem pessoas a viverem em condições de habitação bastante precárias.

Nós temos vergonha e questionamos o que foi feito no século XVI, com os descobrimentos e pensamos nisso no entanto, de uma forma, que ainda não é questionável o suficiente, e que deve ser mais questionada. Acho que no futuro vamos ser questionados sobre situações como esta. Terminado o apoio da National Geographic, espero conseguir continuar este trabalho, talvez com novos apoios.

As pessoas já sabem para onde é que vão ser realojadas?
As pessoas do lote 10 foram realojadas num plano de realojamento de integração, que funciona de forma a não colocar os residentes noutro bairro, mas sim disponibilizando casas em zonas diferentes do Seixal. Em relação aos próximos três edifícios, não se sabe.

E o que é que vai nascer ali? Já se sabe?
O espaço onde a construção de um complexo residencial foi embargado nos anos 70 e para onde se mudaram posteriormente migrantes de países africanos é ironicamente gerido por uma empresa angolana. Esse facto, cria alguma pressão à Câmara para realojar o bairro. Talvez não havendo esse pressão, a Câmara do Seixal não daria atenção ao realojamento.

Além disso, infelizmente a COVID-19 funciona como uma desculpa para estas situações se atrasarem.

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