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Exclusivo: Fotografias Incríveis e Inéditas de Tribo Isolada Revelam Factos Inesperados

Na densa floresta tropical brasileira, estes índios protegidos desfrutam livremente de um estilo de vida intemporal.

Por Scott Wallace

21 dezembro 2016

 

As fotografias aéreas de uma tribo isolada na floresta tropical brasileira trazem novas informações que proporcionam uma nova perspetiva sobre um estilo de vida neolítico praticamente extinto da face da Terra.

As imagens de alta-resolução foram tiradas num helicóptero, na semana passada, por Ricardo Stuckert, um fotógrafo brasileiro, e oferecem uma perspectiva única de uma comunidade indígena dinâmica que vive completamente isolada na densa selva amazónica. A National Geographic foi a primeira a obter os direitos para publicar uma seleção de fotografias de Stuckert.

"Senti-me como se fosse um pintor no século passado", refere Stuckert, descrevendo a sua reação ao ver os nativos. "Imaginar que, no século XXI, ainda há pessoas que não têm contacto com a civilização e que seguem o mesmo estilo de vida que os seus antepassados tinham há 20 mil anos, espoleta uma forte emoção."

As fotografias de grande plano tiradas por Stuckert perto da fronteira brasileira com o Peru mostram pormenores acerca destes índios que têm escapado à atenção dos especialistas, tais como as pinturas corporais muito elaboradas e os cortes de cabelo. "Nós achávamos que todos eles cortavam o cabelo da mesma forma", disse José Carlos Meirelles, que tem trabalhado junto das tribos indígenas do Brasil e estudado o seu comportamento há mais de 40 anos. "Não é verdade. Conseguimos ver que têm muitos estilos diferentes. Alguns têm um ar muito punk."

A mesma tribo conquistou a atenção do mundo em 2008, quando os agentes da Fundação Nacional do Índio, conhecida por FUNAI, publicaram fotografias de indígenas com pinturas corporais de cor vermelha a lançar flechas à aeronave que sobrevoava a zona a baixa altitudes.

A tribo mudou-se várias vezes desde aquele momento em que foi avistada, refere Meirelles, um membro veterano da FUNAI e especializado nos povos indígenas da região. Meireles estava no voo do passado domingo, bem como nas missões anteriores realizadas em 2008 e 2010, das quais resultaram igualmente imagens extraordinárias. "Estes povos mudam de localização de quatro em quatro anos, ou perto disso," referiu Meirelles à National Geographic, durante a chamada telefónica a partir da sua casa. "Eles vão mudando de local. Mas são o mesmo grupo."

Stucker chegou no início deste mês ao Estado de Acre, no extremo ocidental da Amazónia, no âmbito de um projeto com duração de um ano, para fotografar tribos indígenas pelo Brasil. No passado domingo, entrou a bordo de um helicóptero com Meirelles para visitar o posto localizado na selva, em Jordão, perto da fronteira com o Peru. Quando a tempestade obrigou o helicóptero a fazer um desvio em pleno voo, os ocupantes viram-se subitamente a sobrevoar uma povoação isolada de cabanas de palha construída no meio da densa selva. Os habitantes nus ficaram, como é óbvio, igualmente surpreendidos, e fugiram pela floresta à medida que o helicóptero de aproximava.

Quando a equipa regressou ao local, algumas horas depois, para observar novamente a área, o pânico inicial da tribo parecia ter dado lugar à curiosidade. "Pareciam mais curiosos do que receosos", contou Stucker à National Geographic, durante a conversa telefónica. "Senti que havia uma curiosidade mútua: da parte deles e da minha."

O bem-estar aparente da tribo foi muito encorajador para Meirelles. As pessoas aparentavam ser saudáveis e estar bem alimentadas", referiu. As culturas de milho, mandioca e bananas junto ao grupo de cabanas comuns — conhecidas por maloca — pareciam ser em quantidade suficiente para alimentar entre 80 a 100 pessoas. Tendo em conta as outras malocas que pertenciam à mesma tribo, Meireles acredita que a tribo conta com mais de 300 pessoas.

Igualmente impressionante para Meireles foi a quantidade de flechas que os indígenas dispararam contra o helicóptero, ato que considerou ser um sinal saudável de resistência. "São mensagens", referiu Meirelles. "Aquelas mensagens significam: deixem-nos em paz. Não nos perturbem."

Ao contrário de outras regiões da Amazónia brasileira, o Estado de Acre impõe a realização de uma vigilância rigorosa das suas florestas e dos habitantes indígenas. As tribos isoladas de Acre parecem estar em segurança — por agora. Mas, nas selvas situadas do outro lado da fronteira, no Peru, abundam equipas de exploração madeireira ilegal, garimpeiros e traficantes de droga, representando o tipo de ameaças que exterminaram tribos inteiras no passado.

"Assim que os territórios são usurpados por madeireiros e garimpeiros, é o fim dos povos isolados.", disse Meirelles. "Eles poderiam até desaparecer da face da Terra que nós nem nos aperceberíamos."

Apesar de procurarem evitar o contacto direto com intrusos, os índios que habitam junto à nascente do rio Envra e do rio Humaitá utilizam há muito utensílios de aço. "Há registos datados de 1910 indicando que eles atacavam habitações e roubavam machetes e machados", disse Meirelles. "Já as utilizam há muito tempo. Fazem praticamente parte da sua cultura." Estes utensílios permitiram-lhes devastar uma área florestal suficiente para aumentar a produção de comida. Uma vez que o povo nunca manteve um contacto pacífico com o mundo exterior, o nome da tribo não é conhecido. As autoridades brasileiras referem-se a eles simplesmente como os "índios isolados da região superior de Humaitá."

Stuckert, um fotógrafo que fazia parte da antiga equipa dos principais media do Brasil, incluindo a Veja e O Globo, Stuckert, referiu que as suas quatro crianças são o seu público mais importante. "Eles são muito curiosos, estão sempre a fazer perguntas", referiu. "Demonstram muito interesse sobre o modo de vida destes índios, as pessoas que foram os primeiros seres humanos no nosso país. Eles querem saber todos os pormenores."

Stuckert espera que o seu quarto livro que está prestes a ser lançado, Índios Brasileiros, desperte a curiosidade e a consciência das futuras gerações, para que eles possam também sentir o arrepio na espinha que ele sentiu quando observou a aldeia sentado no helicóptero.

"Foi surpreendentemente intenso e emotivo", relembra. "A experiência marcou-me profundamente, foi um momento único. Vivemos na era em que homens pisam a Lua. Mas, aqui no Brasil, ainda há pessoas que continuam a viver da mesma forma que a humanidade o fazia há dezenas de milhares de anos."

Scott Wallace, um colaborador regular da National Geographic, é o autor de The Unconquered: In Search of the Amazon's Last Uncontacted Tribes. Siga-o no seu site e no Twitter.

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