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Veja Como é a Vida dos Refugiados Acima do Círculo Ártico

Refugiados do Médio Oriente e de África estão a ver neve pela primeira vez e a descobrir como rezar quando o sol nunca nasce.Por Meghan Collins SullivanFotografias por Axel Oberg

Por Meghan Collins Sullivan

11 janeiro 2016

 

A época do ski começa em meados de fevereiro na Lapónia sueca, na ponta norte do país. Mas há uma estância chamada Riksgränsen, não muito longe da fronteira com a Noruega que já está aberta e está cheia.

Os seus hóspedes, no entanto, não são esquiadores a apreciar as encostas: são refugiados a fugir de um conflito.

Para ser mais preciso, são 600 refugiados de países que incluem a Síria, Afeganistão e Iraque. Cem, são crianças e estão a adaptar-se à vida acima do Círculo Ártico.

“O hotel estava apagado e fechado, mas mais ou menos limpo”, afirma Sven Kuldkepp, presidente-executivo de Riksgränsen. “Tivemos dois dias para preparação. Correu tudo perfeitamente, mas foi frenético.”

Em outubro, quando existiam 10.000 refugiados a entrar na Suécia a cada semana, oficiais governamentais telefonaram a Kuldkepp para lhe perguntar se estaria interessado em abrir a estância para requerentes de pedido de asilo. Assim que o governo tomou uma decisão, as coisas aconteceram rapidamente. Kuldkepp assinou um contrato na tarde de um dia e, a meio do dia seguinte, tinha quase 600 hóspedes.

O governo paga 350 coroas suecas (cerca de 35 euros) por pessoa ao dia – muito menos do que um hóspede do ski pagaria. “Basicamente fizemos isto para fazer algo de bom”, afirma Kuldkepp.

O governo sueco recebeu 163.000 pedidos de asilo em 2015, com mais de 75.000 a darem entrada em apenas outubro e novembro. Numa tentativa de controlar o fluxo de refugiados, na semana passada a Suécia impôs o controlo de todos os viajantes nas fronteiras.

Todos os refugiados de Riksgränsen escolheram procurar asilo na Suécia, mas muitos nunca esperaram estar a viver a 16 horas de carro a norte de Estocolmo, mesmo que temporariamente. Atualmente a temperatura nas estâncias é de -23° C e a neve cobre o chão.

A região de Riksgränsen é tão a norte que, a maior parte do dia é totalmente de noite. Durante o mês de janeiro, o sol não sobe acima da linha do horizonte. Parece de madrugada durante algumas horas por dia e, depois, o resto do dia é totalmente escuro. Isso tornou difícil para os refugiados muçulmanos saber as horas indicadas para as suas rezas diárias, tipicamente baseadas na posição do Sol no céu.

“É uma espécie de Hotel Califórnia” sem o sol”, diz Marwan Arkawi, de 22 anos, que chegou a Riksgränsen com o primeiro grupo, em outubro. “Escolhi vir para a Suécia, mas não escolhi vir para aqui. Fui transferido para o local mais a norte em todo o mundo.

Para Arkawi e para os outros refugiados, um dia típico em Riksgränsen, diz ele, inclui comer as refeições fornecidas pela estância, ler, ouvir música, tocar instrumentos ou jogar cartas e passar muito tempo nas redes sociais, ligando-se a amigos e familiares. Existem também atividades organizadas: aulas de ski, cursos de sueco e inglês, bilhar, treino de boxe.

Apesar das distrações o tempo frio, os dias escuros e as diferenças culturais entre requerentes de asilo, podem ser desafiantes.

“Sente-se a tensão entre as pessoas. Estão deprimidas”, diz Arkawi. “Toda gente está deprimida, incluindo eu. Estamos completamente isolados”.

Arkawi diz que espera conseguir trazer o irmão mais novo, a irmã e os pais da sua cidade natal de Banyias, na Síria, para Estocolmo.

“A minha cidade foi aniquilada. A minoria Suni foi chacinada”, diz ele. “Não quero ir para o serviço militar obrigatório para matar o meu povo. Quero um futuro melhor.”

Qasim Ali Radi, de 47 anos, também veio para a Suécia em busca de um futuro melhor. Deixou a mulher e quarto dos seus filhos no Iraque, e passou duas semanas na estrada e no mar, com o seu filho de 19 anos, antes de chegar a Riksgränsen. Radi trabalhou como contabilista e foi apanhado numa vertente do conflito sectário que colocou a sua vida em perigo.

“Estou feliz porque aqui estou a salvo”, diz. “Sim, aqui é escuro mas sinto-me bem sempre que aprendo inglês ou sueco”.

Radi, como muitos dos refugiados recentes, teve uma experiência angustiante depois de pagar 3,000 dólares por dois lugares num barco de borracha com 6 metros que carregava 50 pessoas da Turquia para a Grécia.

“O mar tornou-se revolto, as ondas tornaram-se muito fortes e entrámos em pânico até perdermos totalmente a esperança de chegarmos são e salvos. As mulheres gritavam e as crianças choravam”, afirma. “Depois de cinco horas, de forma milagrosa, acabou tudo bem”.

Radi espera levar o resto da família para a Suécia.

“Quando cruzámos o mar, senti uma felicidade enorme mas chorei ao mesmo tempo porque senti que tinha perdido uma parte de mim, afastado da minha família com quem desejo viver o resto da minha vida. Agora as minhas lágrimas transbordam”, afirma.

Os refugiados não sabem para onde vão, mas sabem que o seu tempo em Riksgränsen é limitado. A estância assinou um contrato de quatro meses para abrigar os refugiados – esse tempo acaba a 15 de fevereiro. Os turistas regressam a Riksgränsen a partir de 19 de fevereiro.

“Não sabemos para onde vão”, diz Kuldkepp, “mas resolveram esse problema antes e vão fazê-lo de novo”.

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