Deb Haaland: "Porque Não Eu? Porque Não Agora?"

A National Geographic traça o perfil de uma das primeiras mulheres de ascendência nativo-americana a ser eleita para o Congresso dos Estados Unidos, nas eleições intercalares de 2018.quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Assinalando aquele que é, talvez, o maior marco destas eleições intercalares, no Congresso dos Estados Unidos figuram agora as duas primeiras mulheres de ascendência nativo-americana.

Deb Haaland, membro do Partido Democrático do Novo México e oriunda da tribo Pueblo of Laguna, substituirá Michelle Lujan Grisham, do Partido Republicano, recentemente nomeada governadora do estado do Novo México, assumindo funções no dia 1 de janeiro de 2019. Haaland derrotou a candidata republicana Janice Arnold-Jones. E, no estado do Kansas, a advogada Sharice Davis, da tribo Ho-Chunk Nation, irá suceder ao governador republicano Kevin Yoder.

Não há como hiperbolizar o valor histórico destas duas vitórias, afirma Mark Trahant, o editor do jornal Indian Country Today. Das cerca de 12 mil pessoas eleitas para o Congresso dos Estados Unidos desde 1789, apenas há registo de 300 pessoas de ascendência nativo-americana — e nenhuma delas do sexo feminino.

“A comunidade nativo-americana vai perceber o quão importante é ter representação no congresso; é algo que irá mostrar a todos os americanos que é necessário incluir os primeiros americanos no debate nacional”, afirma Trahant.

Estas vitórias são, ao mesmo tempo, um marco histórico para as mulheres em geral. Foram eleitas 96 mulheres, 31 pela primeira vez e 65 recorrentes. Nos estados do Michigan e do Minnesota foram eleitas as primeiras muçulmanas, com a candidata do Partido Democrata Rashida Tlaib a ocupar a posição cedida por John Conyers, no estado Michigan, enquanto Ilhan Omar, do Minnesota Democratic-Farmer-Labor Party, irá substituir Keith Ellison, que foi eleito Procurador-Geral.

Os resultados surpreendentes das eleições intercalares norte-americanas surgem-nos no encalce do reconhecimento das controvérsias relacionadas com escândalos de assédio sexual e dinâmicas de poder que sufocaram as vozes das mulheres ao longo da história. Fenómenos como movimento #MeToo e a audiência de confirmação para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos do juiz Brett Kavanaugh (acusado de crimes de abuso sexual) motivaram o crescimento da representação feminina na esfera política. 

Além da sua carreira na área do direito, Davids é assumidamente homossexual e uma praticante de artes marciais mistas. A ela uniram-se outros candidatos e candidatas da comunidade LGBTQ, e juntos causaram, como se viu, um considerável impacto nestas eleições. No Colorado, o representante do Partido Democrata Jared Polis tornou-se no primeiro governador assumidamente homossexual em todo país. Entre os apoiantes da causa LGBTQ, conta-se ainda Kate Brown, do Oregon, que foi reeleita, Christine Hallquist, candidata democrata do Vermont, e Lupe Valdez, também democrata, do Texas.

Por Trás da Aposta Histórica de Deb Haaland para se Tornar a Primeira Mulher Nativa no Congresso
Durante séculos, as comunidades nativas lutaram contra a privação de direitos e a marginalização. Agora, Haaland irá juntar-se a outras Mulheres Nativas no Congresso norte-americano, depois de eleições revolucionadoras.

As vitórias de Haaland e Davids celebram ainda o longo caminho percorrido pelos cidadãos de ascendência nativo-americana para terem representação política. Só em 1924 é que o Governo dos Estados Unidos da América garantiu o direito à cidadania a todos os nativos norte-americanos; e o estado de Haaland, o Novo México, foi o último a garantir-lhes o direito a votar, em 1962.

Muitos comentadores apontam os protestos que ocorreram em 2016 contra a construção de um oleoduto no estado do Dakota, o Dakota Access Pipeline, como um despertar do ativismo político da comunidade nativo-americana.

“O que se passou na reserva de Standing Rock foi que, independentemente de aquelas pessoas terem ou não conseguido bloquear a construção do oleoduto, elas perceberam que, afinal, tinham, efetivamente, algum tipo de autoridade, e esse sentimento pode ser contagioso”, explica-nos Trahant. Estima-se que várias dezenas de candidatos durante as eleições intercalares de 2018 concorreram para se juntarem aos dois únicos nativo-americanos atualmente a exercer funções no congresso — Tom Cole, da tribo Chickasaw, e Markwayne Mullin, um Cherokee. Ambos republicanos do Oklahoma.

Haaland e Davis foram criadas em famílias de militares — algo comum quando uma fração tão grande das forças armadas norte-americanas é de etnia nativo-americana, sendo que esta esteve representada em todas as guerras em que Estados Unidos estiveram presentes (e em números desproporcionalmente significativos).

Davis foi criada exclusivamente pela sua mãe, veterana do exército, e o pai de Haaland (que não é de etnia nativo-americana) ganhou uma Estrela de Prata enquanto fuzileiro e está enterrado no Cemitério Militar de Arlington. Identifica-se como uma novo-mexicana de 35.ª geração, e atribui à sua mãe e avó o devido crédito por lhe terem passado a herança cultural indomável do espírito nativo-americano.

“A minha avó limpava motores de comboios com um balde de querosene e um esfregão”, conta-nos Haaland. “A minha mãe foi funcionária federal durante 25 anos. Trabalhou na área da educação índia. Herdei-lhes a ética de trabalho.”

Os nativos americanos enfrentaram as mesmas estratégias de supressão de votos, como as poll taxes e os testes de literacia, que os afro-americanos ainda enfrentam nos dias que correm.

Por exemplo, em outubro a Tribo de Spirit Lake, no North Dakota, apresentou uma reclamação contra uma lei que negava o direito ao voto a membros de tribos que vivessem em reservas.

Mas comentadores como Trahant acreditam que a presença de pessoas como Haaland e Davids em Capitol Hill irá ter uma marca definitiva na consciência coletiva que os américos têm do seu povo nativo.

“Pela primeira vez, uma jovem de Laguna Pueblo pode dizer, ‘Posso crescer e tornar-me presidente.’ Até agora isso era impossível, pois nunca teria visto nenhuma que se parecesse com ela. Acho que isso é mais importante do que qualquer eleição isoladamente.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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