Os Mistérios das Minas do Rei Salomão

Uma análise de fezes animais da antiguidade confirma que um grande campo mineiro remonta à era dourada do famoso monarca bíblico.

Thursday, November 9, 2017,
Por Michelle Z. Donahue
Minas do Rei Salomão
A Rainha de Sabá visita a opulente corte do Rei Salomão numa cena imaginada pelo pintor britânico Edward Poynter
Fotografia de Heritage Images, Getty Images (Ilustração)

Estrume preservado durante milénios pelo clima árido do Vale de Timna, em Israel, dá um novo alento a um debate antigo sobre o bíblico rei Salomão e a fonte da sua lendária riqueza.

Um grupo de arqueólogos descobriu fezes com 3000 anos num antigo campo mineiro situado num planalto de arenito conhecido como Colina dos Escravos. A área conta com várias minas e campos de fundição de cobre – locais onde o minério era aquecido e transformado em metal.

O arqueólogo Erez Ben-Yosef, da Universidade de Tel Aviv, começou a escavar o local em 2013. No ano passado, Ben-Yosef e a sua equipa estavam a descobrir ruínas de várias estruturas muradas, incluindo uma passagem fortificada, quando encontraram o que pareciam ser excrementos de animais relativamente recentes.

Uma equipa de arqueólogos encontrou fezes de burro com 3000 anos num antigo campo mineiro num planalto conhecido como Colina dos Escravos no Vale de Timna, em Israel.
Fotografia de Erez Ben-Yosef e CTV Project

“Pensámos que talvez alguns nómadas tivessem acampado naquele local com a suas cabras há algumas décadas”, disse Ben-Yosef, assinalando que as fezes ainda continham matéria vegetal não deteriorada. “Mas quando as datas [obtidas por radiocarbono] chegaram, confirmaram que se tratava de burros e outros animais domesticados do século X a. C. Foi difícil de acreditar.”

Embora a provecta idade e o estado das fezes fossem impressionantes, as implicações dos resultados do radiocarbono eram ainda mais incríveis.

“Antes de iniciarmos o projeto em 2013, pensava-se que este local era da Idade do Bronze e que estava relacionado com o Novo Reino do Egito no século XIII e no início do século XII a. C”, afirma Ben-Yosef. Existem evidências claras de uma presença egípcia naqueles séculos, e os atuais visitantes da zona circundante do Vale de Timna são recebidos com sinais que ostentam ilustrações de egípcios da antiguidade.

Mas a muito exata datação por radiocarbono das fezes, bem como de têxteis e de outro material orgânico demonstrou que o apogeu do campo mineiro ocorreu no século X a. C – a época dos reis David e Salomão presentes na Bíblia.

A reconstrução artística do campo mineiro baseia-se em evidências arqueológicas.
Fotografia de Ronnie Avidov e CTV Project (Ilustração)

A LONGA PROCURA DAS MINAS DE SALOMÃO

De acordo com a Bíblia hebraica, o Rei Salomão era conhecido pela sua grande sabedoria e riqueza, e entre os seus vários projetos de construção contam-se um templo em Jerusalém abundantemente decorado com objetos de ouro e bronze. Uma estrutura daquele tipo exigiria grandes quantidades de metal provindos de operações mineiras de escala industrial algures no Médio Oriente, mas as escrituras nada dizem sobre a localização destas operações.

Nos anos 30 do século XX, o arqueólogo americano Nelson Glueck (que se pronuncia Glic) anunciou que tinha encontrado as famosas minas quando explorava o Vale de Araba, uma falha geológica, rica em cobre, que se estende do Mar Morto até ao Mar Vermelho e atravessa a fronteira moderna de Israel e Jordânia.

“Sabe-se, agora, que ao longo de todo o comprimento do Wadi Araba existem jazidas de cobre e ferro”, escreveu Glueck num artigo intitulado “On the Trail of King Solomon’s Mines” (Em busca das minas do Rei Salomão) na edição de fevereiro de 1944 da revista National Geographic. “Estas jazidas foram intensamente exploradas em tempos remotos, sobretudo durante a época do Rei Salomão.”

O arqueólogo Nelson Glueck (o segundo a contar da esquerda) acreditava ter encontrado as minas de Salomão no Vale de Araba, que é rico em cobre e se situa a sul de Israel e da Jordânia.
Fotografia de Kenneth Garrett, National Geographic Creative

No entanto, muitos arqueólogos que seguiram as pisadas de Glueck defendiam que Salomão e David não era os poderosos reis descritos na Bíblia. Eram antes pequenos chefes de clã incapazes de organizar uma operação mineira de larga escala e de orquestrar trocas comerciais de longa distância.

Os críticos discordavam ainda da cronologia bíblica tradicional, que coloca os reinos de David e Salomão no século X a. C. Desta forma, “Glueck tornou-se alvo de chacota no mundo académico”, diz Thomas Levy, professor de arqueologia na Universidade da Califórnia, San Diego, e explorador do National Geographic.

Porém, as descobertas das últimas décadas podem inverter a situação e confirmar a fé de Glueck no registo de eventos bíblicos.

Em 1997, Levy começou uma escavação que durou vários anos em Khirbat en-Nahas, um local no sul da Jordânia que, segundo Glueck, poderia ser um antigo centro de distribuição de cobre. Levy e a sua equipa escavaram mais de seis metros de cobre e resíduos de escória de cobre até atingirem solo virgem, o que indica que foi ali produzido metal em grande quantidade. “As nossas escavações dão sustentação a muitas das ideias de Glueck”, escreveu Levy em 2006.

Fragmentos de minério de cobre são obtidos facilmente numa região remota da Jordânia, onde o arqueólogo Thomas Levy descobriu um antigo campo mineiro.
Fotografia de Dmitri Kessel, The Life Picture Collection, Getty Images

A recente descoberta no Vale de Timna, em Israel, pode dar mais alguns pontos a Glueck, que descobriu e batizou o campo mineiro na Colina dos Escravos em 1934. A operação mineira do local ainda não foi ligada ao Rei Salomão, mas sugere que a região albergava uma sociedade complexa – muito provavelmente os Edomitas, antigos adversários dos Israelitas.

A precisão das passagens da Bíblia que afirmam que o Rei David marchou com os seus exércitos para o interior do deserto para combater os Edomitas é alvo de debate desde há muito tempo. Mas Ben-Yosef afirma que os muros fortificados encontrados em volta do campo de fundição indicam que provavelmente se tratava de um alvo militar.

Se a afirmação da Bíblia, segundo a qual David subjugou os Edomitas, estiver correta, este rei poderia estar em condições de exigir tributos, diz Ben-Yosef. “Existe uma possibilidade bem real de Jerusalém ter obtido a sua riqueza de impostos sobre estas operações mineiras.“ 

EVIDÊNCIAS DE TROCAS COMERCIAIS DE LONGA DISTÂNCIA

As amostras de fezes continham sementes e esporos de pólen tão intactos, que a equipa de Ben-Yosef foi capaz de determinar a dieta dos animais, o que causou uma nova surpresa. O sustento era importado de uma área que fica a mais de 160 quilómetros a norte, perto da costa mediterrânica. A distância para Jerusalém é de cerca de 300 quilómetros, uma viagem que demorava duas semanas de burro naqueles tempos remotos.

As trocas comerciais de longa distância eram fundamentais para a sobrevivência neste local longínquo rodeado por um deserto árido. Todas os produtos necessários tinham de ser carregados por burros – até a fonte de água mais próxima ficava a 19 quilómetros de distância – o que tornava a satisfação das necessidades um empreendimento complexo e custoso.

“Neste período, o metal era um produto essencial, tal como o petróleo é na atualidade”, indica Ben-Yosef. “Por isso valia a pena a estes povos investir tanto nesta operação no meio do deserto.”

Foram descobertas mais de 1000 toneladas de detritos de fundição na Colina dos Escravos, afirma Ben-Yosef, o que é indicação de uma produção de escala industrial digna de um estado ou reino antigo. Se os Israelitas ou os Edomitas atingiram um nível tão elevado de desenvolvimento durante o século X a. C. continua a ser uma questão alvo de animada discussão, mas Ben-Yosef ganha alento com estas novas descobertas.

“Até há pouco tempo, não tínhamos quase nada deste período nesta zona”, indica. “Mas agora sabemos não só que era uma fonte de cobre, mas também que era do tempo do Rei David e do seu filho Salomão.”

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