História

Este Misterioso Homem-Símio Acaba de Dar uma Reviravolta à História Humana

Após se ter adicionado o Homo Naledi à àrvore genealógica humana, investigadores revelam agora que a espécie é mais recente do que inicialmente fora previsto. Quinta-feira, 9 Novembro

Por Michael Greshko

Um ano e meio após se ter adicionado um enigmático novo membro à família genealógica humana, uma equipa de investigadores a trabalhar na África do Sul revelam mais uma reviravolta: a espécie é bem mais recente do que se pensava inicialmente e poderá ter coabitado com os primeiros Homo Sapiens.

Descoberto pela primeira vez em 2013 por dois exploradores no conjunto de grutas da Estrela Ascendente, perto de Joanesburgo, um local repleto de restos mortais de hominídeos – a região de fósseis mais relevante em África – revelou uma espécie de cérebro mais pequeno, com ombros e tronco semelhantes aos de um símio, mas com algumas características humanas inabaláveis. Foi intitulado Homo Naledi, sendo Naledi a palavra para ‘estrela’ em Sesotho (língua bantu).

Agora a estrela desta espécie brilha mais do que nunca. Num artigo científico publicado esta Terça-feira na eLife, a equipa – liderada pelo paleoantropologista Lee Berger da Universidade de Witwatersrand (Wits) – estima um intervalo de idades para os restos mortais, encontrados pela primeira vez em 2015: entre 236,000 a 335,000 anos. A equipa também descreve uma segunda cavidade dentro do conjunto da Estrela Ascendente que contém restos mortais do Homo Naledi, ainda por datar.

Confirmando estas datas, poderá significar que enquanto a nossa espécie evoluía a partir de antepassados com cérebros maiores, ainda existia outra linhagem na sombra originária de um período muito anterior, provavelmente cerca de 2 milhões de anos atrás, ou mais. O intervalo de idades proposto também se sobrepõe ao início dos meados da Idade da Pedra, alimentando uma possibilidade provocatória, embora não comprovada: que os registos na África do Sul de ferramentas feitas em pedra dessa altura podem não ser apenas o resultado do trabalho manual de humanos anatomicamente modernos.

“Como é que sabemos que estas regiões que são associadas ao berço do comportamento humano moderno não foram povoadas pelo Homo Naledi?”, diz Berger, que é também um explorador em residência da National Geographic. “Podem imaginar o quão disruptivo isto é.”

A PEÇA QUE FALTA NO PUZZLE

Quando o Homo Naledi foi ‘ apresentado’ ao público em 2015, vários detalhes chave sobre a espécie ainda estavam por investigar. Como é que o Homo Naledi se relacionava com outras espécies hominídeas? Seria o Homo “raíz” na base da linhagem do nosso gênero, como parecem sugerir alguns dos elementos do seu corpo?

Como a National Geographic reportou na altura, o comunicado inicial tinha frustrado os cientistas devido ao que estava em falta.

“Sem uma data, este fósseis são mais curiosidades do que provas decisivas”, comentou William Jungers, um paleontólogo da Universidade de Nova Iorque, numa entrevista em 2015. “É a sua idade que irá determinar onde eles se encaixam na família genealógica humana.”

Alguns estudos posteriores tentaram preencher este vazio ao estimar a idade do H. Naledi com base na comparação do crânio e dos dentes a outros hominídeos. Um deles indicou que a espécie podia ter cerca de dois milhões de anos e o outro, segundo um estudo da investigadora Mana Dembo, da Universidade Simon Fraser, sugeria que teria cerca de 912,000 anos – um milhão de anos aproximadamente.

Mas entretanto, a equipa de Berger desenvolvia um palpite de que o H. Naledi seria mais recente. “Foi muito interessante presenciar isto porque enquanto todos estes estudos eram publicados nós sabíamos que a conclusão seria menos de meio milhão de anos”, comenta Paul Dirks, um geólogo da Universidade de Wits e James Cook.

Dirks diz que a equipa evitou trazer resultados a público antes de tempo porque se este intervalo de datas viesse a estar errado, criar-se-ia alguma contestação em relação ao ritmo acelerado a que os resultados teriam aparecido. O estranho facto da gruta não ter vestígios de fauna também significava que a datação requereria ter que ‘destruir’ parte dos fósseis, de valor incalculável.

Assim que os fósseis foram expostos, Dirks e outros 19 cientistas decidiram usar seis métodos diferentes de datação para limitar o intervalo de idades do H. Naledi.

Para começar, usaram datação radiométrica sobre escorrimentos de calcita que cobriam alguns dos restos mortais do H. Naledi. Dois laboratórios independentes comprovaram que a calcita teria cerca de 236,000 anos, o que significava que os restos do H. Naledi teriam que ser mais antigos.

Datar a idade máxima provou-se ser mais complicado; não haviam escorrimentos de calcita na parte inferior. Foi através da colocação de grãos de sedimento e três dentes do H. Naledi através de uma sequência de outros métodos de datação, incluindo alguns baseados na quantidade de radiação existente que os materiais tinham devido à radiação natural da gruta onde se encontravam.

“Temos toda a confiança nos resultados apresentados”, diz John Hawks, um paleontólogo da Universidade de Wisconsin-Madison que fez parte da equipa.

Jungers, agora investigador pertencente à Associação Vahatra de Madagáscar, diz que esta nova datação enfatiza o risco de datar fósseis com base apenas na sua forma. “O Homo Naledi (assim como o Homo Floresiensis) junta mais um argumento”, diz por email. O H. Floresiensis, apelidado de “Hobbit” era uma espécie de pequena estatura e cérebro menor que existiu na ilha indonésia de Flores até cerca de 60,000 – 100,000 anos atrás.

Warren Sharp, geocronólogo na Universidade da California, em Berkeley, que não esteve envolvido no estudo, aplaudiu a equipa pelo rigor do seu esforço. Contudo, enfatiza que para ter a certeza absoluta da estimativa de idade máxima é preciso monitorizar a radioatividade e o comportamento da gruta ao longo do tempo – uma tarefa deveras complicada.

“Eles fizeram o melhor trabalho possível com as ferramentas que tinham... [mas] as datas obtidas através dos dentes são inerentemente menos convicentes,” diz Sharp. “Não digo que seja culpa dos autores. Apenas digo que terão que viver com isso.”

MAIS UMA REVELAÇÃO

Berger e os seus colegas também anunciaram esta Terça-feira que o conjunto de grutas da Estrela Ascendente também revelou uma segunda cavidade que contém fósseis de H. Naledi, descoberta durante o trabalho de campo em Novembro de 2013 por Steven Tucker e Rick Hunter, os mesmos exploradores que tinham feito a primeira coleção de exemplares na cavidade denominada por Dinaledi.

Esta segunda cavidade, denominada Lesedi – que significa “luz” em Setswana – encontra-se a mais de 90 metros da Dinaledi, que continha cerca de 1,500 vestígios de H. Naledi.
Cerca de 130 vestígios foram adicionalmente encontrados na cavidade Lesedi até agora, que representam dois adultos e pelo menos uma criança. Um dos dois esqueletos adultos, provavelmente um macho, encontra-se notavelmente completo e inclui um crânio com vários dos seus ossos faciais preservados, aportando informação crucial que se encontrava em falta nos primeiros achados. Não admira que a equipa tenha denominado o indivíduo de Neo – a palavra em Sesotho para “prenda”.

“[Neo] é realmente comparável no seu estado de preservação ao esqueleto de Lucy”, diz Hawks, referindo-se ao famoso esqueleto completo de um Australopithecus afarensis, proveniente da Etiópia, com cerca de 3.2 milhões de anos. “Faltam-nos algumas partes que existiam no caso da Lucy mas também temos algumas partes que ela não tinha.”

Assim como na cavidade Dinaledi, cuja entrada requer passar por uma abertura de apenas 18 cm, a cavidade Lesedi também apresenta desafios singulares para explorações arqueológicas. Marina Elliot, a cientista exploradora de Wits que liderou as escavações nas duas cavidades, afirma que apesar da Lesedi não ser tão difícil de alcançar como a de Dinaledi, é mais difícil de escavar. Os restos mortais de Neo foram encontrados num espaço muito estreito, com cerca de 60 centímetros de comprimento.

“Basicamente eu escavo deitada sobre o meu peito ou em posição fetal, com os meus dois ombros apertados por rocha dos dois lados”, diz. “É fisicamente muito difícil, tentei praticar muito yoga para o conseguir fazer.”

O próprio Berger não chegou a entrar na cavidade Dinaledi e apenas por uma vez se aventurou na Lesedi. Durante o seu regresso à superfície, ficou preso durante quase uma hora, tendo sido puxado por cordas persas aos pulsos pelos seus colegas. Os membros da equipa apelidam agora esta passagem de “Caixa de Berger”

UM CONJUNTO DE PROVAS

À luz da descoberta da câmara de Lesedi, a equipa de Berger apresentou justificações para defender uma das suas polémicas e mais contestadas hipóteses: a de que, de alguma forma, o Homo naledi utilizava o sistema de grutas Rising Star para se descartar dos restos mortais dos seus pares.

Esta teoria arrojada teve origem na estranheza absoluta da câmara de Dinaledi, caraterística que partilha com a câmara de Lesedi. As câmaras contêm, quase exclusivamente, restos mortais dos Homo naledi, o que é altamente invulgar (apesar de Lesedi conter alguns vestígios de fauna). Ainda mais estranho é o facto de Berger e os seus colegas ainda não terem encontrado nenhuma entrada alternativa para as câmaras.

“Quais são as hipóteses de existir um fenómeno natural que deixou vários corpos, adultos e jovens, em camadas, em duas áreas da gruta separadas e distantes entre si, e de o tratamento dos cadáveres ter sido feito em condições muito semelhantes — e nós encontrarmos ambas?”

Muitos académicos exigem mais provas antes sequer de ouvirem as justificações. “Há muitos especialistas (onde eu me incluo) que consideram que tal comportamento complexo não é próprio de uma criatura com o cérebro do tamanho do cérebro de um gorila, especialmente quando um requisito do uso controlado do fogo (para efeitos de iluminação) tem provavelmente de ser acrescentado”, afirma Chris Stringer, antropologista no Museu de História Natural de Londres que reviu os mais recentes artigos científicos publicados.

Além disto, arqueólogos externos e membros da equipa chamam a atenção para o facto de que se o Homo naledi efetivamente se descartasse dos cadáveres dos seus pares, não o faria movido por rituais ou razões, à semelhança do que acontece com os humanos.

“Está alguma coisa muito estranha a acontecer, isto é certo”, afirma Aurore Val, bolseiro de pós-doutoramento de Wits, que teceu críticas à hipótese relativa aos cadáveres num ensaio que escreveu em 2016. “Tem de se ter cuidado quando se fala em práticas mortuárias... não se circunscrevem a escavar buracos, não têm ferramentas. Não são um ritual per se, como o que vemos acontecer com o Homo sapiens e os Neandertais.”

“Vemos os humanos como seres muito espertos, que fazem as coisas por algum motivo”, diz Hawks. “Não estou a pensar em motivos — a coisa mais básica que se pode fazer é certificar-se de que os corpos não são esgravatados por predadores ou que ficam expostos às condições climatéricas.”

UM TEMPO E UM LUGAR

Berger e a sua equipa ainda não dataram os vestígios de Lesedi, e as datas de que dispõe relativamente a Dinaledi não permitem determinar a longevidade da espécie Homo naledi. Permitem, sim, determinar o início da Idade da Pedra Média, uma altura em que o género Homo ainda era como um arbusto emaranhado e diversificado — e não uma linhagem com uma espécie única e podada da espécie, como existe atualmente.

Há aproximadamente 230 000 a 330 000 anos, não existiam apenas os percursores dos seres humanos anatomicamente modernos: teria havido neandertais na Europa e na Ásia, hominídeos de Denisova na Ásia, provavelmente alguns grupos isolados eurasiáticos dos nossos antepassados Homo erectus, bem como os antepassados do Homo floresiensis. Entre este panteão, o Homo naledi seria a primeira espécie conhecida a viver em África naquela altura, que se juntaria a algumas provas dispersas de formas arcaicas de Homo sapiens.

Continua a não ser claro, contudo, em que ramo da árvore genealógica da Humanidade se encaixa o Homo naledi. A maioria dos investigadores concorda com a ideia de que o antepassado imediato do Homo sapiens foi o Homo erectus, que apareceu, pela primeira vez, há 1,8 milhões de anos. Mas a análise levada a cabo por Berger e pelos seus colegas sugere que, apesar de os vestígios de Homo naledi pertencerem a uma época mais recente, a sua morfologia sugere que ele poderia, de facto, ser um candidato mais forte à posição de nosso antepassado mais recente, sobrevivendo, em paralelo, durante milhões de anos antes de originar o ramo que levou até aos seres humanos modernos.

Para outros cientistas, é mais provável que os restos mortais encontrados em Rising Star representem a descendência de um ramo que sobreviveu num cul-de-sac continental, à semelhança do que aconteceu com o Homo florensiensis, refugiado na sua ilha.

“Pode vir a revelar-se que não se encontra na linha direta dos seres humanos”, afirma William Kimbel, diretor do Instituto de Origens Humanas, na Universidade do Arizona. “Mas tal não significa que seja insignificante. É fascinante.”

E tendo em conta o facto de os registos de fósseis na África Subsaariana ainda serem escassos, há boas hipóteses de o Homo naledi não ter estado sozinho.

“Não deveríamos ficar espantados por ter havido outras experiências relacionadas com a evolução no Plistoceno que possam, ou não, ter contribuído para o aparecimento do Homo sapiens”, refere Jungers por e-mail.O Homo naledi sugere que África esconde, provavelmente, outras surpresas paleoantropólogas.”

Um dos argumentos da equipa de Berger é também que, se o Homo naledi e os seres humanos modernos vivessem lado a lado, as ferramentas de pedra que se encontram um pouco por toda a África do Sul que remontam àquele período de tempo poderiam não ser obra de humanos. “Assumimos que [a construção de ferramentas] é um sinal da complexidade dos seres humanos modernos, mas a verdade é que está numa área do globo onde o naledi é o hominídeo mais bem documentado”, afirma Hawks.

“As pessoas vão precipitar-se e assumir que [os fabricantes de ferramentas] eram seres humanos modernos”, acrescenta Berger. “Mas, se vamos seguir as regras científicas, alguém como eu pode limitar-se a encostar-se na sua confortável e suave poltrona, enquanto fuma o seu cachimbo e sair-se com um ‘Ai sim? Prove-o.’”

Ao reunir know-how semelhante, a equipa de Rising Star argumenta também que o H. naledi pode apontar para a África subequatorial como sendo o principal propulsor do início da diversidade hominídea. Esta informação contradiz a afirmação de que foi na África Oriental que se deu a incubação do início da evolução humana, uma tese sustentada pelo facto de os sítios mais ricos em fósseis serem dessa zona, como a Etiópia, o Quénia e a Tanzânia.

Berger reconhece que o seu argumento será controverso. Mas fica realmente irritado quando se sugere que o H. nadeli representa algo secundário na evolução, e os créditos vão todos para a África Oriental. “Não é assim que devemos ler os mapas, não é assim que a evolução ocorreu, nem era esse o objetivo da expansão dos hominídeos”, afirma.

Bernard Wood, paleoantropologista na Universidade George Washington, faz notar que, de qualquer forma, o debate sobre a origem do Homo pode estar a ganhar contornos desnecessariamente exaltados.

“Temos de nos certificar de que não caímos na armadilha de assumir que todos os eventos importantes relativos à evolução humana ocorreram onde temos a sorte de encontrar fósseis”, realça Wood. “Não faz muito sentido anular uma hipótese errada de um Jardim de Éden substituindo-a por outra igualmente errada. Temos todos de relaxar, respirar bem fundo [e] celebrar o facto de esta ser uma evidência interessante.”

Ao que parece, a Rising Star terá mais motivos para celebrar nos próximos anos. Hawks estima que, até ao momento, a câmara Dinaledi tenha sido escavada em menos de cinco por cento, e é provável que haja mais vestígios em Lesedi. A equipa está também ocupada em procurar outros sistemas de câmara nas proximidades, em busca de mais provas dos nossos primos ancestrais.

“Isto deverá também incentivar as pessoas a não perderem a esperança na descoberta”, diz Elliott. “A descoberta não morreu.”

Jamie Shreeve contribuiu com a reportagem.

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