História

Sete Génios de Quem Provavelmente Não Ouviu Falar

Escândalos, disputas familiares e preconceitos sociais fazem com que algumas das maiores mentes da história não tenham sido reconhecidas — até agora.Thursday, November 9, 2017

Por Erin Blakemore
Patrick Branwell Brontë pintou este retrato das suas irmãs literárias Anne, Emily e Charlotte.

Se alguém lhe pedisse para dizer o nome de uma das historiadoras mais importantes de todos os tempos, provavelmente não se lembraria de Ana Comnena. Mas talvez devesse. Nascida como princesa bizantina, viu a Primeira Cruzada a desenrolar-se à frente dela e depois escreveu tudo o que observou.

O trabalho mais notável de Comnena, A Alexíada, está recheado de intensos relatos de derramamentos de sangue, batalhas e traições num espaço temporal que decorre entre 1081 e 1107. É uma rara fonte primária do período e oferece um olhar detalhado sobre o império ameaçado do seu pai e sobre a heterogénea aliança que se formou para lutar contra aquilo que os bizantinos consideravam uma ameaça existencial ao Cristianismo.

No entanto, o mais certo é que nem os entusiastas de história tenham ouvido falar dela. O mundo consegue esquecer alguns dos seus grandes génios, independentemente do seu brilhantismo, das suas conquistas ou da fama que tenham alcançado em vida.

Os preconceitos sociais e culturais podem desempenhar um papel no desaparecimento destes génios — inúmeras mentes excecionais foram subestimadas devido à sua raça, classe social ou género. E em muitos dos casos de génios perdidos que estão agora a ser redescobertos, as verdadeiras razões por que foram esquecidos envolvem grandes intrigas.

Veja-se Comnena: foi relegada para uma relativa obscuridade há vários séculos não apenas por ser mulher, mas devido à disputa familiar de outro historiador. Algumas décadas depois da morte de Comnena, um oficial bizantino chamado Coniates escreveu a sua própria versão da história da família de Comnena com um rumor atroz: a princesa, sugeria Coniates, esteve por detrás de uma conspiração que envolvia trair e assassinar o irmão para que ela se pudesse tornar rainha.

Não interessou o facto de Coniates ter razões para odiar Comnena — Coniates culpava o pai de Comnena pela queda de Constantinopla e pelo seu próprio exílio político. Não interessou o facto de Coniates se ter baseado em boatos quando escreveu o livro. Por alguma razão, o rumor ficou. E cresceu.

Hoje, Comnena continua a ser conhecida principalmente como uma vadia assassina com ânsia de poder e muitas pessoas leem o seu relato mais em busca de sinais da sua sede de sangue do que das suas observações sobre a vida na corte bizantina em período de guerra. Só recentemente é que os historiadores começaram a pôr em causa o retrato de Coniates, mas ainda pode demorar até que a reputação de Comnena seja reabilitada.

Por vezes, os génios são esquecidos por terem um inimigo poderoso ou uma má atitude. Pierre Louis Moreau de Maupertuis, uma das mentes mais formidáveis da sua geração, padecia de ambos os males.

Este polímato francês do século XVIII ajudou a determinar o formato da Terra e construiu os alicerces para a teoria da evolução. Mas Maupertuis tinha um caráter suscetível — chocava tantas vezes com Voltaire, nuns dias o seu melhor amigo e noutros não tanto, que um observador fez notar que eles “não tinham sido feitos para viver no mesmo espaço”.

Em 1751, a relação sobressaltada que mantinham transformou-se em inimizade figadal a partir do momento em que Voltaire tomou o partido dos críticos de Maupertuis. O sagaz autor ridicularizou o princípio da ação mínima de Maupertuis — hoje considerado um pilar da física — nos jornais. Maupertuis ficou devastado e hoje o seu nome é relativamente desconhecido, provavelmente devido ao fogo de artifício verbal do seu amigo mais influente.

Um retrato de Pierre Louis Moreau de Maupertuis, a quem o temperamento pode ter custado fama duradoura.

Os génios podem ser vítimas de adversários pessoais, mas o que acontecerá quanto toda uma sociedade está contra eles? Spoiler alert: Podem acabar por não entrar nos livros de história.

Benjamin Bradley inventou a primeira máquina a vapor suficientemente poderosa para alimentar um navio de guerra, mas é praticamente desconhecido hoje porque não conseguiu patentear a sua invenção. Bradley era um escravo, e, na altura, a lei considerava os escravos bens móveis — todo o trabalho físico e intelectual que fizessem pertencia legalmente aos seus donos.

Embora, aparentemente, Bradley tenha usado os lucros que obteve com a máquina a vapor para comprar a liberdade, o seu trabalho nunca foi patenteado e, atualmente, está largamente esquecido. Este destino foi partilhado por um número desconhecido de pessoas escravizadas cujos contributos nunca serão reconhecidos.  

As patentes viriam a ter um papel importante em outro caso de amnésia histórica — o de Jagadish Chandra Bose. Na década de 1890, Bose descobriu que os cristais de galena captavam sinais de rádio. No entanto, recusou-se a lucrar com a ciência. Embora tenha deixado que um amigo o convencesse a candidatar-se a uma patente para um “detetor de distúrbios elétricos”, acabou por deixar passar o prazo.

E se Bose não se preocupou com as patentes, o inventor do rádio, o mesmo não aconteceu com Guglielmo Marconi — que não se importava de tomar como suas as invenções de outros. Acredita-se que Marconi usou um dispositivo concebido por Bose para receber o primeiro sinal transatlântico sem fios em 1901, um feito que o tornou famoso no mundo inteiro.

Bose continuou discretamente a fazer avanços no rádio — e a recusar-se a ganhar dinheiro com isso. “Se tivesses visto a ganância e a sede de dinheiro [nos Estados Unidos]”, lamentava-se a um amigo em 1913. “Dinheiro, dinheiro — que ganância terrível e invasiva!”

Jagadish Chandra Bose era um inventor que recusava patentes.

A apropriação dos méritos pode também ser a razão por que Ibn al-Haytham não é um nome familiar. O académico árabe inventou o método científico no século XI. Mas, em Inglaterra, no século XIII, Roger Bacon reclamou como seu o método, dando continuidade a uma extensa tradição ocidental de ignorar os feitos anteriores de pessoas dos países do Médio Oriente e da Ásia.

E Esther Lederberg poderia ser conhecida como a mãe da microbiologia — não fosse o seu desrespeitador marido, Joshua.

As realizações de Esther foram tão impressionantes como as de Joshua — entre outras coisas, Esther descobriu o fago lambda, um tipo de vírus que continua a ser usado para estudar a forma como os genes se recombinam. Esther descobriu também uma forma revolucionária de duplicar colónias de células em placas de Petri e ajudou o marido a perceber de que forma as bactérias transferem genes.

Mas, na época, as mulheres cientistas trabalhavam frequentemente como membros não reconhecidos das equipas dos maridos em troca da oportunidade de fazerem o que gostavam, o que, de outra forma, dificilmente acontecia. Por sua vez, Joshua praticamente nunca reconheceu os contributos da mulher em público, e, durante anos, a pesquisa pioneira de Esther era quase desconhecida para aqueles que não prestavam atenção à figura despretensiosa por detrás do carismático homem.

“Ela era uma presença discreta”, diz Pnina Abir-Am, historiadora de ciência que documenta as histórias de mulheres nesta área do saber. Abir-Am, que conhecia Lederberg, considera que ela passou a maior parte da sua vida profissional a gerir a carreira do famoso marido e a subestimar as suas próprias realizações.

“Muita da energia, criativa e outra, foi gasta com o Joshua”, diz. “Eram uma unidade.” No entanto, só ele foi reconhecido com um prémio Nobel em 1958.

Contudo, não foram sempre os homens a ofuscar as mulheres. Anne Brontë poderia ser reconhecida como uma das figuras literárias mais importantes do século XIX — não fossem as suas irmãs mais famosas.

“Em qualquer outra família, ela seria um génio”, diz Samantha Ellis, autora britânica cuja recente biografia, Take Courage: Anne Brontë and the Art of Life, é uma tentativa de dar à outra irmã Brontë o devido reconhecimento. A irmã mais velha, Charlotte, tirou importância ao legado de Anne, diz Ellis — e, uma vez que a autora de Jane Eyre viveu mais tempo do que Anne, pode ter arruinado a possibilidade de a irmã atingir a fama.

Este presbitério rural no Reino Unido era a casa da família Brontë.

 

A Inquilina de Wildfell Hall, o romance feminista de Anne sobre as ramificações de uma relação alcoólica e abusiva, era um campeão de vendas na altura da sua morte, aos 29 anos. Mas Charlotte não aprovou a republicação da obra — talvez por o livro de Anne apresentar semelhanças com a história da vida real do irmão alcoólico das Brontë. Não fossem as suas irmãs mais famosas, a arrojada prosa de Anne poderia ter mais adeptos no século XXI.

O esquecimento de um génio significa mais do que uma desatenção histórica — representa uma oportunidade perdida de honrar alguém que poderia continuar a mudar o mundo ao influenciar gerações futuras, diz Amir-Am.

“Perdemos todos aqueles que continuam sem algo que os inspire e que tomam decisões nas suas vidas”, diz. “Estamos a deixar de prestar um serviço à sociedade — a mulheres e homens.”

Talvez as histórias mais tristes sejam as dos génios que nem sabemos que perdemos. O fardo da memória pertence-nos — e se nos dispusermos a recuperar e a celebrar as histórias destes génios, podemos descobrir que a história tem mais grandes figuras do que algum vez imaginámos.

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