Descoberta Sala Secreta Com Obra de Arte “Perdida” de Michelangelo

Estes desenhos nas paredes de um quarto, quase nunca vistos, podem ter sido criados quando o famoso artista se refugiou da família Médici, em 1530.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Claudia Kalb
Fotografias Por Paolo Woods

Em 1975, Paolo Dal Poggetto, o então diretor do Museu das Capelas dos Médici, em Florença, encontrou, por acaso, um tesouro do renascimento.

Quando procurava uma nova saída para os turistas, Dal Poggetto e os seus colegas descobriram um alçapão escondido por baixo de um guarda-fatos, perto da Nova Sacristia, um quarto projetado para albergar os túmulos ornamentados dos governantes da família Médici. Por baixo do alçapão, degraus de pedra levam a uma sala oblonga cheia de carvão, que, à primeira vista, parecia não ser mais do que um espaço de armazém.

Mas, nas paredes, Dal Poggetto e os seus colegas encontraram o que pensaram ser desenhos a carvão e giz, feitos pela mão do famoso artista Michelangelo. Enquanto a sala está fechada ao público para proteger a obra de arte, o fotógrafo da National Geographic, Paolo Woods conseguiu um raro acesso para poder documentar as fantásticas descobertas no seu interior.

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A obra prima é hoje visível porque Dal Poggetto não arriscou quando entrou pela primeira vez no quarto. Tratando-se de Florença , berço de muitos artistas eminentes da História, ele suspeitou que alguma coisa valiosa poderia estar enterrada por baixo das camadas de reboco.

“Quando temos edifícios que são muito antigos, temos de prestar muita atenção”, explica Monica Bietti, a sucessora de Dal Poggetto nas Capelas dos Médici.

Sob a direção de Dal Poggetto, especialistas passaram semanas a remover meticulosamente o reboco com bisturis. Quando removeram a cobertura descobriram dezenas de desenhos, muitos deles lembravam os grandes trabalhos de Michelangelo – incluindo uma escultura em mármore de uma figura humana, que adorna o túmulo de Giuliano de Médici, por cima, na Nova Sacristia, trabalho feito pelo próprio Michelangelo.

Dal Poggetto concluiu que o artista ocupou o interior da câmara durante cerca de dois meses, em 1530, para se esconder da família Médici. Uma revolta popular forçou o exílio dos governantes da família Médici em 1527, e apesar de terem sido mecenas do trabalho do artista, Michelangelo traiu a família ao alinhar com os seus concidadãos florentinos contra o poder.

Com o seu retorno ao poder, alguns anos mais tarde, a vida do artista de 55 anos estava em perigo. “Naturalmente, Michelangelo estava com medo”, diz Bietti, “e ele decidiu ficar fechado quarto”.

Bietti suspeita que Michelangelo tenha passado as semanas que esteve sequestrado a refletir sobre a sua vida e o seu trabalho. Os desenhos nas paredes representavam os trabalhos que ele queria acabar, bem como as obras que ele tinha terminado em anos anteriores, diz Bietti, incluindo um detalhe da estátua de David (terminada em 1504) e figuras da pintura do teto da Capela Sistina (mostrada pela primeira vez em 1512).

“Ele era um génio”, diz-nos, impulsionado pela sua criatividade ilimitada. “O que poderia ele fazer ali? Só desenhar.”

Tal como com todas as obras de arte antigas que não estão assinadas, é impossível confirmar as origens dos desenhos, com absoluta certeza. O consenso parece assentar na ideia de que alguns desenhos na parede são demasiado amadores para terem sido desenhados por Michelangelo. Mas a autoria do resto dos desenhos varia de acordo com as opiniões.

Depois da descoberta de 1975, uma figura proeminente considerada autoridade em questões de arte renascentista proclamou a coleção como a maior descoberta artística do século XX. Mas William Wallace, um académico da Universidade Washington, em St. Louis, mantém-se cético.

Wallace acha que Michelangelo era uma figura demasiado proeminente para estar refugiado num quarto dos andares inferiores, e que em vez disso, ele pudesse ter sido acolhido por um dos seus outros mecenas. Ele também suspeita que os desenhos tenham sido feitos mais cedo, algures na década de 20 do século XVI, quando Michelangelo e os seus muitos assistentes faziam pausas entre os trabalhos de assentar tijolo e cortar mármore, para a construção da Nova Sacristia, no andar de cima.

Muitos dos desenhos podem ser originais de Michelangelo, declara Wallace, mas outros são prováveis representações de outros trabalhadores que estavam ou a tentar resolver dilemas artísticos, ou simplesmente a divertir-se durante as suas pausas.

“Separar um autor do outro é impossível”, diz-nos. E, ainda, acrescenta que o mistério sobre a autoria dos desenhos não lhes retira valor, nem retira importância à descoberta.

“Estar naquele quarto é entusiasmante. Sentimo-nos privilegiados”, diz-nos. “Sentimo-nos mais perto do processo de trabalho do mestre e dos seus assistentes.”

O quarto evoca uma resposta emocional entre os visitantes que têm a sorte de o ver. Dentro daquelas quatro paredes, mal iluminadas por uma janela de canto, é como se espreitássemos para dentro da cabeça de Michelangelo, cujo magnífico trabalho artístico encontramos por todo o edifício.

“Esta foi uma pessoa com infinitas capacidades”, declara Wallace. “Ele viveu até aos 89 anos e nunca parou de melhorar.”

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