História

"Fotografia Perdida" de Amelia Earhart Desacreditada

Um blogger japonês refutou um elemento de prova fundamental num recente documentário do Canal História sobre o desaparecimento da piloto.Thursday, November 9, 2017

Por Michael Greshko
Numa fotocópia de uma fotografia sem data dos Arquivos Nacionais dos EUA, vemos pessoas numa doca no Atol de Jaluit nas Ilhas Marshall. Um documentário recente do Canal História alegou que a fotografia retratava Amelia Earhart e o seu navegador, Fred Noonan, e que foi tirada após o desaparecimento de ambos, a 2 de julho de 1937. No entanto, novas provas demonstram que a fotografia foi publicada em finais de 1935.

Uma fotografia que um recente documentário do Canal História apresentou como sendo uma prova perdida que poderia resolver o mistério do desaparecimento de Amelia Earhart foi publicada quase dois anos antes do desaparecimento da piloto em julho de 1937.

A fotografia, anterior à II Guerra Mundial, inclui um grupo de pessoas numa doca no Atol de Jaluit, uma das Ilhas Marshall. No documentário Amelia Earhart: The Lost Evidence, os realizadores afirmam que duas pessoas caucasianas na fotografia — o homem junto a um posto e uma pessoa de sexo indeterminado agachada no fundo da doca — são Fred Noonan, o navegador da piloto, e a própria Amelia Earhart, sob custódia do exército japonês em 1937.

No entanto, novas provas indicam que a fotografia foi publicada num livro de viagens escrito em japonês sobre as ilhas do Pacífico Sul. Tal como o blogger japonês de história militar Kota Yamano referiu numa publicação de 9 de julho, ele encontrou o livro após procurar na Biblioteca Nacional da Dieta, a biblioteca nacional do Japão, utilizando o termo "Atol de Jaluit", o local ilustrado na fotografia.

“A fotografia foi o 10.º item que apareceu nos resultados”, afirmou numa entrevista ao jornal The Guardian. "Fiquei muito contente quando a vi. Acho estranho que os responsáveis pelo documentário não tenham confirmado a data da fotografia nem a publicação na qual foi originalmente publicada. Era a primeira coisa que deveriam ter feito."

A sua pesquisa apresentou como resultado o livro de viagens, The Ocean's "Lifeline": The Condition of Our South Seas, que inclui a fotografia "Earhart" na página 44. Uma tradução da legenda descreve um porto animado que organizava regularmente corridas de escunas — sem fazer qualquer referência a Earhart ou Noonan. A página 113 do livro indica que o livro de viagens foi publicado em outubro de 1935.

A prova de Yamano, que o mesmo afirma ter obtido em 30 minutos, anula a afirmação do Canal História de que a célebre piloto se despenhou nas Ilhas Marshall e que ficou prisioneira do exército japonês. Os residentes das Ilhas Marshall e alguns entusiastas de Earhart defendem há muito este cenário, mas muitos entusiastas da piloto consideram-no uma hipótese remota.

Amelia Earhart posa, a 14 de junho de 1928, em frente ao seu biplano batizado de "Friendship" (Amizade) na Terranova.

A posição oficial dos EUA defende que Earhart e Noonan ficaram sem combustível e perderam-se no mar a caminho da Ilha Howland, uma pequena ilha do Pacífico central, a norte do Equador. A ilha era o local para uma paragem técnica planeada da dupla no percurso entre a Papua Nova Guiné e o Havai.

Outra hipótese alternativa sugere que a dupla se despenhou na Ilha Nikumaroro, uma pequena ilha a 350 milhas náuticas de Howland, onde foram encontrados artefactos dos anos 30. (Uma expedição em curso, patrocinada pela National Geographic Society, enviou recentemente cães-pisteiros a Nikumaroro, treinados para detetar restos mortais humanos.

CETICISMO E AUMENTO DE CONFUSÃO

Na preparação para a estreia do documentário a 9 de julho, o Canal História defendeu a fotografia, que obteve dos Arquivos Nacionais dos EUA, como sendo uma prova potencialmente transformadora e estando datada antes da II Guerra Mundial, possivelmente de 1937. Mas desde que o documentário foi exibido a semana passada, especialistas externos expressaram vários níveis de ceticismo, que se intensificaram nas últimas 24 horas.

Do seu lado, os Arquivos Nacionais dos EUA afirmam que a fotografia utilizada pelos responsáveis pelo documentário não possui uma data assinalada. "O material recolhido na reportagem suporta um estudo de tipo geográfico ou inquérito das Ilhas do Pacífico", afirmou James Pratchet, Diretor de Comunicações Públicas e Multimédia dos Arquivos Nacionais numa declaração enviada por e-mail à National Geographic.

Tom King, arqueólogo-chefe do TIGHAR, o grupo que investiga a possibilidade da aterragem-forçada ter ocorrido em Nikumaroro, afirma que já conhece a foto há anos e nunca encarou seriamente a mesma como sendo uma prova.

"Observámos a fotografia e dissemos, 'bom, trata-se de um homem e uma mulher numa doca a olhar na direção contrária — é basicamente uma informação inútil", afirmou numa entrevista por telefone a partir de uma expedição do TIGHAR em curso nas ilhas Fiji. "Podemos interpretar as coisas tal como podemos ver rostos na superfície da lua." (a expedição atual de King foi copatrocinada pela National Geographic Society). E após a prova de Yakamano, o Canal História e as personalidades que participam no documentário expressaram várias formas de preocupação e descrença.

"Não sei o que dizer", afirma Kent Gibson, especialista em reconhecimento facial que o Canal História contratou para analisar a fotografia para o documentário Amelia Earhart: The Lost Evidence. "Não tenho uma explicação que justifique o porquê da fotografia ter aparecido dois anos antes."

No documentário, Gibson afirmou que com base nas proporções do rosto e corpo dos dois caucasianos, era "muito provável" que a fotografia retratasse Earhart e Noonan.

Numa entrevista por telefone à National Geographic, Gibson acrescentou que desde que o documentário foi filmado, adquiriu novo software de reconhecimento facial que assinala uma correspondência entre o homem caucasiano da fotografia e Fred Noonan. O seu software antigo tinha indicado que existiam demasiados pixéis na fotografia para realizar a análise com êxito. (Num e-mail de seguimento, Gibson não quis fazer mais comentários.)

Numa declaração enviada por e-mail à National Geographic e publicada separadamente no Twitter, o Canal História afirmou que possui uma equipa de investigadores a "explorar os mais recentes desenvolvimentos sobre Amelia Earhart", prometendo transparência no seu processo de descoberta.

"Em última análise, a precisão histórica é o facto de maior relevância para nós e para os nossos telespetadores", afirmou o canal.

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