História

Por Entre as Ruínas de Mossul

Após três anos sob o controlo do ISIS, um fotógrafo mostra-nos uma Mossul libertada e em ruínas.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Alexandra Genova
Fotografias Por Felipe Dana
Crianças brincam no interior de um carro danificado, num bairro recentemente reconquistado pelas forças de segurança iraquianas aos militantes do Estado Islâmico, na parte oeste de Mossul, no Iraque.

Embora tenha sido oficialmente reconquistada pelas forças iraquianas em Julho, a cidade de Mossul está agora em ruínas. Após quase nove meses de duros combates, milhares perderam a vida, quase 900 000 civis ficaram desalojados e bairros inteiros foram destruídos. A vitória militar fez-se pagar muito caro.

Para o fotógrafo da Associated Press (AP) Felipe Dana, que foi destacado para fotografar o norte do Iraque desde outubro, esta vitória marca o fim de uma batalha, mas não da guerra. “Se tudo terminasse hoje, não creio que as pessoas se limitassem a regressar a casa e a reconstruir as suas vidas, e tudo fosse ficar bem. Não é isso que vai acontecer,” conta Dana à National Geographic. O fotógrafo está apreensivo não apenas com a reabilitação dos civis, mas também com as crenças do Estado Islâmico, que se começam agora a manifestar de outras e mais insidiosas formas.

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Fazer a cobertura jornalística de uma região tão perigosamente volátil como esta tem sido um desafio. “Em primeiro lugar, temos de zelar pela nossa própria segurança, porque não faz qualquer sentido pôr a nossa vida em risco,” frisa Dana. “Para além disso, o acesso é também muito difícil. Estamos muito limitados pelas forças militares. Na maioria das vezes, mesmo quando nos é dado acesso, se as operações não estiverem a correr como esperado, somos imediatamente retirados do terreno.”

Não obstante estas limitações, Dana efetuou uma vasta e comovente cobertura fotográfica da ofensiva. A ênfase foi dada, sobretudo, às pessoas, e não tanto ao cenário de guerra. Apesar das suas imagens de carros queimados, de nuvens de fumo resultantes da detonação de bombas e de edifícios em ruínas produzirem um forte impacto, são as mulheres em fuga sob fogo cerrado ou as crianças que emergem dos escombros que contam a verdadeira história. “Apesar da destruição da cidade ser verdadeiramente chocante, julgo que, em última análise, tudo se resume às pessoas que habitam a cidade,” diz o fotógrafo. “É isso que realmente me interessa.”

O impacto que este conflito está a ter nas crianças de Mossul é um tema recorrente nas imagens de Dana. A cena impressionante de um rapaz a andar na sua bicicleta por entre os escombros, ou de uma rapariga vestida de cor-de-rosa a brincar num baloiço, é uma visão surreal no contexto de uma zona de guerra. Dana refere que estas cenas são surpreendentemente comuns, e indicativas da extraordinária capacidade das crianças para “seguirem em frente.” Contudo, acrescenta, há inúmeros momentos que elas não irão esquecer.

Zeid Ali, de 12 anos, à esquerda, e Hodayfa Ali, de 11, consolam-se mutuamente, após a sua casa ter sido atingida e destruída durante os combates entre as forças iraquianas e os militantes do Estado Islâmico, em Mossul, no Iraque. Segundo as duas crianças, alguns dos seus familiares encontram-se ainda sob os escombros

Uma vez chegaram dois primos ao hospital de campanha onde Dana estava a fotografar. Estavam ambos esfomeados e gritavam incontrolavelmente, dizendo que os seus pais estavam enterrados sob os escombros e suplicando que alguém os fosse salvar. “Eles gritavam sem parar,” conta. “As pessoas davam-lhes bolachas e água, pois eles estavam esfomeados e cheios de sede. Mas eles não paravam de gritar, mesmo enquanto comiam e bebiam. Temo pelo futuro destas crianças.”

São histórias como esta que mostram que a queda do bastião do Estado Islâmico foi tudo menos uma vitória “fácil”. “Isto foi uma libertação das mãos do EIIL, e acredito que a maioria destes civis vivessem vidas miseráveis sob o seu jugo,” diz Dana. “Mas foi uma luta muito, muito complicada, e muito longa, que fez milhares de mortos e deixou muitas crianças sem os seus pais e muito pais sem as suas crianças. Nem todos têm motivos para celebrar.”

Nos próximos meses, Dana irá focar a sua lente no rescaldo deste conflito. “Irei observar a reconstrução, as pessoas a regressarem às suas vidas, como irá ser depois do EIIL,” diz ele. “Vou focar-me nas consequências da guerra.”

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