História

Por Que Razão Alguns Jovens Europeus se Estão a Juntar ao ISIS

The State, o trabalho mais recente do realizador Peter Kosminsky, é uma série sobre jovens britânicos a caminho da Síria. quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Austa Somvichian-Clausen

 

O realizador britânico Peter Kosminsky apelida o autoproclamado Estado Islâmico como um “sanguinário culto da morte”.

No entanto, a sua visão ficcionada de quatro jovens britânicos numa jornada para se juntarem ao ISIS, na Síria, tem sido alvo de críticas, sobretudo nas redes sociais, onde é acusado de humanizar a organização terrorista.

Kosminksy, que também realizou a série de televisão Wolf Hall e o filme White Oleander, afirma que as críticas de que tem sido alvo são infundadas: “Falem comigo depois de terem visto os quatro episódios”.

Quando decidiu arregaçar as mangas e dar início à sua pesquisa, há três anos, Kosminksy sabia que este seria um empreendimento controverso. Examinou minuciosamente documentos legais relativos a futuros membros do ISIS que tentavam sair e voltar a entrar no Reino Unido, bem como publicações nas redes sociais de indivíduos suspeitos de serem recrutadores para o ISIS.

Kosminsky falou connosco a respeito dos desafios encarados e das lições que tirou de todo o processo criativo em torno de The State, que estreou nos dias 18 e 19 de setembro no canal da National Geographic, com dois episódios por noite.

A possibilidade de humanizar o ISIS foi algo que o preocupou enquanto filmava The State?

Todo o processo foi muito delicado. Desde o início, o nosso foco consistiu em filmar o The State evitando uma análise simplista do assunto. Fala-me de humanizar pessoas que se querem alear ao ISIS; ora, as ações desta organização são monstruosas – não passam de um sanguinário culto da morte. O mais difícil é perceber-se que, apesar de o coletivo cometer atos absolutamente horrendos, individualmente, estas pessoas não são, necessariamente, monstros.

Quando deparada com os atos cometidos pelo ISIS, qualquer pessoa pensa imediatamente que aquelas pessoas são psicóticas: não são como nós; mais do que criminosos, eles são loucos. Infelizmente, o desafio com que nos deparamos é que, no fundo, talvez não o sejam.

Sam Otto veste o papel do recruta do ISIS Jalal Hossein, em The State.

Temos de nos conformar com o facto de que, se queremos realmente combater o ISIS, é imperativo perceber que não podemos simplesmente descartá-los como psicóticos. Por muito tentador e conveniente que seja fazê-lo, temos de nos habituar à ideia, por mais desconfortável que esta seja, de que, se calhar, estas pessoas não são necessariamente loucas.

Acredita que os protagonistas perdem a sanidade depois de se envolverem na organização terrorista?

No início, quando se juntam ao Estado Islâmico, estes jovens estão muito motivados. Sentem que finalmente têm um propósito, são tomados por um sentimento de pertença, e creem que podem finalmente viver em conformidade com a sua fé sem serem acusados de racismo. No entanto, a investigação desenvolvida mostra-nos que as suas rotinas não são fáceis, a brutalidade, a violência e as restrições no seu quotidiano rapidamente começam a fazer parte da paisagem, e isso afeta-os psicologicamente. 

Combater uma abordagem simplista foi algo que teve em mente desde o início ou algo que lhe ocorreu mais tarde?

Essa preocupação veio mais tarde. Foi uma consequência da minha investigação. Quando dei início ao projeto, há três anos, a minha motivação era meramente jornalística. Para dizer a verdade, não sabia muito a respeito deste assunto.

Coligimos imenso material sobre a maneira como muitos jovens são recrutados aqui, no Reino Unido, e noutros pontos da Europa – a forma como são submetidos a pressões por parte dos seus pares —, mas não tínhamos informações nenhumas a respeito do que acontece assim que chegam à Síria. O que eu queria saber era: o que acontece quando eles lá chegam?

Na sua opinião, quais são as motivações dos jovens que se juntam ao ISIS?

No fundo, essa é a questão nuclear. Na minha pesquisa, deparei-me com alguém que dizia, “Ontem não passava de mais um trabalhador de construção civil. Hoje estou a fazer coisas que despertam a atenção do presidente dos Estados Unidos da América”. Trata-se uma afirmação deveras relevante; este jovem via-se num papel completamente insignificante, marginalizado, impossibilitado de ter impacto no que quer que seja caso não se juntasse a esta organização. De repente, viu-se no olho da tempestade, debaixo do olhar das pessoas mais poderosas do mundo, e percebeu que as suas ações estavam na ordem do dia.

É difícil caraterizar, como um todo, as pessoas que decidem viajar até a Síria para se juntarem ao Estado Islâmico. Vêm de ambientes raciais e socioeconómicos muito díspares. Alguns têm um passado ligado ao crime, outros não. Enquanto uns tiveram uma educação sólida, outros tiveram uma extremamente deficitária, ou nenhuma. A única coisa que parece uni-los vagamente é a fé.

Um episódio infame, mas verídico, é o de um grupo de jovens que viajavam do Reino Unido para a Síria. Quando foram intercetados, encontrou-se um livro intitulado Islam for Dummies numa das suas mochilas. Da investigação conclui-se que o conhecimento profundo da religião é inversamente proporcional à probabilidade de se tomar uma decisão semelhante à daqueles jovens. Temos de assumir que estão iludidos, sinceramente iludidos.

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