História

Será Este o Rosto de Maria Madalena?

A reconstrução foi feita com base num crânio antepassado mas ainda é um mistério se se trata da figura bíblica.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Sarah Gibbens
É esta a cara de Maria Madalena?
É esta a cara de Maria Madalena?

Numa cidade medieval do sul da França, uma cripta situada debaixo de uma basílica alberga um dos mais famosos conjuntos de restos mortais humanos do mundo: um crânio e ossos que, alegadamente, pertencem a Maria Madalena, a companheira de Jesus. Agora, um cientista e um artista usaram estes restos mortais para reconstituir o rosto desta mulher e mostrar qual seria a sua aparência quando era viva.

A reconstrução facial baseia-se na modelação do crânio por via informática e reproduz uma mulher com um nariz longo, maçãs do rosto elevadas e face arredondada. Para quem acredita que se trata dos restos mortais de Maria Madalena, este é o rosto de uma das mulheres mais infames da Igreja Católica.

"Não temos nenhuma certeza de que este seja o verdadeiro crânio de Maria Madalena", afirma Philippe Charlier, bioantropólogo da Universidade de Versailles.  "Mas era importante tirá-lo do anonimato." Charlier levou a reconstrução a cabo juntamente com o artista forense Philippe Froesch.

Há muito que Maria Madalena é uma figura controversa no seio da Igreja Católica. A partir do século v, começou a ser descrita como prostituta, e teorias populares, mas não comprovadas, também a descrevem como a mulher de Jesus.

Numa entrevista concedida à National Geographic em 2004, a professora Karen King, da Faculdade de Teologia de Harvard, assinalou que a única evidência concludente do papel de Madalena indica que era seguidora de Jesus. À data, King alegava que Madalena pode ter desempenhado um papel crucial no desenvolvimento da Cristianismo.

De acordo com o livro Origins of the Magdalene Laundries, de Rebecca Lea McCarthy, os rumores de que os restos mortais de Maria Madalena se encontravam no sul de França começaram a ganhar popularidade em 1279. Desde então, segundo McCarthy, os restos mortais de Madalena foram "encontrados" em pelo menos cinco outras regiões.

Apesar de não haver evidências definitivas acerca do destino que foi dado a Maria Madalena, Froesch e Charlier queriam colocar um rosto sobre o famoso crânio de Saint Maximin.

O interesse no crânio surgiu quando, há três anos, Froesch se deslocou ao sul da França para trabalhar na reconstrução facial de um outro crânio. Fez um desvio até à pequena cidade de Saint Maximin e, quando visitou a basílica, foi conhecer a cripta que aloja o crânio, que se encontra protegido por uma caixa de vidro ornamentada. 

A caixa de vidro que protege o crânio está trancada desde 1974, ano em que os restos mortais foram estudados pela última vez. Para contornar este problema, os investigadores tiraram mais de 500 fotografias com os diferentes ângulos do crânio. Com base nas fotografias, conseguiram criar um modelo computorizado em 3-D do rosto que apresentava características como o tamanho do crânio, as maçãs do rosto e a estrutura óssea.

A partir desta informação, foram capazes de deduzir que o crânio pertencia a uma mulher que tinha morrido com cerca de 50 anos de idade e que tinha ascendência mediterrânica. Para determinar o formato do nariz e outros traços fisionómicos, foram usadas relações trigonométricas baseadas em caraterísticas compatíveis com a idade, o sexo e a etnia do crânio.

As fotografias do cabelo detetado no crânio indicavam que a mulher tinha cabelo castanho escuro, e o tom da pele foi determinado com base em tons típicos das mulheres mediterrânicas. Foi também detetada, em alguns fios de cabelo, a presença de um tipo de argila historicamente usada para evitar piolhos.

Algumas características, tais como o peso e a expressão facial, resultaram da interpretação de Froesch e Charlier.

De acordo com Froesch, o seu processo de trabalho é desenvolvido com base em técnicas forenses desenvolvidas pelo FBI e habitualmente usadas nas investigações das cenas de crimes.

Charlier gostaria de, no futuro, desenvolver mais investigação com o crânio fora da caixa de vidro. Técnicas como a datação por carbono, que permite determinar a idade de um artefacto, só podem ser executadas através da remoção de porções do crânio, o que não foi autorizado pela Igreja Católica.

Charlier espera também vir a realizar análises de ADN nos restos mortais para determinar a origem geográfica dos mesmos. 

Charlier e Froesch afirmam categoricamente que a investigação foi levada a cabo sem a intervenção da igreja e seguindo os ditames da investigação académica, mas partilharam as imagens com líderes religiosos da cidade, que, segundo dizem, ficaram agradados com a reconstrução.

A possibilidade de trabalhar sobre uma pessoa tão célebre tornou "este trabalho muito especial para nós", afirma Froesch.

Para já, os investigadores têm apenas um rosto, mas esperam um dia reconstruir o corpo inteiro com base no fémur e nos ossos das costelas que se encontram junto ao crânio.  

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