História

Encontradas Pistas Que Apontam Para A Existência De Um “Culto Da Caveira” No Templo Mais Antigo Do Planeta

Os fragmentos de uma caveira humana esculpida num sítio arqueológico da Idade da Pedra sugerem uma cultura surpreendentemente complexa.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Shaena Montanari
Göbekli Tepe, local do possível culto da caveira, é considerado o templo mais antigo do Planeta.

A já impressionante presença de Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia, há cerca de dez mil anos, pode ter-se tornado ainda mais impressionante — existe a possibilidade de terem tido caveiras humanas penduradas naquele que é considerado o templo mais antigo do mundo.

De acordo com um estudo recente publicado na Science Advances, os arqueólogos descobriram fragmentos de três caveiras neolíticas em Göbekli Tepe. Estes mostram sinais de modificações post mortem em caveiras nunca antes vistas.

Os sulcos desenhados, lineares e profundos são uma forma de alteração da caveira nunca antes vista em nenhuma parte do mundo, em nenhum contexto, diz Julia Gresky, autora principal do estudo e antropóloga do Instituto Arqueológico Alemão de Berlim. A análise detalhada realizada com um microscópio especial mostra que os sulcos foram feitos deliberadamente com uma ferramenta de sílex. Um dos fragmentos até tem um buraco perfurado, que se assemelha a alterações de caveiras feitas pelo povo Naga, da Índia, que usavam o buraco para pendurar a caveira numa corda.

Amostras recolhidas em Göbekli Tepe, que sugerem o interesse em cabeças humanas, incluem (da esquerda para a direita): uma estátua humana intencionalmente decapitada, uma figura com uma cabeça humana como presente e um pilar retratando um indivíduo sem cabeça e corpo de pássaro (em baixo, à direita).

Ainda que as marcas só sejam visíveis em alguns fragmentos de osso que datam de há 7000 a 10 000 anos, os arqueólogos acreditam que esta descoberta é extremamente importante e significa que esta sociedade, como muitas outras nesta parte do mundo naquela época, tinha uma cultura do "culto da caveira", que venerou a caveira humana após a morte.

CAVEIRA E OSSADAS

"Na Anatólia, os cultos de caveiras não são raros", diz Gresky. Ela explica que as descobertas arqueológicas feitas noutros locais da região apontam no sentido de que as pessoas normalmente enterravam os seus mortos, depois, exumavam-nos, removiam as caveiras e exibiam-nas de forma criativa. Outros arqueólogos chegaram mesmo a descobrir que os povos do neolítico moldavam os rostos dos mortos com gesso.

Göbekli Tepe teve um significado especial para as comunidades neolíticas que habitavam nas proximidades. "Esta não era uma área de assentamento, mas mais de estruturas monumentais", explica o antropólogo.

As modificações post mortem nas caveiras de Göbekli Tepe incluem esculturas (figuras A, C e D) e um furo (B).

Os enormes pilares de pedra em forma de T e a posição proeminente no topo de uma colina e com amplas vistas sugerem que os caçadores coletores que aqui moravam também tinham uma cultura complexa e praticavam rituais.

AMIGOS OU INIMIGOS?

"Esta é uma modificação de caveira interessante que não foi documentada nesta parte do mundo nem nesta época", diz o bioarqueólogo Matthew Velasco, da Universidade de Cornell, que não participou no estudo. Mas esta descoberta levanta questões adicionais sobre a quem pertenciam as caveiras e por que razão foram tratadas desta forma.

"Há uma série de comportamentos de modificação de caveiras, que vão desde a veneração dos antepassados à violação dos inimigos", explica Velasco, e essa distinção só pode ser investigada em Göbekli Tepe se forem feitas novas descobertas.

Este fragmento de caveira mostra uma incisão profunda feita com uma ferramenta de sílex, há cerca de dez mil anos.

Além dos sinais de corte e do furo, Gresky diz que há, no local, outras pistas que mostram que essa cultura atribuiu um significado especial às caveiras. "Encontramos representações, como, por exemplo uma pessoa sem cabeça num pilar, ou cabeças humanas feitas de pedra. A iconografia do sítio dá especial ênfase à caveira."

Em Göbekli Tepe, não existem campas, apenas valas cheias de ossos humanos misturados com ossos de animais e ferramentas de sílex, o que significa que é necessário aprofundar o estudo do contexto para entender melhor o local. "Ainda agora começamos este processo que nos permitirá compreender a antropologia do local", diz Gresky. "Se tudo correr bem, encontraremos mais ossos e fragmentos de caveiras. Poderemos, então, ter uma ideia mais clara de como estas pessoas viveram."

 

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