História

Astrolábio Encontrado nos Destroços de um dos Navios de Vasco da Gama

O instrumento de navegação foi encontrado nos destroços de um navio do tempo dos descobrimentos. terça-feira, 7 de novembro de 2017

Por Sarah Gibbens
Visíveis no astrolábio estão o brasão da coroa portuguesa (topo) e uma esfera armilar (base), a divisa do rei D. Manuel I.

Quando um pequeno disco de cobre, com cerca de 500 anos de idade, foi encontrado num navio naufragado ao longo da costa da Oman, em 2014, os arqueólogos prontamente suspeitaram que se tratava de um astrolábio.

Hoje, graças aos avanços alcançados no desenvolvimento scanners capazes de gerar imagens a três dimensões, os investigadores podem concluir, observando as pequenas ranhuras presentes no disco, que este objeto é, ou foi, em tempos, um astrolábio. Também se acredita que se trata do mais antigo alguma vez encontrado pertencente ao período que ficou conhecido como o dos descobrimentos.

O disco foi encontrado num navio chamado Esmeralda, que pertenceu à frota liderada por Vasco da Gama, durante a sua aventura para descobrir o caminho marítimo para a Índia, entre 1502 e 1503.

Em 2014, exploradores liderados pelo cientista David L. Mearns e a sua equipa da Bluewater Discoveries Ltd. Encontraram este astrolábio e centenas de outras relíquias cobertos por areia no fundo do mar. Num relatório publicado no ano passado no International Journal of Nautical Archaeology, explicaram que o estranho objeto em forma de disco era um instrumento de navegação.

Facilmente identificáveis, o brasão da coroa portuguesa na metade superior do disco, e uma esfera armilar na metade inferior não deixaram margem para dúvidas a Mearns, que afirma que o navio pertencia à frota do rei D. Manuel. Estas inscrições indicam que o objeto era de grande valor para o Esmeralda.

Apesar das marcas presentes no disco sugerirem que este era usado para auxiliar a navegação, Mearns e a sua equipa precisaram de provas para o poderem afirmar com certeza.

Fotografias a três dimensões revelaram 18 linhas escondidas, desenhadas em incrementos de cinco graus. Medindo a altitude do sol, os navegadores conseguiam determinar a latitude a que o navio se encontrava.

Mark Williams, prof. Dr. na Universidade de Warwick, e a sua equipa de engenheiros viajaram até à Oman, para digitalizar e processar imagens a três dimensões do achado. Utilizando um scanner cujo lazer consegue medir 80,000 pontos por segundo, conseguiram criar um modelo em três dimensões do antigo astrolábio.

Nas imagens digitais observaram detalhes que não teriam conseguido ver a olho nu – 18 linhas que partiam do mesmo ponto de partida, dispostas em incrementos de cinco graus. 

"As linhas eram muito ténues, e devido aos danos e à erosão de que a superfície do objeto foi alvo, quase invisíveis à vista desarmada”, explicou-nos Williams. “A resolução das imagens a três dimensões permitiu-nos aproximar (‘fazer zoom’), identificar as marcas e caracterizá-las.”

Estas linhas serviam para medir ângulos. Estão presentes em alguns dos instrumentos mais antigos da civilização e acredita-se que se popularizaram pouco antes da era atual. Alinhando o astrolábio com o horizonte, os antigos astrónomos conseguiam determinar as horas e a sua posição.

Vasco da Gama - 20 de Maio de 1498
Vasco da Gama - 20 de Maio de 1498

Os astrolábios utilizados pelos primeiros navegadores são conhecidos como astrolábios náuticos. Uma peça partida no topo do disco indica que este deverá ter estado suspenso de modo a permanecer alinhado com o horizonte. Medindo a altura do sol ao meio-dia, os navegadores conseguiam determinar a declinação do sol e, por conseguinte, a latitude a que se encontravam.

UMA ÉPOCA DE DESCOBERTAS

Entre os séculos XV e XVII alguns países europeus a abraçaram a exploração do globo. Nesta altura, nações de toda a europa procuravam expandir-se através de rotas marítimas.

Vasco da Gama embarcou na sua segunda viagem à Índia entre 1502 e 1503. Comandou uma frota de 20 navios, entre eles o Esmeralda.

O interesse dos países europeus pelas especiarias da Índia cresceu muito ao longo do séc. XV, mas a rota comercial para a Índia era controlada por Árabes. Vasca da Gama foi o primeiro a descobrir um caminho marítimo que, contornando África, levaria os marinheiros diretamente até à Índia.

Relatos de testemunhas, e os danos presentes em partes do Esmeralda, indicam que este deverá ter naufragado por causa de uma tempestade que o empurrou contra uma rocha. 

Os destroços do navio foram localizados em 1998, mas só em 2013 Mearns e a sua equipam – com o apoio do National Geographic Society Expeditions Council -  conseguiram recuperar milhares de objetos do navio.

"Não sabemos muito a respeito do astrolábio enquanto instrumento, por isso este é um achado precioso”, afirma Luis Filipe Viera de Castro, professor de arqueologia marítima na Texas A&M University. Até agora, o astrolábio mais antigo que se conhecida fora encontrado nos destroços de um navio espanhol que naufragou na costa sul do Texas, data de 1554.

"Outro facto que atribui a este objeto um elevadíssimo valor é o de ter pertencido a um dos navios de Vicente Sodré. Foram, provavelmente, os primeiros navios de guerra europeus a entrar no oceano Índico”, afirma Luis V. de Castro.

Vicente Sodré era irmão da mãe de Vasco da Gama e comandante do Esmeralda. Foram encontradas bolas de canhão com as suas iniciais entre os destroços do navio. Apesar de o sobrinho lhe ter dado instruções para tomar conta das fábricas portuguesas na costa da Índia, Vicente Sodré e o seu irmão navegaram até ao Golfo de Áden onde pilharam navios árabes. Tanto Vicente como o seu irmão morreram quando os seus navios naufragaram durante uma tempestade.

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