Evidências da Mais Antiga Vinha do Mundo em Aldeia da Idade da Pedra com 8000 Anos

Ao contrário dos estereótipos, os povos do Neolítico tinham gostos apurados.terça-feira, 14 de novembro de 2017

Numa pequena elevação do terreno menos de 30 quilómetros a sul de Tbilisi, na Geórgia, um punhado de casas de tijolos de argila destaca-se no fértil e verdejante vale de um rio. O monte chama-se Gadachrili Gora, e os agricultores da Idade da Pedra que ali viveram há 8000 anos eram apreciadores de uvas: as suas peças grosseiras de olaria estão decoradas com cachos do fruto e uma análise de pólen do local sugere que as colinas florestadas da zona já estiveram cobertas de videiras.

Num artigo publicado hoje na revista PNAS, os arqueólogos mostram, de forma conclusiva, qual era o uso dado a todas aquelas uvas. Os habitantes de Gadachrili Gora e de uma aldeia próxima foram os primeiros vinicultores conhecidos do mundo — produziam vinho em larga escala já no ano 6000 a.C., numa época em que os humanos pré-históricos ainda dependiam de ferramentas feitas de pedra e ossos.

Quando fizeram escavações nas casas redondas sobrepostas do local, o arqueólogo Stephen Batiuk e os colegas da Universidade de Toronto encontraram peças de barro partidas, incluindo bases redondas de enormes jarros enterradas nos chãos das casas da aldeia. Em Shulaveri Gora, outra aldeia da Idade da Pedra a cerca de 2 km de Gadachrili, que tinha sido parcialmente escavada nos anos 60 do século XX, foram encontrados mais exemplares.

Quando analisou os exemplares, o arqueólogo Patrick McGovern, da Universidade da Pensilvânia, encontrou ácido tartárico, uma "impressão digital" química que mostra a existência de resíduos de vinho em fragmentos de peças de olaria de ambos os locais.

Combinada com as decorações de uvas no exterior dos jarros, os vastos indícios de pólen de videiras no solo fino do local e datações por carbono 14 que apontam para o intervalo compreendido ente 5800 a.C. e 6000 a.C., a análise química indica que os habitantes de Gadachrili Gora foram os primeiros vinicultores do mundo. (Beberrões numa localidade chinesa chamada Jiahu faziam bebidas fermentadas a partir de uma mistura de grãos e frutos silvestres 1000 anos antes.)

Uma vez que não foram encontradas muitos vestígios de sementes ou engaços de uva preservados no solo da aldeia, Batiuk presume que o vinho era feito nas colinas próximas, junto ao local de cultivo das uvas. "Eles prensavam-nas em ambientes mais frios, fermentavam o vinho e depois vertiam-no em vasilhames mais pequenos para o transportarem para as aldeias quando estava pronto para ser bebido", diz Batiuk.

Em períodos posteriores, os vinicultores usavam resina de pinheiro ou ervas para impedir que o vinho se estragasse ou para encobrir sabores desagradáveis, da mesma maneira que os produtores de vinho atuais usam sulfitos. A análise química de McGovern não encontrou resíduos daquelas substâncias, o que indica que se tratava de experiências vinícolas mais precoces — e que o vinho era uma bebida sazonal, produzida e consumida antes de chegar a avinagrar. "Aparentemente, não lhe juntaram resina, o que significa que foi o primeiro vinho puro", diz McGovern. "Talvez ainda não tivessem descoberto que as resinas das árvores ajudavam."

Estes indícios abrem uma nova perspetiva para o nosso entendimento do Neolítico, um período fundamental no qual os humanos começaram a aprender técnicas agrícolas, a sedentarizar-se e a domesticar culturas e animais.  Este processo gradual, conhecido como Revolução Neolítica, começou por volta do ano 1000 a.C. em Anatólia, algumas centenas de quilómetros a oeste de Gadachrili.

É cada vez mais claro que não demorou muito tempo até que as pessoas tenham começado a pensar no álcool: poucos milhares de anos depois de as primeiras ervas selvagens terem sido domesticadas, os habitantes de Gadachrili não só tinham aprendido a arte da fermentação como, aparentemente, estavam a aperfeiçoar, a reproduzir e a cultivar vitis vinifera, a uva europeia. "Estavam a descobrir métodos hortícolas, a aprender a fazer enxertos e a produzir uvas", afirma McGovern. "Mostra até que ponto a espécie humana é inventiva"

Ao fim de 8000 anos, a Geórgia, enfiada no meio da cordilheira do Cáucaso não muito distante do local onde se iniciou a Revolução Neolítica, continua a ser uma região eminentemente vinícola. Conta com mais de 500 variedades locais de uva, um sinal de que as pessoas reproduzem e cultivam uvas há muito tempo. Até na agitada baixa de Tbilisi, há videiras penduradas em blocos de apartamentos da era soviética em desmoronamento. E os grandes vasilhames de barro encontrados em Shulaveri e Gadachrili têm um formato semelhante aos dos qvevris, utensílios vinícolas tradicionais que ainda se podem encontrar em inúmeras adegas georgianas nos nossos dias.

Patrick Hunt, arqueólogo da Universidade de Stanford, afirma que os resultados mostram que os povos da Idade da Pedra tinham vidas complexas e ricas, com interesses e preocupações que conhecemos hoje em dia. "A fermentação do vinho não é essencial para a sobrevivência. Mostra que os seres humanos naquele tempo se dedicavam a mais do que apenas atividades utilitárias", diz Hunt. "Há muito mais sofisticação até no período de transição do Neolítico do que julgávamos."

Se Batiuk e a sua equipa — que começaram a fazer escavações em Gadachrili Gora em 2012 — conseguirem identificar a variedade moderna de uva mais próxima da que era cultivada perto da aldeia de Gadachrili, esperam plantar uma vinha experimental na região para saberem como funcionaria a produção de vinho na pré-história. E Batiuk afirma que ainda não chegaram às camadas mais baixas e mais antigas do local. "É possível que cheguemos à conclusão de que se trata de uma prática ainda mais antiga", aponta. "Estamos a completar a história do vinho, este liquido que é tão essencial em tantas culturas — na verdade, na civilização ocidental."

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