O Que Faz De Leonardo Da Vinci Um Génio?

Eis uma pista: o erudito italiano interessava-se por tudo. terça-feira, 21 de novembro de 2017

Hoje, o termo “génio” é usado gratuitamente para descrever estrelas pop, artistas de comédia stand-up, e até jogadores de futebol. Mas no caso de Leonardo da Vinci o adjetivo foi realmente merecido, explica-nos Walter Isaacson na biografia sumptuosamente ilustrada do grande artista italiano. De obras icónicas — como “Mona Lisa” e “A Última Ceia”— a projetos de engenhos voadores e estudos inovadores no campo da ótica e da perspetiva, Leonardo da Vinci conjugou a arte e a ciência, criando obras que fazem agora parte da história e do imaginário coletivo da humanidade.

Ao telefone, a partir da sua casa, em Washignton, Isaacson conversou com a National Geographic, explicando-nos o porquê de todo o fascínio em torno do sorriso de Mona Lisa, e porque é que esta é uma das obras seminais de da Vinci. Falou-nos de como Leonardo e Michelangelo não se suportavam, e da curiosidade enquanto catalisador da genialidade de da Vinci.

Comecemos com o sorriso mais famoso de sempre. Qual é a importância de “Mona Lisa” na vida e na obra de da Vinci — e o que faz com esta obra nos intrigue tanto há mais de 500 anos?

Na obra de Leonardo da Vinci, o sorriso de Mona Lisa representa o culminar de uma vida dedicada a estudar arte, ciência, ótica, e qualquer outra área do saber que fosse capaz de saciar uma imensa curiosidade, incluindo tentar perceber o universo e o papel que o Homem desempenha nele.

Da Vinci dedicou uma quantidade considerável de páginas dos seus cadernos a estudar e dissecar o rosto humano, cada músculo, cada nervo que influencia o movimento dos lábios. No topo de uma dessas páginas encontra-se um esboço do sorriso de Mona Lisa. Leonardo trabalhou nesse quadro desde 1503 até à sua morte, em 1519, tentando que cada detalhe se aproximasse o mais possível da perfeição, camada após camada. Nessa altura, dissecou olhos humanos, que retirou de cadáveres, e percebeu que o centro da retina é o que nos permite discernir os detalhes daquilo que vemos, e que a região exterior é responsável pela perceção das sombras e formas. Se olharmos com atenção para o sorriso de Mona Lisa, percebemos que os cantos dos seus lábios apontam ligeiramente para baixo, no entanto o jogo de luz e sombras faz com que pareçam apontar para cima. À medida passamos o olhar pelo rosto, o sorriso parece alterar-se.

Nas ruas de Florença e de Milão, Da Vinci carregava o seu caderno para todo lado. Esboçava as expressões das pessoas com que se cruzava, tentando capturar-lhes as emoções e o que lhes ia no espírito. Isso está bem patente, por exemplo, em “A Última Ceia.”

No entanto, o pináculo da produção artística de da Vinci é, indubitavelmente, “Mona Lisa”. As emoções que “Mona Lisa” expressa, e o seu sorriso em particular, são um pouco indefiníveis. De cada vez que se olha para ela, parece-nos ligeiramente diferente. Ao contrário de outros retratos da altura, este vai muito além da representação bidimensional superficial. Em “Mona Lisa”, da Vinci tentou retratar emoções mais profundas.

(Veja o esboço de 'Mona Lisa' que pode ser da autoria de Leonardo da Vinci)

A sua outra obra-prima é “A Última Ceia,” que descreve no seu livro como sendo “a pintura narrativa mais contagiante da história.” Explique-nos porque é que se trata de uma obra de arte suprema.

O Duque de Milão pediu a da Vinci que lha pintasse na parede do salão de jantar de um mosteiro. Ao contrário de outras interpretações da última ceia de cristo, das quais existiam centenas na altura, Leonardo da Vinci não se limitou a capturar um momento. Da Vinci sabia que não existia tal coisa como um instante suspenso no tempo, tendo inclusivamente escrito que cada instante tem o seu passado e o seu futuro inscritos em si mesmo, porque existe movimento; o tempo é contínuo.

Então ele transforma “A Última Ceia” numa narrativa dramática. Vemos primeiro a mão de Cristo, os olhos do observador sobem pelo braço da figura e só depois vemos o seu rosto. E Cristo diz, “Com toda a certeza vos afirmo que um de entre vós, este que come comigo, me trairá.” À medida que passamos os olhos pela tela, vemos aquelas palavras a ecoar, e as expressões nos rostos dos apóstolos que a elas reagem.

“É certo que não serei eu!”, apressa-se a afirmar um dos que lhe estavam mais próximos. O drama expande-se, do centro para as extremidades da mesa, e parece voltar ao centro quando Jesus convida os apóstolos a tomarem pão e vinho, seu corpo e sangue, respetivamente – ato simbólico que viria a constituir a Eucaristia.

Apesar destes feitos, Leonardo da Vinci não era conhecido, no seu tempo, como pintor. Foi reconhecido no seu tempo, acima de tudo, como arquiteto — e até como aquilo a que hoje em dia se chamaria técnico de efeitos especiais. Pode-nos falar um pouco sobre as diferentes facetas da vida de da Vinci.

Da Vinci era sobretudo, e contrariamente ao que por vezes desejava, um pintor. Gostava de pensar em si mesmo como sendo um engenheiro ou arquiteto – atividades que desenvolveu com paixão —, mas o seu primeiro trabalho foi como produtor teatral.

Foi assim que aprendeu muito sobre perspetiva, porque num teatro, muitas vezes, o palco parece mais fundo do que realmente é. Uma mesa, no teatro, teria de estar ligeiramente inclinada para que o público a conseguisse ver, esse truque é usado na “A Última Ceia”. Da mesma forma que os gestos e os traços de caráter das personagens são exagerados no teatro, também o são na obra que ilustra a última refeição de Cristo.

O trabalho em teatro levou da Vinci a desenvolver engenhos mecânicos, como máquinas voadoras e o projeto de um proto helicóptero, com o intuito de simular descidas de anjos da teia. Desafiando a linha entre a realidade e a fantasia, da Vinci tentou criar máquinas voadoras reais, autênticas maravilhas de engenharia para a altura. Em suma, da Vinci pegou no que aprendeu no teatro e trouxe-o para a arte e para a engenharia.

(Descubra outros sete génios de quem provavelmente não ouviu falar)

E Leonardo, o homem comum? Era vegetariano, assumidamente homossexual, num tempo em que a sodomia era crime, e um indivíduo bastante vaidoso. Pode-nos contar um pouco mais?

Ele era homossexual, bastardo, canhoto, um tanto ou quanto herege, mas felizmente para ele, Florença era uma cidade muito tolerante, para os padrões da segunda metade do séc. XV. Para surpresa dos habitantes de Florença da altura, Da Vinci passeava com roupas relativamente curtas, em tons de purpura e rosa, mas era uma pessoa bastante popular. Tinha um grande círculo de amigos, tanto em Milão como em Florença. Há registo de muitos jantares com amigos e pessoas que lhe eram próximas: matemáticos, arquitetos, dramaturgos, engenheiros e poetas. Foi essa diversidade que o definiu.

Por fim, era um indivíduo muito bem-parecido. O “Homem de Vitrúvio” – o indivíduo nu que está de braços abertos dentro de um quadrado e de um círculo concêntricos – é, em grande parte, um autorretrato de da Vinci, com os seus caracóis fluidos e de corpo bem proporcionado.

É sabido que da Vinci e Michelangelo não simpatizavam um com o outro. Fale-nos esta animosidade — e de como esta atingiu o seu pico.

Da Vinci e Michelangelo eram muito diferentes. Da Vinci era popular, sociável e estava muito confortável com as suas excentricidades, incluindo a sua homossexualidade. Michelangelo também era homossexual, mas tinha dificuldade em lidar com a sua identidade. Tinha uma personalidade reclusa, não tinha muitos amigos, usava roupas escuras. Eram quase diametralmente opostos no que diz respeito à forma de se apresentar, ao estilo e personalidade.

(Veja a sala secreta descoberta recentemente com uma obra de arte "perdida" de Michelangelo)

Não era só em termos de personalidade que eram diferentes, também divergiam enquanto artistas. Michelangelo pintava como se fosse um escultor, com linhas muito definidas. Da Vinci optava pelo sfumato, uma técnica que consiste em desvanecer os traços, provocando um certo desfoque, porque acreditava que é assim que o olho humano perceciona a realidade.

Os governantes de Florença organizaram um concurso em que da Vinci e Michelangelo teriam de pintar uma cena de batalha que ficaria exposta no átrio do edifício da câmara municipal. A partir daí, a rivalidade assumiu novos contornos.

Da Vinci havia proferido que preferiria ver a estatua de David, uma obra de Michelangelo, escondida debaixo de uma arcada a tê-la no meio da praça. Michelangelo chegou a ser rude para da Vinci em público. Tudo isto criou uma certa tensão, e foi aí que os governantes da cidade decidiram que os dois deveriam defrontar-se num duelo de pintores.

No final, ambos abandonaram a competição antes, sequer, de terminarem as suas obras. Da Vinci mudou-se para Milão, e Michelangelo foi para Roma trabalhar na Capela Sistina.

 

Leonardo da Vinci não assinava as suas obras, o que muitas vezes causou confusão a quem o tentava estudar. Conte-nos a fascinante história por trás de “La Bella Principessa” — e a investigação ao estilo de Sherlok Holmes que a obra despoletou.

“La Bella Principessa” é um desenho a giz que surgiu num leilão há algumas décadas. Nunca se acreditou que fosse da autoria de da Vinci, por isso foi vendido por um preço relativamente baixo. Pensavam que se tratava de uma cópia alemã de uma obra de um artista florentino.

Todavia, um colecionador de arte estava convencido de que se tratava de um original de da Vinci. Comprou o quadro e mostrou-o a especialistas do mundo inteiro, para tentar provar a autenticidade da obra. Não restou margem para dúvidas quando se fez uma análise de impressões digitais, uma vez que da Vinci usava muitas vezes os polegares para espalhar a tinta.

Quando o caso parecia estar encerrado, soube-se que o indivíduo que declarara a autenticidade do quadro tinha um passado fraudulento, e a alegação em relação à suposta autoria do quadro caiu em descrédito. Por fim, Martin Kemp, um académico de Oxford, especialista em da Vinci, descobriu que o quadro pertencia efetivamente a da Vinci, e que teria sido a capa de um livro de uma biblioteca da Polónia que alguém arrancara.

Recentemente, deu-se o caso de “Salvator Mundi”, uma obra belíssima que foi leiloada no passado dia 15 de Novembro pela Christie’s. Durante muito tempo também se pensou que esta fosse uma cópia, mas nos últimos dez anos foi provada a autenticidade da obra. Vendido há cerca de uma década por 84 euros, tem agora um valor de leilão estimado de mais de 84 milhões de euros. (Foi arrematado por 380 milhões de euros.)

Trata-se de um momento importantíssimo, porque é o último quadro de da Vinci nas mãos de um privado. Depois do leilão, é possível que uma pessoa nunca mais consiga comprar um quadro de Leonardo da Vinci.

Um dos elementos naturais que mais fascinava Leonardo da Vinci, e sobre qual se voltou a debruçar no final da sua vida, era  a água. O que via ele na água?

Em miúdo, da Vinci era um autodidata. Os seus pais não eram casados, por isso não pode frequentar a escola. Uma das coisas que o fascinavam eram os cursos de água que desaguavam no rio Arno. Estudou-os e, desde a sua infância até ao dia em que faleceu desenhou as espirais que se formavam na água, tentando desvendar a matemática que nelas se escondia.

Esta fixação pela água, traduziu-se não só na sua arte, mas também no seu trabalho científico. Percebeu o comportamento das correntes de ar ao passarem pelas asas das aves, e como estas eram fundamentais para que os pássaros se mantivessem no ar – algo que se estudou mais tarde, quando projetámos os primeiros aviões.

Existem rios em quase todos os seus trabalhos mais icónicos, incluindo na “Mona Lisa”, onde parecem estabelecer um paralelismo com a corrente sanguínea da pessoa retratada, como uma ligação entre o ser humano e a Terra.

Qual é, para si, o elemento mais importante do génio de da Vinci? E o que podemos aprender com ele?

No último capítulo do meu livro, tento responder a essa questão abordando 25 lições que podemos tirar da vida e obra de Leonardo da Vinci, lições semelhantes às que figuram nos livros que escrevi sobre Steve Jobs ou Albert Einstein. Em todos eles, reparei que a criatividade brota quando se conjuga ciência e arte. Para se ser verdadeiramente criativo, mais importante do que ser-se um especialista em determinada matéria, é cultivar um interesse genuíno por todas as coisas que nos rodeiam, todas as disciplinas.

Da Vinci interessava-se por tudo. Queria saber tudo sobre o universo, incluindo a maneira como nós, humanos, encaixamos nele. Isso faz com que seja fascinante estudá-lo e escrever sobre ele.

Nos seus cadernos encontramos perguntas a respeito da língua dos pica-paus. Porque é que as pessoas bocejam? Porque é o céu azul? Ele observa o mundo e, fascinado por todos os seus fenómenos, por mais simples que sejam, interroga-se com a mesma curiosidade de uma criança, essa curiosidade que perdemos à medida que nos tornamos adultos e estafados.

Ser curioso a respeito de tudo o que o rodeava, independentemente de ser uma curiosidade útil ou não, é a caraterística que fez de Leonardo da Vinci o vulto que foi e continua a ser. Foi a perseverança com que estudou, e esforço para aprender por si mesmo, que fizeram dele um génio. Nunca equipararemos as competências matemáticas de Einstein, mas podemo-nos esforçar para aprender com da Vinci e mantermo-nos curiosos.

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