História

Por que Razão Ainda Não Encontrámos os Navios de Cristóvão Colombo?

Os vestígios do Niña, Pinta e Santa Maria demonstraram ser ilusórios apesar de décadas de buscas. Sexta-feira, 3 Novembro

Por Kristin Romey

Este ano comemora-se o 525.º aniversário da primeira expedição transatlântica de Cristóvão Colombo, uma viagem que o explorador italiano esperava que o levasse até à Ásia. Em vez disso, a sua tripulação avistou terra nas Caraíbas a 12 de outubro de 1492, desencadeando uma série de eventos que iriam dar origem à colonização europeia do Novo Mundo.

Apesar de gerações de crianças em idade escolar terem cantado as aventuras do "Niña, Pinta e Santa Maria", os vestígios da histórica Primeira Frota de Colombo, bem como das suas três expedições posteriores permanecem por descobrir, mesmo após décadas de buscas realizadas por arqueólogos e caçadores de destroços de navios.

Eis alguns dos motivos que explicam a dificuldade de encontrar vestígios da Primeira Frota.

As condições são péssimas para a conservação dos navios.

As águas quentes das Caraíbas são o paraíso para os teredens, que, na verdade, são moluscos com um apetite voraz por madeira. Também conhecidos como vermes de navios e "térmitas do mar", estas criaturas conseguem devorar destroços de madeira exposta no espaço de uma década e são o arqui-inimigo dos arqueólogos submarinos que trabalham na região.

Qualquer navio de madeira que resistisse aos teredens teria também de sobreviver a cinco séculos de tempestades tropicais e furacões em águas rasas, como refere Donald Keith, um arqueólogo que procurou o Gallega, um navio da Quarta Frota de Colombo, desaparecido em 1503. "Os navios perdidos em águas frias, escuras e profundas têm melhores hipóteses de permanecer intactos e manter o seu valor de ‘cápsula do tempo’."

A paisagem mudou radicalmente desde a época de Colombo.

Séculos de tempestades tropicais, alterações na utilização do território e a desflorestação alteraram significativamente as linhas costeiras por onde Colombo navegou. Greg Cook, um arqueólogo que procurou os vestígios dos navios da Quarta Frota de Colombo na baía de St. Anne, Jamaica, descreve ter escavado cerca de 6 metros de sedimentos para encontrar provas da paisagem histórica. "Essa baía mudou tanto", refere.

Até nessa época, seria difícil encontrar os vestígios. 

Os arqueólogos utilizam o sonar de varrimento lateral como ferramenta principal para encontrar destroços de navios no fundo do mar, mas, se um destroço estiver enterrado sob metros de sedimentos, o sonar pode simplesmente "não ver" o destroço, afirma Cook. Outra ferramenta importante, o magnetómetro, deteta vestígios metálicos debaixo de água. Contudo, como era utilizado pouco metal na construção dos navios desta época, os vestígios metálicos podem "esconder-se muito bem" e não ser detetados numa busca, acrescenta.

"Trata-se verdadeiramente de procurar três agulhas num palheiro", refere James Delgado, vice-presidente da Search Inc. e antigo diretor de património marítimo para a NOAA.

Só conhecemos o destino de um dos três navios.

"O único navio perdido da Primeira Frota foi o Santa Maria", refere Keith. "Ainda ninguém conseguiu determinar, de forma convincente, o que aconteceu ao Pinta e ao Niña após o seu regresso à Europa", acrescenta. Cook concorda: "Uma vez que desconhecemos o paradeiro do Niña e do Pinta, o melhor a fazer seria procurar o Santa Maria."

O anúncio, em 2014, de que o Santa Maria tinha sido descoberto foi redondamente desmentido pela UNESCO.

A tripulação de Colombo reciclava.

Segundo o livro de bordo de Colombo, o Santa Maria encalhou num recife ao largo de Cap Haïtien, Haiti, na véspera de Natal, em 1492. O seu casco foi desmantelado e utilizado para construir a aldeia fortificada de La Navidad, que ainda não foi descoberta. "Pensemos nisto como se uma nave espacial estivesse presa no limiar do universo", afirma Delgado. "[Os marinheiros] precisam de confiar nos vestígios da nave para sobreviver. Temos de apreciar o nível de reciclagem que ocorreu nestes locais."

Assim sendo, devemos continuar à procura?

Os investigadores dizem que sim, mas não necessariamente pelo facto de o Niña, o Pinta e o Santa Maria serem considerados como estando entre o Santo Graal da arqueologia de navios. "Procurar um pedaço de um navio [da Primeira Frota] parece algo como tentar encontrar um pedaço da Verdadeira Cruz", afirma Delgado, que acredita que as descobertas arqueológicas mais importantes ligadas à viagem de Colombo irão esclarecer as primeiras interações entre as populações nativas e os exploradores europeus. "Vamos focar-nos antes nas questões relacionadas com o primeiro contacto."

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