Recifes Impressos em 3D Poderão Ser a Solução Para a Crise de Branqueamento dos Corais

Fabien Cousteau e uma equipa de engenheiros holandeses esperam que as novas tecnologias consigam abrandar a degradação dos oceanos.segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A Grande Barreira De Coral Pode Estar A Morrer Mais Rápido Do Que Pensamos
A Grande Barreira De Coral Pode Estar A Morrer Mais Rápido Do Que Pensamos

As notícias acerca dos recifes de coral oscilam entre a tragédia e a esperança. Os recifes contam-se entre os ecossistemas mais frágeis do Planeta e são essenciais à vida nos oceanos. Além disso, são também extremamente sensíveis às alterações climáticas e, atualmente, estão a morrer a uma velocidade impressionante.

Segundo um estudo publicado no início do ano na Nature’s Scientific Reports, estima-se que, no final deste século, praticamente todos os recifes tenham sido afetados pelos fenómenos anuais de branqueamento dos corais. Os cientistas australianos que analisaram a Grande Barreira de Coral, em fevereiro de 2017, afirmam agora que o maior recife de coral do Planeta — que perdeu cerca de um quarto de todo o seu coral só no ano passado, em consequência do mais grave fenómeno de branqueamento de sempre — enfrenta uma nova crise de branqueamento já este ano, a qual poderá ser ainda mais destrutiva do que a anterior. O artigo de capa da Nature de 16 de março veio confirmar estes receios, ao documentar centenas de quilómetros de branqueamento do recife australiano, em consequência do aquecimento das águas.

Contudo, há esperança: os recifes artificiais poderão ser menos vulneráveis às alterações climáticas e mais resistentes às flutuações químicas nos oceanos do que os recifes naturais. Num novo projeto, os cientistas estão a recorrer à tecnologia de impressão 3D para criar recifes artificiais, que mimetizam a textura e estrutura dos recifes naturais, de uma forma que não tinha sido conseguida em anteriores tentativas de restauro.

A instalação experimental destes recifes impressos em 3D está atualmente a ser levada a cabo no Mediterrâneo, nas Caraíbas, no Golfo Pérsico e na Austrália. Se a experiência for bem-sucedida e se, nos próximos anos, estes recifes artificiais conseguirem não só atrair os peixes, como também os pólipos juvenis de coral, que se fixam a uma estrutura e se multiplicam, originando novos recifes, talvez se consigam restabelecer alguns dos habitats mais importantes do Planeta.

Esta imagem mostra os pólipos de coral a perderem o seu pigmento devido ao branqueamento, desencadeado pelo aquecimento das águas.
Esta imagem mostra os pólipos de coral a perderem o seu pigmento devido ao branqueamento, desencadeado pelo aquecimento das águas.
fotografia de Keith A. Ellenbogen, AP

“No que respeita à possibilidade de devolver à natureza algo que é muito idêntico ao que lá estava originalmente, isto representa um passo em frente deveras interessante”, diz Ruth Gates, cientista marinha na Universidade do Hawaii, que se dedica a investigar a resiliência dos corais às alterações climáticas. “Acho que é excelente.”

COMO IMPRIMIR UM RECIFE

A tecnologia de impressão 3D teve a sua origem nos anos 80, tendo sido comparada, em termos de importância, com muitas das invenções da Revolução Industrial. Esta tecnologia tem um potencial extraordinário, tendo já sido usada para imprimir desde joias, componentes automóveis ou rins humanos feitos a partir de células vivas, que foram transplantados com êxito.

A impressão 3D começou a ser aplicada à vida selvagem no início deste século, quando Dudley, um pato que habitava na Colúmbia Britânica, perdeu uma pata durante uma luta com uma galinha e teve de receber uma prótese. Também uma águia-de-cabeça-branca, cujo bico tinha sido alvejado, recebeu uma prótese em tudo idêntica ao original. Era apenas uma questão de tempo até que alguém descobrisse como recriar a estrutura de um recife.

O primeiro recife 3D foi submerso ao largo do Bahrain, no Golfo Pérsico, em 2012. Ainda assim, foi um passo de gigante desde a impressão de bicos de aves e patas de patos. Desenhar um recife 3D foi comparado a desenhar uma cidade para habitantes muito específicos. Cada secção do recife pode chegar a pesar cerca de 2,5 toneladas.

Os recifes de coral são constituídos por colónias de milhões de minúsculos pólipos de coral, que são animais que vivem em endossimbiose com organismos da família das algas unicelulares, denominados zooxantelas. Ambos são mutuamente dependentes: o coral fornece abrigo e proteção à alga, enquanto esta fornece ao coral nutrientes essenciais.

Os recifes artificiais não são nenhuma novidade. Já foram contruídos recifes a partir de navios afundados, plástico, blocos de betão, pneus e carros velhos — tudo o que seja passível de ser empilhado nos fundos oceânicos, na esperança de que os peixes e outros organismos marinhos façam deles a sua casa. Inclusivamente, há uma estátua de Jesus Cristo coberta de corais ao largo das Florida Keys.

Mas a maioria destes recifes artificiais são um fracasso, pois não se enquadram no ambiente circundante. Por outro lado, um recife impresso em 3D recria todos os recantos e todas as fendas, todos os espaços de proteção para os peixes, todas as passagens, portas e todos os ângulos que projetam sombra ou deixam entrar a luz, e que permitem que os peixes se escondam dos predadores ou se alimentem.

A empresa holandesa Boskalis, que está a desenvolver um projeto de restauração em parceria com a Fundação Príncipe Alberto II do Mónaco, imprimiu seis estruturas 3D para um recife, a serem implantadas na Reserva Marinha de Larvotto, no Mónaco. Cada uma destas estruturas é constituída por areia dolomítica, pesa cerca de 2,5 toneladas, mede dois metros de diâmetro e um metro de altura, e demorou 13 horas a imprimir.

Astrid Kramer e Jamie Lescinski, ambos engenheiros seniores na Boskalis, disseram em entrevista que os recifes 3D serão monitorizados durante dois anos, para verificar se a vida marinha que ocupava os recifes naturais regressa efetivamente. O tamanho e a dimensão das fendas do recife correlacionam-se diretamente com as espécies de peixes que virão a ocupá-lo.

“Hoje em dia, por forma a conseguir habitat suficiente, é necessária uma estrutura mais complexa, com cavidades e pequenos espaços”, diz Kramer.

Porém, os recifes impressos em 3D apresentam desvantagens. A maioria delas são ainda uma incógnita, uma vez que este trabalho é muito recente. O que irá atrair os corais? Estas estruturas gigantescas serão sustentáveis? E serão resistentes a uma tempestade da magnitude de um furacão?

“Sem o cimento estabilizante conferido pela presença de tecido vivo, um recife de coral abiótico irá rapidamente degradar-se e sofrer erosão, e acabará por se transformar em detritos”, afirma Gates. “Os recifes desenvolvem-se em ambientes muito agressivos, sendo vulneráveis à deterioração como qualquer outra estrutura viva, e mais ainda se os materiais não forem muito, muito resistentes.”

A TENTATIVA DE UM COUSTEAU

Nas Caraíbas, Fabien Cousteau, neto do célebre oceanógrafo Jacques Cousteau, já falecido, iniciou um projeto de impressão de um recife 3D em janeiro, em Bonaire, onde ele se encontra a trabalhar em conjunto com o Harbour Village Beach Club. Cousteau começou a mergulhar nas Caraíbas aos quatro anos de idade, tendo assistido, em primeira mão, à morte de recifes, coloridos jardins submarinos, plenos de vida, que se transformam em desertos.

“Não há nenhuma solução mágica no que diz respeito à restauração dos corais”, adverte Cousteau. “Estamos a falar de um ecossistema muito complexo, de um animal complexo, que apresenta muita variabilidade entre todas as suas subespécies. Isto é apenas uma experiência. Num curto espaço de tempo, observámos uma dinâmica muito positiva, envolvendo certas espécies de coral. Mas, não nos esqueçamos, isto é apenas uma gota num oceano muito, muito vasto.”

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