História

De São Nicolau a Pai Natal: as Surpreendentes Origens do Senhor Claus

A evolução do Pai Natal inclui uma viagem à volta do mundo que rivaliza com aquela que é feita na noite de Natal. Quarta-feira, 13 Dezembro

Por Brian Handwerk

Qualquer criança lhe pode dizer de onde é o Pai Natal – do Polo Norte. Mas a sua viagem histórica é mais longa e mais fantástica do que a circum-navegação anual, de um só dia, ao globo.

O Pai Natal moderno e americano nasceu no mediterrâneo, desenvolveu-se ao longo do norte da Europa, e assumiu, finalmente, a sua atual forma familiar nas costas do Novo Mundo. Quem é este Pai Natal e como foi que ele chegou aqui?

As imagens de São Nicolau, o antepassado original do Pai Natal, variam consideravelmente, mas nenhuma se parece muito com o senhor velhote de barba branca e de faces rosadas que atualmente vemos em todo o lado. Uma das imagens mais atrativas que temos do verdadeiro São Nicolau não foi criada antigamente por um artista, foi criada com recurso a modernas técnicas de reconstrução facial forense.

Os restos mortais do bispo grego, que viveu no III e IV séculos, estão em Bari, Itália. Quando a cripta da Basílica de São Nicolau foi reparada nos anos 50 do século passado, os ossos e crânio do santo foram documentados com fotografias em raio X e milhares de medições detalhadas.

Caroline Wilkinson, uma antropóloga facial da Universidade de Manchester (Inglaterra), utilizou a informação e software atual de simulação para criar uma reconstrução moderna do homem morto há já muito tempo. Wilkinson colocou um rosto humano no homónimo original do Pai Natal – um rosto com um nariz gravemente partido, possivelmente causado pela perseguição dos Romanos aos cristãos, sob a égide do imperador Diocleciano.

Muito do seu trabalho é necessariamente sujeito a interpretação. Foi preciso supor qual o tamanho e forma dos músculos faciais que outrora cobriram o crânio de Nicolau, e mesmo a forma do crânio em si foi recriada a partir de informação bidimensional. Artistas digitais acrescentaram pormenores que foram baseados em hipóteses, como, por exemplo, o tom de pele bronzeado, muito comum entre os gregos mediterrânicos como Nicolau, os olhos castanhos e o cabelo grisalho de um homem de 60 anos de idade.

"Estamos sujeitos a ter perdido algum nível de detalhe que teríamos se trabalhássemos a partir de fotografias, mas acreditamos que isto é o mais próximo que alguma vez conseguiremos estar dele”, disse Wilkinson nas duas longas-metragens da BBC do projeto intitulado “The Real Face of Santa”.

DE SÃO NICOLAU A PAI NATAL

Como foi que São Nicolau se tornou no nativo do Polo Norte que traz presentes de Natal? O santo original era grego, nasceu 280 anos depois de Cristo e foi ordenado bispo de Myra, uma pequena cidade romana da Turquia. Nicolas não era nem gordo, nem alegre, mas criou reputação de ser explosivo, rijo e um defensor desafiante da doutrina da igreja durante a “Grande Perseguição”, quando as bíblias eram queimadas e os padres eram forçados a renunciar ao cristianismo ou enfrentavam a execução.

Nicolau desafiou estes editais e passou anos na prisão antes de Constantino ter trazido o cristianismo para um lugar de destaque no seu império. A fama de Nicolau sobreviveu muito tempo depois da sua morte (a 6 de dezembro de algum ano desconhecido a meio do século IV) porque ele esteve associado a muitos milagres e a reverência à sua figura continua até hoje, mesmo para além da sua ligação ao Pai Natal.

Nicolau ficou conhecido entre os santos porque ele era o padroeiro de muitos grupos, que podiam ir desde marinheiros até nações inteiras. O historiador da Universidade de Manitoba, Gerry Bowler, autor de Santa Claus: A Biography, explica-nos que, por volta de 1200, ele se tornou conhecido como padroeiro das crianças e distribuidor de presentes mágicos por causa de duas fantásticas histórias da sua vida.

No conto mais conhecido, três jovens raparigas são salvas de uma vida de prostituição quando o jovem bispo Nicolau entrega em segredo três sacos de ouro ao seu pai, que estava endividado, para serem utilizados como dote.

"A outra história não é tão bem conhecida atualmente, mas era muito bem conhecida na Idade Média”, esclarece Bowler. Nicolau entrou numa estalagem na qual o estalajadeiro tinha matado três rapazes e feito picles com os seus corpos desmembrados, que guardava em barris na cave. O bispo não só detetou o crime como também ressuscitou as vítimas. “Essa é uma das razões pelas quais se tornou padroeiro das crianças.”

Durantes centenas de anos, circa 1200 a 1500, São Nicolau foi o incontestável distribuidor de presentes e o brinde das celebrações fazia-se no seu dia, 6 de dezembro. O santo severo tinha algumas parecenças com as primeiras divindades europeias, o Saturno romano ou o nórdico Ódin, que apareceu como um homem de barba branca que tinha poderes mágicos, como, por exemplo, conseguir voar. Ele também se certificou de que as crianças andavam na linha, diziam as suas orações e se comportavam bem.

Mas depois da reforma protestante, santos como Nicolau deixaram de ser adorados em grande parte da Europa do Norte. “Isso foi problemático”, afirma Bowler. “Ainda ama os seus filhos, mas agora quem lhes irá trazer presentes?”

Bowler disse que, em muitos casos, essa função recaiu sobre o menino Jesus, e a data foi alterada para a do dia de Natal em vez do dia 6 de dezembro. “Mas a capacidade de transporte da criança é bastante mais limitada, e ele também não é muito assustador”, afirma Bowler. “Então, foi muitas vezes atribuído a Cristo, enquanto criança, um ajudante assustador que arrastava os presentes e que ameaçava as crianças, coisa que não pareceria apropriada vinda do menino Jesus.”

Algumas destas assustadoras figuras Germânicas foram inspiradas em Nicolau, já não um santo, mas um ajudante ameaçador, como o Ru-klaus (Nicolau mais grosseiro), Aschenklas (Nicolau de cinza), e o Pelznickel (Nicolau peludo). Estas figuras esperavam bom comportamento ou forçavam as crianças a sofrer as consequências, por exemplo, serem chicoteadas ou raptadas. Por muito díspares que estas figuras pareçam do contente homem de vermelho, estas personagens interessantes contribuíram mais tarde para o desenvolvimento da personagem do Pai Natal.

SÃO NICOLAU NA AMÉRICA

Na Holanda, crianças e famílias simplesmente se recusam a abdicar de São Nicolau como distribuidor de presentes. Eles trouxeram com eles “Sinterklaas" e o seu nome duradouro para as colónias do Novo Mundo, onde as lendas dos distribuidores de presentes alemães desgrenhados e assustadores também perduraram.

Mas nos primórdios da América, o Natal não tinha nada que ver com o feriado moderno. O feriado foi evitado em Nova Inglaterra, e noutros sítios tornou-se um pouco como o advento pagão chamado Saturn Ália que outrora ocupou o seu lugar no calendário. “Era celebrado fora de portas, regado a álcool, uma festança com bagunça da comunidade”, explica Bowler. “Foi também nisso que se tornou em Inglaterra. E não existia nenhum distribuidor de prendas mágico.”

Depois, durante as primeiras décadas do século XIX, tudo isso mudou graças a uma série de poetas e escritores que se empenharam em transformar o Natal numa celebração da família – ao recontar a história e fazer renascer São Nicolau.

O livro de 1809 escrito por Washington Irving, Knickerbocker's History of New York, foi o primeiro a retratar Nicolau como um fumador de cachimbo, elevado em cima dos telhados num trenó voador, a distribuir presentes aos meninos e meninas que se portaram bem e ramos aos que se portavam mal.

Em 1821, um poema anónimo ilustrado intitulado “The Children's Friend" (O amigo das crianças) contribuiu mais ainda para a construção do Pai Natal moderno e o associou ao Natal. “Aqui temos finalmente a aparência de um Pai Natal”, afirma Bowler. “Eles pegaram na parte mágica da distribuição de prendas da história de São Nicolau, retiraram-lhe todas as caraterísticas religiosas e vestiram este Pai Natal com as peles dos distribuidores de presentes alemães desgrenhados.”

Essa figura trouxe presentes às meninas e meninos que se portaram bem, mas também trazia uma vara de bétula, referia o poema, que “orientava a mão dos pais para o uso quando o caminho da virtude for recusado pelos seus filhos.” O pequeno trenó do Pai Natal era puxado apenas por uma única rena – mas ambos: o condutor e a ‘equipa’ sofrerão no ano seguinte uma grande transformação.

Em 1822, Clement Clarke Moore escreveu "A Visit From St. Nicholas"(“Uma visita de São Nicolau”), também conhecido como “The night Before Christmas"(“A noite de Natal”) para os seus seis filhos, sem nenhuma intenção de contribuir para o novo fenómeno do Pai Natal. Foi publicado, de forma anónima, no ano seguinte, e é até hoje o Pai Natal anafado e alegre que conduz um trenó, puxado por oito renas nossas conhecidas.

"Tornou-se viral", afirma Bowler. Mas por muito familiar que seja o poema, ainda deixa muito espaço para a imaginação, e o século XIX viu surgir um Pai Natal vestido de uma cor diferente, em tamanhos que vão desde a miniatura ao tamanho maior, e com um aspeto mais variável. “Tenho uma ótima fotografia dele, na qual se parece com George Washington montado numa vassoura”, afirma Bowler.

Só no final do século XIX, acrescentou, a imagem do Pai Natal se fixou como um adulto de tamanho real, vestido de vermelho com rebordos de pele branca, que se aventura em viagem saindo do Polo Norte num trenó puxado por renas e vigia o comportamento das crianças.

O senhor contente, anafado e com cara de avô que é este Pai Natal foi, em grande parte, criado por Thomas Nast, o grande cartoonista político, numa era em existiam imensos. “Contudo, Nast diminuiu o seu tamanho para metade”, acrescentou Bowler, “e com o que penso serem ceroulas bastante indecentes.”

Depois de se estabelecer de forma consistente, o Pai Natal americano sofreu uma espécie de migração reversa para a Europa, substituindo os assustadores distribuidores de presentes e adotando nomes locais como Père Noël (França) ou Father Christmas (Grã Bretanha). "O que ele fez foi domar estas personagens saídas dos contos de fadas dos irmãos Grimm do final da era medieval”, disse Bowler.

NEM TODOS ACREDITAM NO PAI NATAL

Apesar de ser inegável que ele tem boas intenções, o Pai Natal foi certamente o responsável, e continua ainda a ser, de muita controvérsia.

Na Rússia, Estaline não gostava do Pai Natal. Antes da revolução russa, o Avô Gelado (Ded Moroz) era uma figura privilegiada do Natal que adotou as características dos proto-pais-natais, como do Sinterklaas holandês. “Aquando da formação da União Soviética, os comunistas aboliram a celebração do Natal e dos distribuidores de presentes”, disse Bowler.

"Mais tarde, nos anos 30 do século XX, quando Estaline precisou de apoio, ele permitiu a reaparição do Avô Gelado, não como distribuidor de prendas do Natal, mas sim do ano novo”, acrescenta Bowler. As tentativas russas de deslocar o Natal foram malsucedidas, tal como as tentativas soviéticas de espalhar a versão secular do Avô Gelado, de casaco azul, como forma de evitar confusões na europa com a versão do Pai Natal.

"Os soviéticos tentaram substituir os distribuidores de prendas locais em todos os locais onde foram depois da Segunda Guerra Mundial, por exemplo na Polónia ou na Bulgária”, explica Bowler. “Mas os nativos aguentaram até ao colapso da União Soviética, em 1989 e depois disso voltaram às suas antigas tradições.”

O Pai Natal mantém-se como uma figura politizada um pouco por todo o mundo. As tropas americanas espalharam, um pouco por todo o mundo, a sua versão do homem alegre, imediatamente nos anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra, e foi bem recebido de forma geral, afirma Bowler, como um símbolo da generosidade americana na reconstrução das localidades assoladas pela guerra.

Contudo, atualmente, pessoas de muitas nações têm o Pai Natal na sua lista dos mal comportados, quer seja porque a figura representa a comercialização do Natal em detrimento da figura de Cristo ou simplesmente porque ele não é local. “Em sítios como a República Checa, a Holanda, a Áustria e a América Latina havia fortes tradições de movimentos anti-Pai-Natal porque eles estão a tentar preservar as suas próprias tradições e costumes de distribuidores de presentes, e de as proteger do Pai Natal norte americano”, afirma.

Esses esforços parecem não ser capazes de parar o interesse crescente no Pai Natal, mas os seus assessores podem conseguir poupar-lhe umas quantas paragens dos seus muitos afazeres na noite de Natal.

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