História

Descoberta Paleontológica Inédita: Centenas de Ovos de Pterossauro Encontrados na China

O bom estado de conservação destes ovos ajudar-nos-á a perceber como é que estes répteis com asas se reproduziam — e a forma como as suas crias se comportavam. Quarta-feira, 13 Dezembro

Por Michael Greshko

Um caso inédito: paleontólogos a trabalhar no noroeste da China encontraram centenas de ovos de pterossauros, os répteis voadores que viveram ao mesmo tempo que os dinossauros. Alguns destes ovos contêm os embriões mais desenvolvidos alguma vez encontrados.

Apesar de os cientistas estudarem os pterossauros há mais de dois séculos, os primeiros ovos só foram descobertos no início do segundo milénio, e pouco mais de uma dúzia desde então. O achado foi feito por Xiaolin Wang, um paleontólogo da Chinese Academy of Sciences, e inclui pelo menos 215 — talvez 300 — ovos incrivelmente bem preservados.

A equipa de investigadores encontrou, ainda, 16 embriões entre os ovos, e suspeita de que existam mais conservados na rocha. Wang e a sua equipa anunciaram o achado no dia 1 de dezembro na revista Science.

“Exagera-se muito em paleontologia, mas este achado é, de facto, absolutamente fenomenal”, afirma David Hone, investigador da Queen Mary University of London, que não esteve diretamente envolvido no projeto. “É uma área da ciência que ainda está a dar os primeiros passos, e esta descoberta tem tudo para ser crucial no seu desenvolvimento.”

TEMPESTADES PERFEITAS

Os ovos encontrados correspondem ao Hamipterus tianshanensis, uma espécie de pterossauro já conhecida que viveu na região noroeste da China há mais de cem milhões de anos. Com uma envergadura de asas que podia atingir os três metros e, possivelmente, uma dieta à base de peixe, estes animais assemelhavam-se às garças modernas e viviam perto de massas de água.

“O local onde foram encontrados os ovos fica no deserto de Gobi, onde se fazem sentir ventos muito fortes por entre o imenso areal onde existe pouca vegetação ou animais”, afirma o coautor do estudo Shunxing Jiang, da Chinese Academy of Sciences. “Contudo, na altura dos Hamipterus, as características desta região eram muito melhores – chamamos-lhe o Paraíso dos Pterossauros.”

Estes pterossauros não só se alimentavam neste paraíso há muito perdido, como era aqui que vinham procriar, enterrando os ovos na vegetação ou junto às margens das massas de água. Os ovos encontrados fossilizaram envoltos em sedimentos arrastados pelas águas do lago — a teoria sugere que, possivelmente, a zona de nidificação destes animais foi afetada por uma tempestade que terá arrastado os ovos para um grande lago, tendo estes sido sepultados pelas águas enlameadas. Os ovos não foram todos arrastados pela água em simultâneo: há pelo menos quatro camadas de sedimentos, sugerindo que ocorreram várias tempestades e, consequentemente, cheias ao longo do tempo.

A equipa liderada por Wang sugere que este antigo local de nidificação pode ter sido sucessivamente afetado por cheias. Isto sugere que, tal como as aves e as tartarugas modernas, os Hamipterus nidificavam repetidamente no mesmo local.

O grande número de ovos encontrado sugere que os Hamipterus procriavam em grandes grupos, como as aves de hoje.

ABANDONANDO O NINHO

Devido à fúria das águas naquele lago chinês antigo, muitos ovos acabaram por abrir rachas, permitindo assim que os sedimentos se depositassem no seu interior, preservando-se assim a sua forma oblonga. Em pelo menos 16 destes ovos, os sedimentos envolveram os esqueletos frágeis ainda em desenvolvimento, e ainda um osso do que os cientistas acreditam ter  pertencido uma cria mesmo muito jovem.

“Podemos analisar os esqueletos e perceber melhor as características destes embriões, das crias, e dos pterossauros mais jovens à medida que iam crescendo”, explica-nos Juliana Sayão, especialista em estruturas ósseas na Universidade federal do Rio de Janeiro. “Esta é uma descoberta única — pela primeira vez, temos o conjunto completo.”

Comparando os ossos de pterossauros de idades diferentes, os investigadores conseguem ter uma ideia de como os Hamipterus cresciam. Descobriram que os embriões mais desenvolvidos ainda não tinham dentes, e que os membros anteriores eram menos desenvolvidos que os posteriores. As asas relativamente frágeis surpreenderam os investigadores, que pensavam que as crias saiam dos ovos praticamente prontas para voar. Contudo, os fósseis indicam que os Hampiterus eram animais de crescimento lento, que aprendiam primeiro a deslocar-se apoiados nos quatro membros e só mais tarde aprendiam a voar.

“Acho que eles têm um caso de estudo muito sólido, e os resultados têm sido muito interessantes”, afirma Mike Habib, paleontólogo da University of Southern California, e perito em reconstruir a forma como estes animais se moviam. Habib espera que seja desenvolvido trabalho em torno destes fósseis com recurso a análise mecânica do sistema esquelético, e que este teste o quão aptos para voar estavam estes pequenos répteis.

Estudos futuros ajudarão a comunidade científica a perceber como é que estes titãs voadores se reproduziam. As cascas dos ovos assemelham-se às cascas grossas dos ovos das tartarugas, o que significa que é possível que estes ovos fossem enterrados no solo pelos progenitores para os protegerem — mas como e onde são perguntas que permanecem sem resposta.  Também ainda não se sabe quantos ovos as fêmeas de Hamipterus eram capazes de pôr de uma vez ou o tamanho dos grupos reprodutores.

Com um registo fóssil incompleto, é possível que o modelo de crescimento proposto para o Hamipterus venha a sofrer alterações. É possível que mesmo os maiores embriões encontrados ainda não estivessem prontos para sair do ovo, o que iria sabotar a linha temporal desenvolvida até agora. Ter uma maior variedade de fósseis disponíveis seria uma grande ajuda, e Wang e a sua equipa continuam à procura de fósseis no noroeste da China.

“O que é que eu desejo?”, diz o coautor da investigação, Alexander Kellner, paleontólogo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Em primeiro lugar: encontrar mais embriões. Em segundo: gostava de que encontrássemos ovos in situ, isto é, ovos que não tenham sido removidos do local onde foram originalmente depositados. Aprenderíamos muito com eles.”

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