História

A Face De Uma Rainha da Antiguidade Foi Revelada Pela Primeira Vez

Séculos após a vida e morte de uma senhora nobre do Peru, cientistas reconstruiram a sua face com recurso a uma impressionante tecnologia 3D. Quarta-feira, 27 Dezembro

Por Michael Greshko

Clique na Galeria para ver a sequência da reconstrução, passo a passo.

Há 1200 anos, uma fidalga endinheirada, com pelo menos, 60 anos de idade, foi sepultada no Peru — com um rico aprovisionamento para a eternidade composto por joias, garrafas e ferramentas para tecer, feitas em ouro.

Atualmente, mais de cinco anos depois de o seu túmulo ter sido encontrado intocado, nos arredores da cidade costeira de Huarmey, os cientistas reconstruiram o que pode ter sido seu aspeto.

“Quando vi, pela primeira vez, a reconstrução, reconheci neste rosto traços do aspeto de alguns dos meus amigos indígenas da cidade de Huarmey”, afirma o bolseiro da National Geographic Miłosz Giersz, que é também um dos arqueólogos que descobriram o túmulo da nobre. “Ainda tem os seus genes.”

Em 2012, Giersz e o arqueólogo peruano Roberto Pimentel Nita descobriram o túmulo Castillo de Huarmey. O local, situado numa encosta, foi outrora um grande complexo da cultura Wari, que dominou a região durante os séculos que antecederam os afamados Incas. O túmulo – que escapou miraculosamente a pilhagens — contém os restos mortais de 58 senhoras da nobreza, incluindo quatro rainhas ou princesas.

“Esta é uma das descobertas mais importantes dos últimos anos”, afirmou, numa entrevista anterior, Cecilia Pardo Grau, a curadora de arte pré-colombiana do Museu de Lima.

Uma destas senhoras, apelidada de Rainha de Huarmey, foi sepultada com um esplendor especial. O seu corpo foi encontrado numa câmara funerária privada, e estava rodeado de joias e outros luxos, incluindo alargadores de orelha dourados, um machado cerimonial de cobre e um cálice de prata.

Quem foi esta mulher? A equipa de Giresz examinou cuidadosamente o esqueleto e descobriu que — tal como aconteceu com muitas das nobres que estavam sepultadas no mesmo local, a Rainha de Huarmey passou grande parte do seu tempo sentada, apesar de usar intensivamente a parte superior do seu corpo. O cartão de visita do esqueleto parece ter sido o que uma vida passada a tecer.

As suas competências podem ser explicadas pelo seu elevado estatuto. Entre a cultura Wari e outras culturas andinas da altura, os têxteis eram considerados mais valiosos do que o ouro e a prata, esse valor refletia o tempo que demoravam a completar. Giersz afirma que foram encontrados têxteis antigos, em outros sítios do Peru, que podem ter demorado muito tempo a completar, tendo passado pelas mãos de duas ou três gerações.

A Rainha de Huarmey, deve ter sido especialmente venerada pelas suas capacidades de tecelagem; foi enterrada com os seus instrumentos fabricados em ouro precioso. Além disso, faltavam-lhe alguns dentes — uma característica associada ao consumo regular de chicha, uma bebida alcoólica, açucarada, feita à base de milho que apenas a elite dos Wari era autorizada a beber.

Veja as peças encontradas no Túmulo Imperial no Castillo De Huarmey:

A equipa de Giersz encontrou também resíduos de chicha num canal que liga a câmara funerária da Rainha de Huarmey às câmaras exteriores. O canal possibilitaria a partilha cerimonial de líquidos com a rainha, mesmo depois de o seu túmulo ter sido selado. “Mesmo depois da sua morte, a população local ainda podia beber com ela”, explica Giersz.

Mas qual era o aspeto desta senhora nobre e poderosa? Na primavera de 2017, Giersz consultou o arqueólogo Oscar Nilsson, reconhecido pelas suas reconstruções faciais, para ajudá-lo a trazer de volta o aspeto da Rainha de Huarmey ao mundo dos vivos.

Nilsson não foi o primeiro a tentar reconstruir faces da elite pré-colombiana da América do Sul. Recentemente, a Señora do Cao — uma jovem aristocrata que viveu circa de há 1600 anos, na cultura Moche peruana — foi ressuscitada por arqueólogos.

Ao contrário dessa reconstrução — que foi feita quase totalmente em computador —, Nilsson fez manualmente a reconstrução da Rainha de Huarmey. Utilizando como base um modelo do crânio da fidalga impresso em 3D, Nilsson reconstruiu as suas características faciais à mão.

Para o guiar, Nilsson apoiou-se na construção do crânio, bem como em bases de dados que lhe permitiram fazer uma estimativa acerca da grossura dos músculos e da pele que cobririam o osso. Também usou como referência fotografias de indígenas andinos que viviam perto do Castillo de Huarmey. (Dados químicos confirmam que a Rainha de Huarmey cresceu a beber água local, facto que justificou a comparação.)

Ao todo, Nilsson demorou 220 horas a reconstruir o rosto fundamentado da nobre, e nenhum pormenor foi ignorado. Para reconstruir o seu corte de cabelo — cabelo esse preservado pelo clima árido — Nilsson utilizou cabelo real de uma anciã andina, que tinha sido comprado por Gilesz num mercado de produtos de cabeleireiro peruano.

“Consideramos que o primeiro passo foi o mais científico, e que gradualmente fui entrando num processo mais artístico, e precisei de acrescentar uma expressão humana ou uma centelha de vida”, afirma Nilsson. “De outra forma, parecer-se-ia com um manequim.”

Algumas pessoas terão a oportunidade de ver pessoalmente a obra prima de Nilsson. O trabalho final será apresentado ao público a partir do dia 14 de dezembro, numa nova exposição de artefactos peruanos que irá inaugurar no Museu Nacional Etnográfico de Varsóvia, na Polónia.

“Trabalhei nisto durante 20 anos, e existem muitos projetos fascinantes — mas este era mesmo especial”, diz Nilsson. “Eu não consegui recusar este projeto.”

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