História

A Famosa 'Rapariga Afegã’ Regressa Finalmente a Casa

Mais de trinta anos depois da sua fuga para o Paquistão, Sharbat Gula regressa ao seu país, onde lhe foi oferecida uma casa. Quarta-feira, 27 Dezembro

Por Nina Strochlic

Uma das refugiadas mais conhecidas do mundo tem, finalmente, uma casa. Uma grande casa.

Sharbat Gula tornou-se imediatamente num ícone quando, aos 12 anos de idade, a viver num campo de refugiados no Paquistão, surgiu na capa da edição de junho de 1985 da National Geographic. Recentemente, o governo afegão ofereceu-lhe uma casa decorada ao seu gosto com cerca de 280 metros quadrados. A residência situa-se  em Cabul, capital do Afeganistão.

Segundo Najeeb Nangyal, um porta-voz do Ministério das Comunicações do Afeganistão, a residência é uma prenda do governo afegão, bem como uma bolsa mensal de cerca de 700 dólares para cobrir despesas domésticas e assistência médica.

Sharbat Gula, conhecida para a maior parte do mundo simplesmente como “a rapariga afegã”, recebeu as chaves do seu novo lar no mês passado, numa cerimónia organizada por funcionários do governo afegão. Este presente simboliza o culminar de três décadas enquanto refugiada no Paquistão e um último ano muito conturbado, já no Afeganistão.

O verde contagiante dos olhos de Sharbat Gula fez com que o seu retrato se tornasse imediatamente num ícone em todo o mundo. Tendo ficado órfã aos seis anos, no decorrer de um bombardeamento soviético, Sharbat viu-se obrigada a fugir (a pé) para o Paquistão, juntamente com os seus irmãos e a sua avó. Graças à fotografia tirada por Steve McCurry, Sharbat Gula, ainda que involuntariamente, tornou-se na cara do êxodo dos milhares de afegãos que tentavam fugir para o Paquistão. No seu país ficou conhecida como “a Mona Lisa afegã”.

Hoje, simboliza o regresso ao Afeganistão, um regresso a casa para milhares de refugiados ao fim de várias décadas de afastamento.

UM LONGO CAMINHO ATÉ CASA

Em outubro de 2016, Sharbat Gula foi detida por ter um cartão de identidade paquistanês falso — uma situação comum entre cerca de 1 milhão de refugiados afegãos a viverem ilegalmente no Paquistão —, incorrendo numa pena de até 14 anos de prisão e uma multa de 5000 dólares.

Na altura, criava os seus quatro filhos, enquanto suportava a mesma hepatite C que matara o seu marido anos antes.

“Quando as autoridades paquistanesas a detiveram e a acusaram de possuir documentação falsa, o assunto tornou-se num de importância nacional para o povo e o governo afegãos”, afirma Nangyal.

Depois de ser mantida sobre a custódia das autoridades durante duas semanas, Sharbat Gula foi libertada e regressou ao Afeganistão, acompanhada pelos seus filhos. “O Afeganistão é apenas o sítio onde nasci. O Paquistão era o meu país, sempre o considerei a minha pátria”, confessou à Agence France-Press (AFP) antes de partir. “Estou desiludida. Não me resta outra opção senão partir.”

Em 2016, 370 000 cidadãos registados como refugiados regressaram ao Afeganistão, vindos do Paquistão. Paralelamente, dezenas de milhares de pessoas conheceram o mesmo destino, vindas da Europa e do Irão, muitas vezes deportadas ou vítimas de coerção. O número de refugiados dos quais não há registos — como era o caso de Sharbat Gula — é difícil de estimar, e muitos destes também têm regressado.

“Esta mulher é um símbolo, não só para o povo afegão, mas para o próprio Paquistão também”, explica-nos Heather Barr, investigadora da Human Rights Watch (HRW), que trabalha no Afeganistão há dez anos. “A forma como o seu retrato surgia nos media em todo o mundo, enalteceu o governo do Paquistão em detrimento do Afeganistão: Aqui está uma mulher que teve de fugir do vosso país, uma mulher que escolheu o nosso país. O governo do Afeganistão respondeu ostensivamente recebendo-a de braços abertos. Implícita, a mensagem foi: somos capazes de cuidar dos nossos.”

Sharbat Gula foi recebida pelo presidente Ashraf Ghani, que lhe entregou a chave da sua nova casa e lhe prometeu que os seus filhos iriam ter acesso à saúde e à educação. “Dou-lhe as boas-vindas ao seio da sua terra natal”, disse Ghani numa pequena cerimónia. “Já o disse muitas vezes, e volto a dizê-lo: o nosso país permanecerá incompleto até ter acolhido de volta todos os seus refugiados.”

Contudo, em setembro, o sobrinho do falecido marido de Sharbat Gula queixou-se à comunicação social afegã que o governo ainda não tinha pago a renda da casa. Niamat Gul, o porta-voz do governo, afirmou que tanto a renda como as despesas de Sharbat Gula haviam sido suportadas pelo governo desde que esta regressou ao Afeganistão. Quando Sharbat pediu que lhe fosse, antes, atribuída uma casa mais tradicional, complementa Niamat, foi alojada numa residência de dez assoalhadas junto ao palácio presidencial até que a sua nova casa fosse adquirida pelo governo.

Agora, prossegue Niamat, pessoas inspiradas pela história de Sharbat vêm até sua casa para tirar fotografias e trazer presentes. “Sharbat está feliz, porque o Afeganistão a respeita”, afirmou.

A residência de Sharbat tem seguranças; é necessária precaução no que toca a quem é convidado a entrar na casa. Niamat explicou que toda a atenção de que Sharbat Gula foi alvo desde que a sua cara surgiu na capa da National Geographic a coloca em perigo, uma vez que as fações mais conservadoras do Afeganistão consideram que uma mulher não deve aparecer nos media.

O nome Sharbat Gula presente na escritura do imóvel faz dela parte dos 17% das mulheres afegãs que possuem oficialmente uma casa.

PERDIDOS E ACHADOS

Ao longo dos últimos 15 anos, Sharbat Gula tem sido alvo de muita atenção por parte dos media. A identidade da “rapariga afegã” era desconhecida até 2002, quando Steve McCurry, que tirou a fotografia, a reencontrou nas montanhas da fronteira do Paquistão com o Afeganistão. Um agente do FBI, especialista em reconstrução forense, e o inventor do sistema de reconhecimento da íris confirmaram a identidade de Sharbat, cujo rosto surgiu, então, novamente na capa da National Geographic — sendo umas das poucas pessoas que por duas vezes mereceram destaque na capa da revista.

Nessa altura, Sharbat Gula era casada, mãe de três filhos e não fazia ideia que a sua cara era conhecida em todo o mundo. Na altura, confessou a McCurry que gostava que as suas filhas tivessem o acesso à educação que ela nunca teve.

Parece que o sonho de Sharbat vai, finalmente, realizar-se. As suas filhas estão inscritas numa escola e começarão a estudar no próximo ano letivo, afirma Niamat Gul. “Completarão os estudos, se Alá quiser.”

O governo do Afeganistão sugeriu que Sharbat expandisse o seu sonho. Nangyal, o porta-voz, propôs-lhe que criasse uma fundação para educar e encorajar mulheres e crianças, principalmente aquelas em processo de repatriação, e Sharbat está a ponderar. “O conselho que dou a todas as mulheres é que não casem as suas filhas demasiado cedo”, disse à BBC Persia. “Deixem-nas estudar, completar a sua educação, a mesma educação dos vossos filhos.”

No entanto, é possível que as filhas de Sharbat venham a conhecer um Afeganistão pior do que aquele de que a sua mãe fugiu há 30 anos. Hoje, apenas metade das jovens afegãs vão à escola, e a maior parte abandona-a em idades entre os 12 e os 15 anos. Em zonas rurais, o número de raparigas a frequentar o ensino tem vindo a decrescer.

Heather Barr, da HRW, diz que a igualdade de género no Afeganistão é uma realidade ainda mais distante do que em países como o Paquistão ou o Irão, que acolheram seis milhões de refugiados afegãos durante a Guerra Afegã-Soviética. As mulheres e raparigas que regressam agora ao Afeganistão terão de se habituar a terem sempre um homem por perto quando saem de casa ou quando é necessário tomar uma decisão. Por vezes, explica-nos Barr, estas mulheres repatriadas são consideradas “imorais ou indecentes” porque cresceram noutro país.

À medida que os refugiados afegãos regressam a casa – crê-se que o Afeganistão alberga atualmente cerca de três milhões de refugiados internos e repatriados —, as mulheres e as crianças correm o risco de serem alvo de abusos sexuais e violência com base na descriminação sexual, explicou-nos Manizha Naderi, diretora executiva da Women for Afghan Women.

"Enquanto Sharbat Gula foi recebida calorosamente ao regressar ao Afeganistão, milhares de mulheres afegãs estão a ser obrigadas a voltar, sem família, casa, trabalho, ou qualquer perspetiva de terem uma vida segura e estável”, afirma Manizha Naderi.

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