História

Antigo Trono e Salão Cerimonial Desenterrados no Peru

O complexo com duas câmaras teria sido local de realização de cerimónias da cultura Moche. Segunda-feira, 22 Janeiro

Por Elaina Zachos

Há mais de 1500 anos, uma antiga sociedade Andina de habitantes do deserto governava a costa norte do Peru. Antes da civilização Inca e a conquista hispânica, o sofisticado povo Moche viveu desde o séc. I ao XVIII. Manipularam, de forma inteligente, as cheias sazonais para construírem canais de irrigação para cultivar milho e feijão no terreno árido e implacável e também construíram colonatos ao longo da costa durante cerca de 346 km.

Mas depois, por volta de 700 d.C., a sociedade desapareceu misteriosamente. Alguns cientistas afirmam que a civilização foi destruída por cheias catastróficas como as verificadas no fenómeno El Niño, que ainda alaga a região atualmente. Outros afirmam que a civilização sucumbiu a terramotos, seca ou dunas de areia invasoras, especulando-se ainda que fatores sociais e culturais possam ter dividido a sociedade.

Ruínas monumentais, trabalhos em ouro, cerâmicas elaboradas e sistemas de irrigação são algumas das relíquias existentes da sociedade há muito perdida. Mas uma recente descoberta está a esclarecer as práticas cerimoniais da cultura enigmática, sendo que algumas das quais envolviam o sacrifício humano.

A 8 de janeiro, arqueólogos peruanos publicaram novos capítulos na saga da civilização Moche, com a descoberta de um salão cerimonial de banquetes no monumento Huaca Limón de Ucupe. Localizado a cerca de 28 km a sul da cidade de Chiclayo, na região norte de Lambayeque, a equipa encontrou artefactos e restos mortais humanos aninhados entre as ruínas.

UMA VIAGEM NO TEMPO

O complexo arqueológico de Limón consiste em duas câmara e cinco estruturas piramidais truncadas sobre plataformas ligeiramente elevadas. Perto das pirâmides em tijolo, a equipa, chefiada pelo explorador National Geographic Walter Alva, encontrou um modelo rudimentar em argila que representa a estrutura. Este modelo permite compreender como os arquitetos Moche planeavam os seus edifícios.

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"Este achado arqueológico é extremamente importante, pois o que encontrámos foi uma sala para banquetes cerimoniais utilizada para celebrações pelos governantes Moche", afirmou o arqueólogo-chefe Walter Alva a um serviço noticioso alemão. "Demonstra a sumptuosidade da área envolvente daquela época."

Existem duas salas no complexo: um salão de banquetes e uma sala de reuniões. Uma escadaria conduz ao salão de banquetes, localizado sobre uma plataforma. Murais que ilustram cenas marinhas decoram o salão, com pinturas de leões-marinhos e peixes, como bagres e raias. Enquanto outros murais Moche representam divindades ou desenhos simbólicos e geométricos, os achados no complexo de Limón são naturalistas.

Num mural, que mede mais de nove metros de comprimento, um tom azul outrora vibrante representa o pano de fundo aquático para uma cena de um barco pintado a pescar com anzois. A parte superior do mural está inacabada. Os arqueólogos afirmam que foi parcialmente desmontado e intencionalmente tapado por volta do século V, quando esta estrutura específica foi repentinamente abandonada. (Ver: "Incêndio destrói antigo templo peruano")

No salão de banquetes, existem dois tronos espaçados, com degraus, virados um para o outro. Um está elevado, com sete degraus, que os especialistas afirmam que poderá ter sido construído para o líder da sociedade, que recebia as ofertas do banquete. O outro, mais baixo, destinava-se provavelmente à pessoa que oferecia o banquete.

De um lado do salão de banquetes, existe espaço para um pequeno banco, possivelmente para a pessoa que teria organizado o banquete. Também existem mais de 100 recantos para pratos e travessas que teriam servido comida, refletindo, assim, a quantidade e variedade das refeições dos cerimoniais Moche.

Uma sala de igual dimensão está ligada ao salão de banquetes através de um alpendre. Aqui, um pódio circular de dois andares, está em frente à entrada, que os arqueólogos afirmam que poderá ter sido utilizada para proferir anúncios durante o banquete.

PISTAS PARA O PASSADO

Os arqueólogos afirmam que este complexo com duas câmaras teria realizado reuniões de cariz político e social para homens e mulheres da nobreza Moche durante a fase inicial e intermédia desta civilização. Até agora, tais cerimónias a destacar indivíduos da elite só tinham sido encontradas ilustradas em ilustrações em cerâmica e murais.

A estrutura está perto do rio Zaña, o que torna mais provável que uma cheia extrema semelhante ao fenómeno El Niño possa ter sido o motivo do fim da sociedade Moche. A mesma água que alimentou os inovadores sistemas de irrigação desta civilização poderá ter sido a origem do seu declínio misterioso.

"Estas cenas tinham sido ilustradas na iconografia do universo Moche mas nunca tínhamos tido a sorte de descobrir fisicamente o local onde as mesmas se realizaram", afirmou Alva à agência Reuters. "É uma descoberta muito importante."

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