História

Arqueólogos Descobrem Nova Vala Comum de Célebre Naufrágio

Ao passo que outros passageiros do Batavia foram atirados borda fora ou decapitados, as vítimas da mais recente descoberta tiveram um destino mais gentil. Terça-feira, 9 Janeiro

Por Michael Greshko

Numa ilha ao largo da costa da Austrália Ocidental, arqueólogos encontraram uma vala comum associada a um naufrágio tão assustadoramente macabro, que torna O Senhor das Moscas numa brincadeira de meninos.

A sepultura continha os restos mortais de cinco passageiros do Batavia, um navio almirante da Companhia Holandesa das Índias Orientais que se afundou em 1629, na sua viagem inaugural da Holanda até Java. Os corpos, enterrados de forma organizada numa fila e sem sinais de violência, provavelmente morreram de desidratação logo após o naufrágio - antes de a loucura se ter instalado entre alguns dos sobreviventes.

Notoriamente, muitos dos outros passageiros do Batavia foram assassinados por amotinados após o navio ter encalhado em Morning Reef, perto da Ilha de Beacon. Sinais desta brutalidade abundam noutras sepulturas escavadas por arqueólogos. Um desses esqueletos pertence a um homem sem a parte superior do crânio devido a um golpe desferido por uma espada. O seu corpo foi arrastado sem cerimónia até ao seu local de descanso final.

O Batavia deu origem ao caos quando o comandante do navio, Francisco Pelsaert, deixou cerca de 282 sobreviventes para trás na Ilha de Beacon — parte das Ilhas Abrolhos, um arquipélago a cerca de 80 km da costa da Austrália - enquanto tentava encontrar uma fonte de água próxima. Graças a uma tremenda falta de sorte, demorou três meses a regressar com ajuda.

Na ausência de Pelsaert, um comerciante hedonista de seu nome Jeronimus Cornelisz assumiu o poder e orquestrou dezenas de assassinatos, matando até mulheres e crianças. O seu reinado de terror terminou quando alguns homens, que tinham sido enviados para explorar outras ilhas, o subjugaram. Após o regresso de Pelsaert, Cornelisz e muitos dos seus amotinados foram executados.

No total, cerca de 115 pessoas morreram após o naufrágio, muitas das quais foram assassinadas. A Ilha de Beacon tem, presentemente, a alcunha de "Cemitério de Batavia" e alguns canais de comunicação social começaram a chamá-la de "Ilha do Assassinato".

"É uma história bastante bizarra, não é?", afirma Jeremy Green, Diretor de Arqueologia Marítima do Museu da Austrália Ocidental, que estudou o naufrágio do Batavia durante mais de 40 anos. "Nunca li nada sobre algo igualmente mau."

DAR ESCLARECIMENTOS SOBRE UMA TRAGÉDIA

A descoberta de uma vala comum na Ilha de Beacon, apesar de trágica, permite um raro luxo de ordem científica. Como Pelsaert publicou os seus diários de bordo após o incidente, os arqueólogos podem comparar as suas descobertas com um relato histórico pormenorizado.

Trata-se de uma linha de investigação que os cientistas seguiam há décadas. De facto, Green afirma que a descoberta em 1963 do Batavia levou a Austrália Ocidental a aprovar leis que protegessem o património arqueológico submarino da província - as primeiras leis do seu género a nível mundial.

Apesar de alguns vestígios terem sido encontrados na Ilha de Beacon na altura, foram necessárias mais duas décadas para descobrir mais sobre as vítimas do Batavia. Em finais dos anos 80, pescadores na Ilha de Beacon estavam a cavar um esgoto a partir da sua casa de banho quando se depararam com ossadas humanas. Em 1994, os arqueólogos começaram as escavações no local, que continha os corpos de três adultos, um adolescente, uma criança e um bebé.

Desde então, os arqueólogos continuaram a busca por novas sepulturas.

“Foram descobertas dez pessoas na parte central da Ilha de Beacon, nos últimos três anos, durante o nosso projeto de investigação que vieram fornecer nova informação valiosa", afirmou numa declaração o professor Daniel Franklin, da Universidade da Austrália Ocidental.

 

Liesbeth Smits, uma antropóloga física da Universidade de Amesterdão, tenciona medir as composições elementares precisas dos esqueletos recém encontrados, que dão pistas químicas para a dieta e países de origem das vítimas. "Somos o que comemos", afirma.

Utilizando estas técnicas, descobriu previamente que apesar do porto de escala do navio ser na Holanda, muitos dos passageiros do Batavia eram oriundos da Escandinávia, Reino Unido, França e Alemanha.

Green afirma que esta tripulação cosmopolita era resultado da época. Por volta de 1620, a Europa estava de rastos devido à terrível Guerra dos Trinta Anos e a Holanda ainda lutava há décadas a sua guerra de independência contra Espanha.

Fazer parte da Companhia Holandesa das Índias Orientais implicava correr riscos. Apenas um em três europeus que fazia a viagem regressava a casa. Mas à medida que os conflitos da época as desfalcaram muitas outras pessoas viram o Batavia como uma saída.

"As pessoas iam para onde existisse uma oportunidade. Podiam ser alimentados e razoavelmente bem pagos, com perspetivas de fazer uma pequena fortuna, se tivessem sorte", afirma Green.

Estudos sobre estes passageiros decididamente infelizes continuam a ser efetuados. Green afirma que a equipa irá publicar artigos académicos sobre as suas descobertas no próximo ano — esclarecendo através da ciência uma atrocidade que ocorreu quase há quatro séculos.

"Faço este trabalho há muito tempo, pelo que estou habituado a mortes violentas", afirma Smits. No caso do Batavia, “sabemos exatamente o que lhes aconteceu e como foi macabro, pelo que tem um grande impacto, mas conseguimos permanecer sempre objetivos."

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