História

Há 115 Anos, Assistíamos ao Desastroso Destino das Primeiras Expedições ao Ártico

Completando 130 anos de existência, a National Geographic partilha com os seus leitores a história das primeiras expedições norte-americanas ao Polo Norte. Segunda-feira, 22 Janeiro

Por Nina Strochlic

Trenós puxados por cães, pequenos grupos de exploradores fustigados pelo frio e blocos de gelo à deriva seriam elementos expectáveis de uma das primeiras expedições ao Ártico. No entanto, a filmagem de 23 minutos capturada no Polo Norte há 116 anos não constitui apenas as primeiras filmagens do arquivo da National Geographic, trata-se do testemunho de uma das aventuras científicas mais desastrosas de sempre.

Na viragem do século XX, os Estados Unidos estavam obcecados pelo Polo Norte. Ao longo da última década do século XIX, muitos tentaram chegar ao Polo Norte — uma expedição sueca a bordo de um balão de ar quente, dois noruegueses com esquis, e um duque italiano a bordo de um baleeiro a vapor. Todos falharam. Paralelamente, autores de renome como Arthur Conan Doyle, Mary Shelley e Edgar Allan Poe obrigaram os seus personagens a confrontarem-se com esse imenso continente misterioso, o Ártico, enquanto várias fontes teorizaram que uma civilização de gigantes, há muito desaparecida, vivera nesse lugar tão remoto do planeta Terra. No seu livro Paradise Found: The Cradle of the Human Race at the North Pole, publicado em 1885, o presidente da Universidade de Boston propunha a tese de que lugares míticos como a Atlântida, a Ilha de Avalon, e o próprio Jardim do Éden se situavam no Polo Norte.

Veja as fotografias da expedição de Ziegler:

“Estas ideias foram encaradas com seriedade. Ninguém as refutou, porque, até então, ninguém estivera no Polo Norte”, afirma PJ Capelotti, professor doutor de Antropologia e colaborador do The Polar Center da Penn State University, na Pensilvânia. Quem quer que fosse o primeiro a chegar a este território desconhecido teria garantidas fama e prosperidade que se estenderiam por muito tempo após a sua morte. Financiada por investidores abastados e alimentada pelo fascínio da opinião pública pelo assunto, a “investida polar” arrancou a todo o gás no início do século XX.

Evelyn Baldwin tinha mais interesse no assunto do que experiência quando o empresário William Ziegler, conhecido como “o rei do fermento”, o escolheu para liderar uma expedição ao Ártico.

Convencido por uma versão romantizada de uma tentativa de montagem de um acampamento no arquipélago conhecido como A Terra de Francisco José, situado entre o Mar de Barents e o Oceano Glacial Ártico, Ziegler depositou a sua confiança e fundos quase ilimitados nas mãos de um homem cuja experiência era ou “pura fabricação ou um tremendo exagero”, afirma Capelotti.

Num artigo publicado na revista McClure’s Magazine, Baldwin recorda as palavras de Ziegler no dia em que a expedição foi anunciada: “Quando tantos dos nossos bravos compatriotas sacrificaram as vidas pela glória de tal feito, não aceito ver alguém que não um americano a conquistar a honra de descobrir do Polo Norte.”

Baldwin estava confiante de que, ao contrário das anteriores, esta tentativa de “desvendar os segredos guardados pela Esfinge dos Glaciares do Norte” seria um sucesso.

Em 1901, a expedição composta por 42 homens, e liderada Baldwin, partiu em direção à Terra de Francisco José, o arquipélago situado mais a norte em todo o mundo. Um destes homens era Anthony Fiala, um entusiasta a dar os primeiros passos na fotografia que deixara o seu emprego como cartoonista e gravador num jornal para se juntar à expedição.

Segundo Capelotti, cujo livro “The Greatest Show in the Arctic”, relata a jornada destes homens, Fiala foi o responsável pelo que muito possivelmente é “o primeiro registo fotográfico de uma expedição ao Ártico.”

Os 23 minutos de filmagens que sobreviveram até aos nossos dias mostram-nos cães a correrem de um lado para o outro, lançamentos de balões, e acampamentos desmontados. Doadas à National Geographic pelo neto de Fiala, Ronald Fiala, em 1986, estas são às filmagens mais antigas no nosso arquivo.

Mais tarde, Fiala descreveria a sua estratégia para conseguir trabalhar debaixo dos trinta graus negativos da tundra sem que as fotografias ficassem sobre-expostas ou que o filme estalasse. Usou um bioscópio — um antepassado da câmara de filmar — para “capturar imagens dos homens, dos cães e dos póneis a caminharem no gelo”, escreveu num artigo publicado em 1907 na National Geographic. Planeara filmar “o America [o navio] a navegar por entre o gelo, e, se possível, lutas de ursos.” Para prevenir que o filme se tornasse rígido e, por conseguinte, mais propenso a estalar, Fiala embrulhava a câmara em cobertores quentes.

A viagem foi um fracasso. A expedição de Baldwin mal progrediu para Norte, e as suas competências enquanto líder era limitadas, tendo, mais tarde, sido descrito por Ziegler como um tipo que andava por ali a fumar cigarros e a comer tarte, contou-nos Capelotti. Quando regressaram de mãos vazias em 1902, Baldwin foi despedido.

Apesar de tudo, Ziegler continuava focado em alcáçar o Polo Norte com uma expedição batizada com o seu nome, e rapidamente organizou uma segunda tentativa comandada por Fiala. Antes da nova expedição partir, Fiala e Ziegler reuniram-se com o então presidente da National Geographic, e Gilbert H. Grosvenor, o editor, que prontamente apoiaram a missão. A mulher de Grosvenor desenhou uma bandeira com o nome da sociedade para acompanhar a expedição na sua viagem. Uma bandeira que ainda acompanha os exploradores da National Geographic.

A segunda “investida polar” teve um desenlace ainda mais desastroso que a primeira. Fiala partiu para o Ártico em 1903, mas o seu navio afundou-se, deixando a expedição presa numa ilha da Terra de Francisco José durante dois anos. “Foram duas expedições muito diferentes no que se prende com a tripulação e a liderança, mas semelhantes numa coisa: a sua incompetência”, afirma Capelotti. Surpreendentemente, todos os homens sobreviveram, graças à considerável quantidade de carcaças de ursos polares e morsas que haviam acumulado e à descoberta de um depósito de carvão.

Foram encontrados por um navio de salvamento e regressaram aos Estados Unidos em 1905. Infelizmente, Ziegler falecera no ano anterior, possivelmente assumindo o pior.

Apesar de tudo, resultaram da expedição alguns avanços científicos: um livro, escrito pelo cientista-chefe William J. Peters, a respeito da meteorologia e da topografia do Ártico, foi publicado pela National Geographic em 1907, e incluía mapas desenhados pelo seu assistente Russell Porter e as fotografias de Fiala.

“Ele fez algo que ninguém fizera antes e que não tem sido feito muitas vezes desde então”, explicou-nos Capelotti a respeito de Fiala e do seu trabalho fotográfico. “Permite-nos ver como é que pensavam e o que acreditavam estar a fazer. As filmagens colocam-nos lá, a testemunhar aquilo com os olhos daqueles homens.”

Em 1909, Robert Peary e Frederick Cook reclamaram o título de primeiro homem a chegar ao Polo Norte. Se realmente o fizeram, é algo que ainda hoje levanta dúvidas. Oficialmente, a primeira expedição a alcançar o Polo Norte por via terrestre fê-lo em 1968.

A aventura seguinte de Fiala levá-lo-ia até à selva, seguindo o afamado “Rio da Dúvida”, um afluente do Amazonas que num episódio que envolveu o presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt se viu rebatizado com o apelido do mesmo. Regressou ao fim de seis meses e abriu, em Nova Iorque, a Fiala Outfits, uma empresa de equipamento de aventura, desde carabinas para caçar elefantes a trenós de tração canina.

Baldwin não voltou a participar em expedições. Trabalhou na marinha e morreu nos anos trinta depois de ter sido atropelado por um carro. Mas, no final, fora-lhe reservada um pouco de glória polar— na sua lápide, e possivelmente a seu pedido, é celebrado como um grande explorador do Ártico. “Está sepultado debaixo do seu próprio mito, em pleno Kansas”, afirma Capelotti.

O próprio Capelotti teve um papel importante em toda a mística que envolve o Polo Norte. Depois de uma expedição à Terra de Francisco José, em 2006, viu-se no centro de uma teoria da conspiração popularizada na internet que afirmava que Capelotti tinha descoberto uma raça de gigantes cuja existência o governo teria mantido em segredo. “A ideia de que existe uma entidade bíblica ou extraterrestre lá em cima que ultrapassa o nosso entendimento é persistente na nossa cultura”, explicou-nos entre gargalhadas.

Mas existem outras semelhanças entre os anos de ouro das explorações ao Polo Norte e as aventuras que o século XXI ainda nos reserva: “Há milionários a planear viagens à Lua.”

Onde quer que seja que os exploradores de hoje vão, uma coisa é certa: levarão consigo câmaras que não precisam de ser embrulhadas em cobertores como a de Fiala, e regressarão com imagens e vídeos que serão partilhados com as massas. No seu artigo de 1907, Fiala imaginou o tudo isto e percebeu o seu potencial: “Ainda há territórios por conquistar; é bom saber que quando descobrirmos esses lugares e lá deixarmos as nossas bandeiras, com a ajuda do sol e da química moderna, poderemos ver, tal como o explorador, o que em tempos foi território proibido e misterioso.”

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