História

O Que Dizimou Os Astecas? Cientistas Encontram Novas Pistas

A Salmonela pode ter sido parcialmente responsável pela epidemia do século XVI que matou milhões. Sexta-feira, 19 Janeiro

Por Sarah Gibbens

De 1545 a 1550, os astecas que habitavam a zona que corresponde atualmente ao Sul do México experienciaram um surto letal. Estima-se que tenham morrido entre cinco e 15 milhões de pessoas.  Entre os nativos o surto era conhecido como cocoliztli, mas a causa ou causas exatas têm permanecido um mistério nos últimos 500 anos.

Atualmente, um novo estudo publicado no Nature Ecology and Evolution sugere que possa ter tido origem numa estirpe letal de salmonela. Foi encontrada Salmonella enterica— do subtipo Paratyphi C, para ser mais exata — presente no ADN de dez indivíduos que estavam enterrados na vala associada com o cocoliztli, em Teposcolula-Yucundaa

De acordo com a autora do estudo, Åshild Vågene, do Instituto Max Planck, a estirpe é uma infeção bacteriológica que provoca um tipo de febre entérica quase idêntica à tifóide. E se hoje em dia aquela estirpe específica de salmonela é muito mais rara, Vågene afirma que se teria espalhado de forma semelhante. Qualquer comida ou água contaminada com a estirpe ter-se-ia tornado mortífera quando ingerida. As vítimas tiveram febre, vómitos e provavelmente uma erupção cutânea.

EXTRAINDO ADN ANTIGO

Os historiadores e os arqueólogos têm vindo a suspeitar há algum tempo que a responsável pelo cocoliztli talvez tenha sido uma doença hematológica. Representações de artistas espanhóis e indígenas mostram os infetados com hemorragias nasais e a tossir sangue. Contudo, as provas físicas mais cabais têm sido difíceis de encontrar.

"Esta é uma das doenças que não deixa pistas visíveis no esqueleto”, diz Vågene, acrescentando que muito poucas deixam.

Então, para conseguir detetar a presença do agente patogénico, os investigadores decidiram analisar o ADN com 500 anos presente nos dentes dos restos mortais de 24 indivíduos indígenas. Os cientistas submeteram as amostras a uma análise de sequenciação de ADN chamada MALT, um programa informático que armazena informação de todos os patogénicos conhecidos, e respetivas características.

"Um dos aspetos mais importantes é que não precisamos de fazer suposições”, afirmam Alexander Herbig, o outro autor do estudo, também do Instituto Max Planck. Em vez de formularem uma hipótese para vários agentes patogénicos, os investigadores puderam testar o ADN e compará-lo com uma grande parte da sua base de dados.

Dos 24 que foram testados, dez mostraram sinais de salmonela. Além de testarem indivíduos que tiveram contacto com europeus, os investigadores também testaram cinco indivíduos que tinham sido enterrados antes da chegada dos europeus. Nenhum desses cinco tinha marcadores no seu ADN que provassem a presença de salmonela.

A CULPA É DOS EUROPEUS?

Os registos históricos mostram que quando os europeus entraram nas Américas, trouxeram consigo um grande número de doenças infecciosas, incluindo a varíola e o sarampo. Estas doenças afetaram particularmente os nativos — porque não tinham imunidade contra as mesmas. Vågene e Herbig explicam que a hipótese em que trabalham afirma que aconteceu o mesmo quando os espanhóis chegaram ao México.

Num estudo publicado em fevereiro do ano passado, os investigadores notaram que a mesma estirpe de salmonela foi detetada no ADN presente nos restos mortais de uma mulher norueguesa que morreu em 1200. Isto significa que a mesma estirpe que pode ter dizimado os astecas, no século XVI, tinha também estado presente 300 anos antes, do outro lado do oceano Atlântico.

Vågene afirma ser possível que o patogénico já tivesse existido no México. Mas não foram encontradas provas que confirmassem a teoria.

AS ORIGENS DE UMA EPIDEMIA

Para confirmar definitivamente se a salmonela contribuiu para o surto histórico no México, os cientistas precisariam de testar mais ADN proveniente de outros locais. "Instintivamente, suspeito que tenham sido vários os agentes envolvidos naquela epidemia”, afirma Caitlin Pepperrell, uma investigadora que estuda doenças infecciosas na Universidade de Wisconsin-Madison, que não participou neste estudo.

Pepperrell diz que é possível que muitos outros fatores tenham também contribuído para tal, muitos consequência do colonialismo, incluindo “interrupções do fluxo de mantimentos disponíveis, fome, alterações na forma das populações se agruparem, e recolocações.”

"É difícil saber ao certo”, declara Anne Stone da Universidade do Estado do Arizona –Departamento de Evolução Humana e Mudanças Sociais, que também não esteve envolvida no estudo. "Mas parece-me provável ter tido origem europeia porque sabemos que era novo para a população e que os atingiu de forma fulminante.”

Afirma que mais amostras de ADN de mais locais de enterramentos poderiam confirmar esta teoria. Vågene concorda com a ideia de que até que os arqueólogos identifiquem mais locais atingidos pelo cocoliztli, os investigadores conseguem aventar hipóteses sobre o que causou o surto massivo. Entretanto, Herbig acrescenta, que continuarão a utilizar a sequenciação de ADN para descobrir quais as maiores doenças que afetaram a história da humanidade e de que forma.

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