História

Quem era o Homem da Máscara de Ferro?

Rumores a respeito de um prisioneiro do tempo do reinado de Luís XIV ganharam contornos míticos após a publicação da célebre obra de Alexandre Dumas. A identidade deste indivíduo permanece incógnita. Sexta-feira, 26 Janeiro

Por Carlos Blanco Fernández

No final da segunda metade do século XVII, rumores a respeito de um misterioso prisioneiro começaram a circular em França. Os detalhes escasseavam, mas a história era fascinante: um indivíduo de nome desconhecido fora preso por ordem expressa do rei Luís XIV. A sua identidade era desconhecida, e o seu rosto não podia ser visto pois haviam forçado o indivíduo usar uma máscara de ferro.

Um jornal de 1687 faz menção da transferência deste prisioneiro para a cidadela de Sainte-Marguerite, uma pequena ilha mediterrânica ao longo da costa de Cannes, no sul de França, sob custódia de um antigo mosqueteiro de seu nome Bénigne de Saint-Mars. Tanto o guarda como o prisioneiro haviam habitado anteriormente os fortes de Pignerol e Exilles, em Itália.

Os dois voltaram a deslocar-se quando, em 1698, Saint-Mars foi nomeado governador da Bastilha, em Paris. O protocolo não fora alterado: no seu diário, um funcionário da Bastilha confessou o seu espanto aquando da chegada do seu novo superior que se fazia acompanhar por um homem “que permaneceria sempre mascarado e cujo nome jamais seria pronunciado.”

Quando o prisioneiro faleceu, na Bastilha, em 1703, ficou registado que o corpo de um homem com cerca de 50 anos fora enterrado no cemitério de Saint-Paul e os seus pertences queimados ao nascer do dia. Dizia-se que até as paredes da sua cela haviam sido raspadas e lavadas.

Teorias da conspiração

Este misterioso prisioneiro viveu, como já vimos, durante o reinado de Luís XIV. Para os seus apoiantes, Luís XIV era le Roi Soleil – o Rei Sol —, cujo domínio fortalecia e expandia as fronteiras da própria França. Para os seus detratores, Luís XIV era um tirano absolutista – isto é, que reinava como se de um escolhido de Deus para governar a Terra se tratasse – que transformara França num estado policial.

Após a sua morte, rumores a respeito deste prisioneiro começaram a circular de forma descontrolada, dizendo-se que o castigo deste homem fora encomendado pelo próprio trono.

Desde o início, as histórias em torno do “homem mascarado” eram mais do que mero sensacionalismo: eram utilizadas diretamente como propaganda contra o rei. Durante a Guerra dos Nove Anos (1688-1697), os holandeses, que lutavam para proteger a sua república do expansionismo francês, espalharam rumores como uma forma de denegrir a imagem, e a legitimidade, do rei Luís XIV. Alguns holandeses espalharam a ideia de que o prisioneiro era um antigo amante da rainha-mãe e o verdadeiro pai do rei Luís XIV – o que, a ser verdade, faria de Luís XIV um rei ilegítimo.

Em França, suspeitava-se de que a identidade do prisioneiro poderia, efetivamente, pertencer a um membro da família real. Uma das teorias mais prevalentes aponta Louis de Bourbon, o Conde de Vermandois, filho ilegítimo do rei com a sua amante Louise de La Vallière, como sendo o famoso Homem da Máscara de Ferro. Banido da corte depois de ser apontado como homossexual, Louis de Bourbon tentou cair nas graças do pai juntando-se às campanhas na Flandres, onde adoeceu e, muito provavelmente, onde terá falecido. Entusiastas de teorias da conspiração especulam que de Bourbon sobreviveu e foi secretamente aprisionado pelo seu pai, o rei Luís XIV.

Mitos

Outro candidato ao título de Homem da Máscara de Ferro é François de Bourbon, o duque de Beaufort. Primo do rei, François de Bourbon foi um dos líderes da Fronde, a fação que conspirou contra o rei no início do seu reinado, tendo, assim, acentuado a tendência deste para uma governação absolutista. Apesar de Beaufort ter falecido no campo de batalha, há quem sustente a tese, altamente improvável, de que este foi raptado e preso pelo rei. 

Ao longo do século XVIII, o número de identidades possíveis para este misterioso prisioneiro continuou a aumentar. Alguns diziam que se tratava do filho bastardo de Ana de Espanha, rainha de França e mãe de Louis XIV, meio-irmão do rei. Outros especulavam que a máscara era uma forma de Luís XIV castigar simbolicamente os amantes da sua mulher, Maria Teresa da Áustria. Uma sugestão especialmente habilidosa é a de que se trataria de um pajem anão que supostamente havia engravidado a rainha.

Para muitos pensadores iluministas, este prisioneiro é um dos mais significativos símbolos da opressão e da tirania, a encarnação dos piores traços do Rei Sol. Entre estes pensadores destaca-se Voltaire, que sugeriu que o prisioneiro poderia ser um irmão do rei. Enquanto fontes anteriores descreviam a máscara como sendo feita de veludo ou tecido, Voltaire deixou claro que esta era de ferro, tendo-a descrevido detalhadamente para salientar a crueldade do engenho: “a zona do queixo era composta por molas de aço, que permitiam que o prisioneiro conseguisse comer sem tirar a máscara.”

O próprio Voltaire esteve preso na Bastilhas em 1717, tendo afirmado que os reclusos mais antigos lhe contaram a história do prisioneiro da máscara de ferro. Descreveu-o como “um prisioneiro desconhecido, de linhagem real e jovem, uma figura graciosa e nobre.” É inegável que se tratava de uma pessoa importante, de fino trato, e tocava viola. Serviam-lhe boa comida, apesar de não permitirem que tivesse contacto com os outros prisioneiros. Era visitado pelo governador.

Da fantasia ao rigor

Alexandre Dumas serviu-se da descrição de Voltaire, usando-a como base para um personagem secundário em O Visconde de Bragelonne (publicado entre 1847 e 1850). Este livro é o último de uma série de romances que tem início em Os Três Mosqueteiros e que culmina focando-se no misterioso homem da máscara de ferro.

A versão patente no texto de Dumas advoga aquela que veio a ser a teoria mais popular: a que sugere que o prisioneiro era o irmão gémeo de Luís XIV, Filipe, que teria nascido primeiro e, por conseguinte, colocava a legitimidade do trono de Luís XIV em causa. Esta teoria ganhou adeptos no decorrer do século XX, quando Hollywood difundiu versões que nos apresentavam um irmão gémeo preso injusta e cruelmente.

Ao longo dos últimos anos, vários historiadores apontaram outros possíveis nomes por trás deste mistério, incluindo Nicolas Fouquet, o poderoso superintendente de finanças durante o reinado de Luís XIV.

Depois de ser acusado de traição e corrupção, foi preso no forte de Pignerol, o mesmo onde Saint-Mars foi incumbido de vigiar o prisioneiro mascarado. Foi lá que Fouquet morreu, em 1680, não existindo quaisquer provas de uma eventual transferência para a Bastilha.

Outros historiadores inclinam-se para um nome mais inesperado: Eustache Dauger, preso e detido no forte de Pignerol por um crime desconhecido em 1669. Acredita-se que Dauger era um pajem de Fouquet e que poderá ter tido acesso a informações delicadas enquanto se encontrava ao serviço deste. Durante o seu encarceramento, Dauger foi transferido para vários locais, sempre acompanhado por Saint-Mars.

Alguns historiadores acreditam que a máscara de ferro não passa de uma hipérbole. Para estes, a dita máscara seria de veludo escuro e provavelmente só era usada em certas ocasiões, tais como quando o prisioneiro era transferido de uma instituição para outra. É possível que os rumores que circulavam sobre este homem tenham sido largamente ampliados pelas circunstâncias e o ambiente tensos em que França estava envolta na altura, criando assim o mito do Homem da Máscara de Ferro como o conhecemos hoje.

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