Ave do Tempo dos Dinossauros Encontrada Preservada em Âmbar

Com cerca de 99 milhões de anos, este é o mais completo dos fosseis de aves conservadas em âmbar encontrados no Myanmar.

Sunday, February 25, 2018,
Por John Pickrell

Os restos mortais de uma pequena ave que viveu há cerca de 99 milhões de anos foram encontrados comprimidos num fragmento de âmbar embaciado no Myanmar (antiga Birmânia). Apesar de muitos dos fósseis conservados em âmbar birmanês exibirem características visualmente mais apelativas, até hoje nenhum conservou um esqueleto tão completo como o desta jovem ave, apresentando grande parte da coluna vertebral, ancas e ainda partes das asas e de uma pata.

Esta jovem ave recém-descoberta também é especial porque, neste caso, os investigadores conseguem observar melhor o interior desta criatura pré-histórica do que em achados anteriores, afirma o coautor do estudo Ryan McKellar, Royal Saskatchewan Museum, em Regina, no Canadá.

“Esta amostra de âmbar é turva, com uma grande quantidade de pequenas partículas de madeira. Parece que foi produzida junto, ou mesmo no próprio solo da floresta”, explica McKellar. Isto explica-nos o porquê da vista exterior da ave não ser extraordinária, mas, pelo contrário, o interior ser fascinante.

“Quando prepararam a amostra, no Myanmar, poliram a face frontal, o que nos proporciona uma excelente vista da zona do peito e do crânio desta ave”, afirma McKellar.

Esta descoberta é, ainda, acompanhada de uma extraordinária coleção de fósseis do Cretáceo, encontrados no Vale de Hukawng, no norte do Myanmar. Nos últimos anos, também têm sido encontrados belíssimos fósseis de asas, a cauda repleta de magníficas penas de um pequeno dinossauro carnívoro, e o contorno de uma cria de ave fossilizada. Em dezembro, os investigadores encontraram fósseis de carraças que se podem ter alimentado de dinossauros.

“Este depósito de fósseis do Myanmar é, claramente, de suma importância. Ainda que seja discutível, pode-se afirmar que se trata do avanço mais importante para uma melhor compreensão da evolução das aves dos últimos tempos”, afirma Júlia Clark, perita em aves, na sua evolução e no estudo do voo, da University of Texas at Austin.

“Costumávamos pensar que nunca teríamos um fóssil completo de uma ave do Cretáceo, mas agora temos vários!”

ÂMBAR ESPUMOSO E ESMAGADO

Lida Xing, o principal autor do estudo em torno desta amostra, publicado no Science Bulletin, contou-nos que quando viu este fóssil a ser vendido como uma peça de joelharia no Myanmar, em 2015, o seu coração começou a bater com muita, muita força.

A equipa teve a sorte de conseguir adquirir esta amostra para o Dexu Institute of Paleontology, em Chaozhou, na China. As aves conservadas em âmbar podem facilmente atingir preços na ordem dos 500,000 dólares, colocando-as além das possibilidades dos cientistas, explica-nos Xing, um paleontólogo chinês da University of Geosciences, em Pequim.

Xing estima que esta é apenas a segunda ave conservada em âmbar birmanês a ser estudada e descrita por cientistas, tendo o resultado desse trabalho sido publicado num artigo científico. No entanto, acredita que tenham sido descobertas no total seis aves e que metade delas tenham desaparecido nas mãos de colecionadores privados.

Com base na análise efetuada por esta equipa de cientistas, parcialmente apoiada pela National Geographic, crê-se que a jovem ave tenha caído em cima do depósito de resina, com ou sem vida, e que a humidade fez com que na resina se formasse uma substância espumosa que mais tarde concedeu o aspeto nebulado ao âmbar. Alguns dos ossos e dos tecidos moles decompuseram-se, tendo-se depositado vários sedimentos no espaço que estes ocupavam.

Uma ilustração mostra-nos esta jovem ave do Cretáceo presa na resina produzida por uma árvore, que mais tarde se transformaria em âmbar.
Fotografia de Ilustração de Cheung Chung Tat

“Uma camada de resina posterior fez com que os restos mortais da ave ficassem completamente envolvidos, evitando que se decompusessem ainda mais. No entanto, com o passar do tempo, o âmbar viria a ser esmagado, quebrando-se assim muitos dos ossos”, afirma Mckellar. “Toda esta informação está conservada numa amostra de âmbar do tamanho da fivela de um cinto.”

A ave tem cerca de 6 centímetros de comprimento e era, talvez, ligeiramente mais velha que a cria com 4,6cm que foi encontrada no ano passado. A estrutura dos seus ossos e das suas penas sugerem que se tratava de um elemento da família dos enantiornithines, uma ave primitiva que se viu extinta ao mesmo tempo que os dinossauros, há cerca de 66 milhões de anos.

“Apesar de se tratarem apenas de crias, já possuíam uma plumagem preparada para o voo,” diz-nos McKellar. “No entanto, não tinham raques muito desenvolvidas, pelo que não deveriam ser voadores exímios.”

Esta ave, quando viva, apresentava dentição no bico e a sua plumagem seria em tons de castanho, que iria de um tom escuro a um mais claro, como o das nozes, com uma plumagem mais felpuda na cabeça e no pescoço.

COMPANHEIROS DE NINHO

“É sempre emocionante quando é encontrado um fóssil de um vertebrado, principalmente se se tratar de âmbar do Cretáceo”, afirma George Poinar, um paleontobiólogo da Oregon State University in Corvallis, cuja investigação na área dos insetos fossilizados inspirou Jurassic Park.

Associar este exemplar aos enantiornithines faz sentido, complementa Poinar, uma vez que eram aves comuns naquela altura. Contudo, é uma pena que as duas características distintivas da família estejam em falta: os bicos dentados e as garras nas asas.”

Poinar especula que esta jovem ave talvez tenha sido atacada por um predador, tendo caído e aterrado num depósito de resina da mesma árvore onde ficava o ninho, e que alguns fragmentos de plantas e uma barata, que também foram encontrados conservados na mesma amostra de âmbar, fizessem parte do conteúdo do ninho. “

“As baratas são oportunistas; encontrá-las nos ninhos não seria uma surpresa”, explica-nos.

Com tempo, e alguma sorte, afirma McKellar, a equipa espera um conjunto de amostras de fósseis em âmbar birmanês que reflita toda a sequência de crescimento dos enantiornithines. A abundância de amostras não será um problema, visto que só em 2015 foram extraídas cerca de 10 toneladas de âmbar do Vale de Hukawng, no Myanmar.

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