História

As Buscas por Câmaras Secretas no Túmulo do Rei Tutankhamon

Duas investigações anteriores não chegaram a acordo quanto àquilo que se encontra por trás das paredes do túmulo. Agora, os cientistas envidam todos os esforços para desvendar o mistério. Quinta-feira, 15 Fevereiro

Por Kristin Romey, A. R. Williams

O Ministério das Antiguidades egípcio anunciou que está a decorrer a terceira ronda de análises por radar de penetração no solo, ou georradar (GPR, na sigla em inglês), no interior da câmara funerária do rei Tutankhamon, como parte de uma iniciativa para responder a uma pergunta que, desde sempre, tem vindo a intrigar e a desconcertar os investigadores: será que as paredes do célebre túmulo escondem outras câmaras — talvez um outro enterro real, oculto durante mais de 3300 anos?

Desde que o arqueólogo Howard Carter descobriu este túmulo repleto de tesouros no Vale dos Reis, em Luxor, em 1922, que os especialistas acreditam que as suas dimensões são estranhamente exíguas para um faraó. Foram avançadas várias teorias acerca do túmulo desde então, mas, em 2015, o egiptólogo Nicholas Reeves sugeriu uma hipótese surpreendente: as paredes norte e oeste poderiam esconder a múmia — e os bens valiosíssimos — da madrasta de Tutankhamon, a rainha Nefertiti, cuja beleza era lendária.

Tinham já sido efetuadas duas análises da câmara funerária, em 2015 e 2016, que tinham produzido resultados díspares e tinham sido consideradas inconclusivas. Um terceiro levantamento não invasivo por GPR foi encomendada pelo ministro das antiguidades egípcio, Khaled El Enany, seguindo a recomendação dos especialistas que se reuniram em 2016 para estudar os resultados das duas análises anteriores. Esta última investigação, dirigida pelo Instituto Politécnico de Turim, visa esclarecer os anteriores resultados, bem como verificar se existem ou não vazios por trás das paredes.

PISTAS INTRIGANTES

A ideia de Reeves surgiu na sequência de um varrimento tridimensional altamente detalhado do túmulo, levado a cabo em 2009 pela empresa Factum Arte, que foi encarregue de construir uma réplica exata do túmulo para os turistas visitarem. Quando Reeves examinou as imagens das paredes norte e oeste, julgou ter encontrado sinais de aberturas que teriam sido fechadas e rebocadas. Estas características poderiam ajudar a explicar dois outros aspetos intrigantes.

Em 1984, o egiptologista Gay Robbins publicou um artigo científico acerca das proporções das figuras pintadas nas paredes da câmara funerária. Na parede norte, estas encaixavam-se numa grelha de 20 quadrados. Porém, nas outras três paredes, seguiam uma grelha de 18 quadrados. Robbins pensou que tal se poderia dever à finalização apressada do túmulo, que poderia ter envolvido equipadas separadas de pintores, treinados segundo diferentes tradições. Mas e se as paredes tivessem sido pintadas em alturas diferentes — após a câmara funerária ter sido selada, e, alguns mais tarde, quando um outro sarcófago foi acrescentado?

Em 2012, uma equipa de especialistas do Instituto de Conservação Getty reparou numa outra coisa estranha. O fundo da parede norte tinha sido originalmente pintado de branco, mas, mais tarde, voltara a ser pintado de amarelo, para condizer com as outras três paredes. Será que o fundo branco pertencia ao primeiro enterro, e a nova pintura às cerimónias fúnebres de Tutankhamon?

Quando Mamdouh El Damaty, ministros das antiguidades na altura em que Reeves avançou a sua teoria, examinou a parede norte, notou uma outra irregularidade numa área específica — havia uma clara diferença entre dois tratamentos dados à parede. A parte superior dessa área tinha sido pintada sobre pedra nua, enquanto que a parte inferior tinha sido pintada sobre reboco.

O conjunto de evidências foi suficiente para convencer El Damaty a aprovar uma termografia infravermelha a parte da parede norte em novembro de 2015. Esta técnica de imagiologia deteta variações na temperatura das superfícies, que, à partida, será diferente para uma parede de calcário sólido e para uma que ocultasse uma câmara, no caso de tal câmara, efetivamente, existir. As imagens revelaram diferenças extraordinárias de temperatura na parede norte.

No final desse mês, o especialista em radares japonês Hirokatsu Watanabe recorreu ao GPR para perscrutar as paredes do túmulo. Os resultados foram sensacionais e fizeram manchetes por todo o mundo. Watanabe pensou ter visto câmaras por trás das paredes norte e oeste, bem como artefactos de metal e materiais orgânicos.

Todavia, a maioria dos egiptologistas e especialistas em GPR tinham muitas reservas quanto aos resultados desse levantamento, de forma que foi realizada uma segunda ronda de análises por GPR em março de 2016. Desta feita, o trabalho foi conduzido por engenheiros da National Geographic.

As expetativas eram altíssimas, mas os resultados foram intrigantes. O levantamento tinha sido preparado para encontrar paredes da mesma espessura daquelas que Watanabe tinha visto, mas tal não foi detetado — nem sequer quaisquer sinais de vazios por trás das paredes norte ou oeste da câmara funerária de Tutankhamon.

Os resultados desses dois levantamentos conduziram a investigação a um impasse. O projeto precisava de um desempate.

RESULTADOS: SIM OU NÃO?

O terceiro levantamento por GPR analisará até ao mais ínfimo detalhe todo o túmulo com a tecnologia de radar, estando programadas várias sessões de quatro horas de varrimento. Quando o trabalho estiver terminado, se tudo correr conforme esperado, os resultados deverão fornecer uma resposta definitiva acerca da existência ou não de câmaras secretas. Contudo, os cientistas advertem que o levantamento por GPR apenas deteta “anomalias” na rocha, e que serão necessários mais estudos para detetar de algumas dessas anomalias serão, de facto, câmaras secretas.

O atual projeto, uma iniciativa científica conjunta entre o Egito e Itália, está a ser coordenado pelo físico italiano Francesco Porcelli, do Instituto Politécnico de Turim, em parceria com a Universidade de Turim e três empresas privadas, a Geostudi Astier, a 3DGeoimaging e a Terravision.

“É um privilégio ter-me sido concedida esta oportunidade, tal como é um privilégio coordenar esta equipa fantástica”, disse Porcelli à National Geographic, durante uma pausa entre sessões de varrimento na noite de quinta-feira.

A equipa do GPR trabalha durante a noite, após o Vale dos Reis e o túmulo de Tutankhamon serem encerrados aos visitantes. Sob a supervisão das autoridades egípcias, os investigadores movimentam cuidadosamente o seu equipamento de alta tecnologia por entre os espaços exíguos da câmara funerária, fazendo especial atenção para que as antenas do radar se aproximem o máximo possível da superfície das paredes sem, no entanto, danificar as pinturas de valor inestimável que adornam este túmulo com 3300 anos.

Após todos os dados do GPR terem sido recolhidos, serão necessárias várias semanas para os processar e analisar. Se os resultados confirmarem a existência de vazios por trás das paredes, isto marcará o início de uma busca científica ainda mais empolgante, para determinar quem — ou o quê — repousa por trás do túmulo de Tutankhamon.

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