História

Foi Descoberto O Fóssil Humano Mais Antigo, Fora De África

Foi encontrado em Israel um maxilar humano superior, o que revela que a nossa espécie iniciou as incursões para fora do continente africano 50 mil anos mais cedo do que pensávamos. Quinta-feira, 1 Fevereiro

Por John Pickrell

O pedaço de maxilar superior com dentes encontrado em Israel mostra que os Homo sapiens se aventuraram para fora de África muito mais cedo do que até aqui pensávamos. A descoberta vem confirmar que a nossa espécie co-habitava com os seus parentes humanos, como os Neandertais, nas encruzilhadas do Levante há mais tempo do que pensávamos.

Até há pouco tempo, o registo fóssil sugeria que a nossa espécie, o Homo sapiens, apareceu primeiro na África oriental há cerca de 200 mil anos. Com base nos fósseis agora encontrados percebemos que reduzidos números de humanos anatomicamente modernos fizeram incursões fora do continente africano há 120 mil anos, apesar das grandes ondas migratórias terem acontecido há apenas 50 mil ou 60 mil anos.

No passado mês de junho, a pesquisa feita em fósseis num sítio chamado Jebel Irhoud, em Marrocos, viraram do avesso a sabedoria convencional adiantando as origens da nossa espécie.

A recente descoberta no Médio Oriente, contada hoje em detalhe na Science, complementa a descoberta feita em Marrocos ao mostrar que o Homo sapiens também deu os seus primeiros passos na Eurasia muito antes — há cerca de 180 mil anos.

“Esta é uma descoberta entusiasmante que adianta um pouco a altura em que os humanos anatomicamente modernos saíram de África”, afirma Darren Curnoe, um especialista nas origens da humanidade da Universidade da Nova Gales do Sul, em Sidney, na Austrália.

“Junto com a descoberta do ano passado relativa aos humanos anatomicamente modernos em África, a perspetiva sobre as nossas origens começam a mudar muito rapidamente depois de décadas de estagnação científica.”

DATAÇÃO EXAUSTIVA

O fóssil do maxilar superior foi descoberto em 2002 durante uma escavação arqueológica que ainda decorre num local chamado Misliya, que se encontra no Monte Carmelo, no norte de Israel. O local era um abrigo de rocha frequentado por várias espécies humanas pré-históricas, durante muitas centenas de milhares de anos.

“Os humanos gostavam de viver em abrigos de rochas abertos para conseguirem ver se se aproximava algum perigo ou alguma presa mas também para se conseguirem manter secos. Foi num destes terraços de onde conseguiam ver a totalidade da paisagem que estava a sua frente”, explica o co-autor do estudo Rainer Grün, diretor do Australian Research Centre for Human Evolution da Universidade de Griffith, em Queensland.

Os investigadores levaram a cabo uma análise detalhada para confirmar que a forma dos dentes e do maxilar era compatível com as dos humanos anatomicamente modernos e não dos Neandertais, declara Grün.

Apesar de o fóssil ter sido encontrado no início da escavação, não foi datado até 2014/2015. Os resultados iniciais foram tão surpreendentes que a equipa decidiu corroborá-los, e com recurso a quatro métodos independentes de datação da dentina, do esmalte dos dentes, do sedimento que estava no maxilar e da pedra encontrada ao lado do fóssil.

Os resultados combinados de todos os métodos deram origem a uma idade estimada entre os 177 mil e os 194 mil anos, segundo a equipa liderada pelo paleontólogo Israel Hershkovitz, da Universidade de Tel Aviv.

Este espectro temporal “encaixa-se muito bem no modelo que agora emerge de uma história muito antiga da nossa espécie, que é muito mais velha do que tínhamos imaginado”, afirma Jean-Jacques Hublin do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolucionária em Leipzig, na Alemanha, que conduziu a equipa que fez a descoberta em Jebel Irhoud, em 2017.

“A história na migração na nossa espécie para ‘fora de África’ é mais complicada do que tínhamos pensado inicialmente.”

COM FERRAMENTAS, TAMBÉM

Ainda não sabemos ao certo se esta foi a primeira incursão do Homo sapiens na Eurásia, até onde chegámos na direção do leste, e porque razão nenhuma das primeiras incursões feitas há mais de 50 mil anos se transformou numa maior onda migratória, acrescenta Hublin.

Durante centenas de milhares de anos, houve uma espécie de “pulsação desta população africana até às portas da Ásia ocidental”, argumenta. Estes impulsos podem estar relacionados com os episódios do Sahara verde — períodos intermitentes de clima mais húmido, quando a faixa desértica das latitudes dos cavalos tinha vegetação e as pessoas podiam mover-se mais livremente.

Outro aspeto interessante da descoberta são as ferramentas encontradas próximo do fóssil, desvenda Julia Galway-Witham, uma paleontóloga do Museu de História Natural, em Londres. As ferramentas tinham uma técnica relativamente sofisticada de talhar a pedra chamada técnica de Levallois, que requer perícia e planeamento e permite um maior controlo sobre os raspadores ou as lâminas resultantes.

“Representam a primeira associação deste tipo de ferramentas com humanos anatomicamente modernos fora de África”, conclui. “Talvez a ocorrência simultânea deste tipo de ferramentas com os primeiros Homo sapiens em Jebel Irhoud, em Marrocos — e agora com os Homo sapiens de Misliya — indique a possibilidade de uma associação entre o desenvolvimento desta tecnologia em África e no Oeste da Ásia com a emergência do Homo sapiens nestas regiões.”

Com tanta atividade arqueológica a acontecer na região do Levante podem ser descobertos brevemente novos fósseis que respondam ás questões que continuam por responder acerca da migração humana para a Ásia, afirma Grün.

E o mais recente trabalho feito no campo da genética sugere que pode até ter sido mais cedo a primeira incursão para fora de África — e para o encontro com outras espécies humanas, acrescenta Hublin. Uma análise de ADN feita a um osso Neandertal alemão, com 124 mil anos, sugere que os Neandertais podem ter-se reproduzido cruzando-se com a nossa espécie há mais de 220 mil anos.

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