História

Será que os Decifradores Conseguiram Resolver este Misterioso Manuscrito Medieval?

O Manuscrito de Voynich, com 600 anos de idade, é um dos maiores mistérios da criptologia. Os cientistas estão a utilizar a inteligência artificial (IA) para tentar lê-lo. Quinta-feira, 15 Fevereiro

Por Elaina Zachos

Dois decifradores canadianos poderão ter descodificado um livro de 600 anos que há séculos que confunde os criptologistas. Mas, muito provavelmente, não o conseguiram.

Num estudo publicado na publicação Transactions of the Association of Computational Linguistics, cientistas informáticos da Universidade de Alberta utilizaram um algoritmo para tentarem descodificar partes do Manuscrito de Voynich, um livro medieval escrito num código indecifrável numa língua desconhecida.

Mas outros académicos estão céticos e o manuscrito permanece um documento muito rodeado em mistério.

O que é o Manuscrito de Voynich?

O Manuscrito de Voynich é, provavelmente, aquilo que os criptologistas denominam de uma cifra, isto é, um padrão codificado de letras. Escrito na Europa Central no séc. XV, o livro é ligeiramente maior do que um livro de bolso moderno e inclui 246 frágeis páginas encadernadas em velino, ou seja, pele de vitela preparada para a escrita. Não incluí um índice mas tinha, provavelmente, desdobráveis que há muito desapareceram. Existem falhas nos números de página e provas que poderá ter sido recuperado a certa altura, por isso a ordem das páginas atualmente pode ser diferente da ordem existente na altura em que foi publicado.

Uma escrita elegante, com espirais, de 25 a 30 caracteres é exibida da esquerda para a direita, em parágrafos curtos pelas páginas, intervalada com ilustrações pormenorizadas. As ilustrações exibem rabiscos de castelos e dragões juntamente com diagramas de plantas, planetas, figuras nuas e símbolos astronómicos, tudo pintado em tinta verde, castanha, amarela, azul e vermelha. Uma passagem em particular exibe dezenas de mulheres nuas a banharem-se em piscinas de líquido verde interligado.

O manuscrito tem estado guardado na Beinecke Rare Book & Manuscript Library, na Universidade de Yale, desde 1969. Foi batizado após Wilfrid Michael Voynich, um livreiro polaco que o adquiriu numa biblioteca jesuíta em Itália em 1912. Tentou interessas pessoas para que o livro fosse traduzido mas, infelizmente, ninguém o conseguiu fazer.

Temos alguma ideia sobre o que poderá ser o assunto do manuscrito?

Com base nas ilustrações, os académicos acreditam que o livro se divide em seis secções: herbal, astronómica, biológica, cosmológica, farmacêutica e receitas. É possível que o manuscrito seja de caráter mágico ou científico.

Arquivos históricos demonstram que o texto caiu igualmente nas mãos de alquimistas e imperadores. I Em finais do séc. XVI, um imperador alemão adquiriu o manuscrito a um astrólogo inglês por 600 ducados venezianos, pensando que se tratava de uma obra do frade medieval, Roger Bacon. A partir de então, o manuscrito foi eventualmente parar às mãos de um farmacêutico boémio.

O que inclui este novo estudo?

Os autores do estudo afirmam que o Manuscrito de Voynich é "(...) o tipo mais desafiante de um problema de decifração", uma vez que não sabemos o seu código secreto e, talvez o mais importante, não conhecemos sequer a língua na qual se encontra escrito.

Abordaram o texto com um programa informático de sua autoria. Originalmente, os cientistas suspeitaram que o manuscrito fosse composto por um alfagramas em vogais ou um anagrama, no qual as letras de uma palavra são reescritas alfabeticamente. (Por exemplo, "manuscrito" seria alfagramizado para "acimnprstu".) Então, criaram um algoritmo para decifrar 380 versões em línguas diferentes da "Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas."

Quando a IA apresentou uma taxa de sucesso de 97% na correspondência de anagramas com palavras modernas, os investigadores alimentaram o texto das primeiras dez páginas do Manuscrito de Voynich. O algoritmo descobriu que 80% das palavras codificadas aparentavam estar escritas em hebraico.

Agora, supostamente, os investigadores tinham uma língua. Em seguida, precisavam de descobrir em que código estava escrita. Então, entregaram a frase inicial a um colega que era nativo de hebraico. Quando este não conseguiu traduzir o texto num inglês coerente, recorreram ao Google Tradutor porque não havia nenhum académico disponível. Quando os investigadores corrigiram alguns erros de ortografia, a primeira frase dizia: "Ela fez recomendações ao padre, homem da casa, a mim e às pessoas." É uma frase estranha mas faz algum sentido.

Os cientistas também traduziram uma secção de 32 palavras - conhecida como o capítulo "herbal"- e conseguiram decifrar as palavras "agricultor", "luz", "ar" e "fogo" com o seu novo código.

Esperem... O Google Tradutor?

Sim, o Google Tradutor. O tradutor automático funciona através da análise de centenas de milhões de documentos que foram traduzidos por humanos. Depois, recorrendo à estatística, a ferramenta apresenta uma tradução com base nesses documentos. Apesar de a ferramenta funcionar para traduzir palavras em grupos, em vez de uma tradução palavra a palavra, ainda não é tão eficaz como os tradutores humanos.

Agora, voltemos ao manuscrito.

Quais são outros problemas com este estudo?

Para começar, o programa de IA oi criado para traduzir diferentes idiomas contemporâneos para inglês, em vez de idiomas do século XV. Apesar de o Manuscrito de Voynich poder ter sido escrito em hebraico, teria sido em hebraico medieval e não o equivalente moderno que o Google Tradutor utiliza.

Apesar de o algoritmo criado pelo homem ter obtido 80% de correspondência do texto em hebraico, ficamos ainda com 20% que corresponde a idiomas diferentes. Segundo o estudo, outros idiomas que poderão ter sido utilizados no manuscrito são o malaio, árabe e aramaico, que são totalmente diferentes do hebraico.

Para que haja justiça, os investigadores não estão a afirmar que desvendaram os segredos de todo o Manuscrito de Voynich. Em vez disso, estão a dizer que determinaram a língua e o esquema de codificação do texto. O passo seguinte consiste em encontrar um académico especialista em hebraico e alfagramas, pelo que estão entusiasmados em aplicar esta técnica inovadora de decifração de códigos a outros manuscritos antigos.

Mas as pessoas já se enganaram no passado e outras teorias já foram rapidamente desmascaradas por académicos. Até mesmo Alan Turing , conhecido por ter decifrado o código Enigma nazi, não conseguiu desvendar o Manuscrito de Voynich.

Ainda não temos a certeza de que o texto está escrito em língua codificada ou construída. E, mesmo assim, pode não ter nenhum significado importante.

Quais são as outras teorias existentes sobre o manuscrito?

Além da equipa canadiana, outros investigadores sugeriram que o manuscrito estivesse escrito em hebraico. Dezenas de outros idiomas também foram ponderados, incluindo o latim e outro idioma derivado da família sino-tibetana.

Alguns sugerem que o livro inclui as primeiras descobertas e invenções de Roger Bacon. Mas também poderá ser um livro de orações em pidgin de uma seita herege cristã ou uma compilação sem significado de algaraviada vendida por um filósofo obscuro para ganhos monetários.

O Manuscrito de Voynich permanece um dos maiores problemas por resolver na história da criptologia. Muitas traduções são apresentadas todos os anos mas ainda não foi determinado um código definitivo.

 

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