Mistério de Cabeças Humanas Empaladas Com 8000 Anos Deixa Investigadores Perplexos

Os arqueólogos nunca antes tinham encontrado este nefasto fenómeno na Escandinávia Mesolítica e têm muitas dificuldades em explicá-lo.

Tuesday, March 6, 2018,
Por Elaina Zachos
Crânio mesolítico empalado encontrado no fundo de
um pequeno lago em Kanaljorden, na Suécia.
7,000 anos de idade ...
Crânio mesolítico empalado encontrado no fundo de um pequeno lago em Kanaljorden, na Suécia. 7,000 anos de idade - Ticia Verveer no Twitter

Em 2009, estava prevista a construção de uma nova ponte ferroviária sobre o rio Motala Ström, na Suécia. Eis senão quando, os arqueólogos começaram a encontrar no local artefactos que tinham milhares de anos. Ao longo dos anos seguintes, foram encontrados no sedimento calcário do pântano ossos de animais, ferramentas feitas de chifres, estacas de madeira e pedaços de caveiras humanas.

Estes restos pertenciam a caçadores-recoletores do Mesolítico, um grupo que existiu há cerca de 8000 anos entre o Idade da Pedra Lascada e a Idade da Pedra Polida. Estas sociedades eram conhecidas pelo respeito que mostravam pela integridade corporal dos seus mortos — pelo menos até agora.

Em 2011, Fredrik Hallgren da Fundação para o Património Cultural liderou um projeto arqueológico no local de escavação de Kanaljorden perto do rio Motala Ström. Quando a equipa começou a escavar o local, descobriu o primeiro exemplo conhecido de caçadores-recoletores do Mesolítico a dispor caveiras humanas em estacas.

"Tínhamos a esperança de encontrar ossos de animais, mas não um acervo tão rico", diz Hallgreen. "É algo notável."

As descobertas foram publicadas esta semana num estudo na revista Antiquity,  com o espirituoso título "Mantenha a cabeça levantada."

Cabeça Levantada

No local de escavação de Kanaljorden, as caveiras com 8000 anos de nove adultos e uma criança foram encontradas deliberadamente colocadas numa camada densamente coberta de pedras de grandes dimensões. As caveiras não tinham os maxilares e duas tinham estacas de madeira bem conservadas deslocadas no interior. As estacas tinham sido inseridas através das grandes aberturas na parte de baixo das caveiras, o que indica que tinham sido colocadas antes de serem depositadas no lago. Num caso, uma estaca ainda estava a sair do crânio.

Os ossos de animais também estavam dispostos em redor das caveiras, distribuídos de acordo com o tipo de criatura a que pertenciam.

"De alguma forma parecem distinguir humanos de animais, mas também animais de diferentes categorias", afirma Hallgreen.

Duas das caveiras humanas eram femininas, quatro masculinas e duas pertenciam a pessoas com idades compreendidas entre os 20 e os 35 anos. Os investigadores encontraram ainda um esqueleto de criança quase completo, cujos pequenos ossos indicam tratar-se de um nado-morto ou de uma criança que morreu pouco depois de ter nascido.

Os crânios das vítimas apresentam lesões óbvias. Existem lesões causadas por força bruta na parte de cima das cabeças e aparentemente têm também outras lesões que mostram sinais de cicatrização. As caveiras femininas apresentam lesões na parte de trás e no lado direito das cabeças e cada uma das caveiras masculinas apresentava um único golpe na cabeça e na cara.

"Não se trata de pessoas que tinham sido atingidas havia pouco tempo e depois colocadas em exposição. "Mais de metade tinha uma lesão cicatrizada na cabeça."

Os investigadores ainda não sabem que armas foram usadas para infligir os ferimentos e não foi possível estabelecer que os golpes foram a causa de morte. Estão ainda a ser realizadas análises de ADN, mas já foi descoberto um grau de parentesco entre dois dos homens.

"Provavelmente não são irmãos, mas poderiam ser primos ou parentes mais distantes", aponta Hallgreen.

Sabemos que a equipa descobriu 400 pedaços de estacas de madeira, algumas das quais tinham sido usadas para dispor objetos que há muito que se desprenderam e caíram. Não sabemos, porém, as razões para este fenómeno.

Em Exposição

A equipa avança com um par de ideias para explicar por que razão as caveiras estavam dispostas nas caveiras. Aparentemente foram colocadas deliberadamente em exposição e é provável que, previamente, tenham sido enterradas num outro local.  Este local funerário é pequeno e, uma vez que se trata do primeiro caso do género numa sociedade de caçadores-recoletores do Mesolítico, não pode ser comparado com outros.

"Não existem casos suficientemente semelhantes", indica Hallgreen. "Também estamos a trabalhar no sentido de saber como é que este local se enquadra no contexto arqueológico da zona e da região."

Outras escavações já demonstraram que os caçadores-recoletores do Mesolítico costumavam respeitar os seus mortos e só mais tarde é que houve grupos conhecidos por começarem a decapitar os inimigos. 

"Não temos nenhuma evidência direta de decapitação", escreve a coautora Sara Gummesson da Universidade de Estocolmo num e-mail enviado à National Geographic. "É mais provável que os crânios tenham sido retirados dos corpos durante a decomposição."

As lesões causadas por força bruta nas caveiras podem ter sido infligidas em atos violentos entre pessoas, em raptos ou em qualquer outra situação. Também é possível — embora pouco provável — que as lesões tenham sido causadas por acidente.

Uma vez que as caveiras masculinas e femininas mostram sinais diferentes de lesões, a violência poderia estar deliberadamente relacionada com o género. Também poderão ter sido infligidas num caso de abuso marital, durante ataques ou lutas ou no âmbito de algum tipo de prática cultural. A exposição das cabeças poderá também ser um ato fúnebre, destinado a prestar tributo a membros da comunidade local. Hallgreen diz que as caveiras também poderão ser troféus, embora considere que se trata de uma possibilidade remota.

Está a ser desenvolvida mais investigação para deslindar alguns dos mistérios relacionados com este local funerário. Os investigadores estão também a fazer escavações em locais pantanosos próximos para verificarem se existem semelhanças.

"Há muitos aspetos que poderiam ser discutidos a respeito destas descobertas," escreve Gummesson, "e eu acredito realmente que devemos manter-nos abertos a quaisquer novas descobertas que venham a surgir à medida que o trabalho prossegue."

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