História

Novo Estudo Revela Ligação Entre Gravuras Rupestres e Linguagem Humana Primitiva

Os sons que ecoavam nas cavernas poderão também ter influenciado aquilo que os primeiros seres humanos desenharam nas paredes de rocha. Quinta-feira, 8 Março

Por Sarah Gibbens

Há milhares de anos, um dos primeiros seres humanos aventurou-se a descer às profundidades de uma gruta, onde o som reverberava nas paredes. Talvez devido à fala ou aos passos, o som gerado assemelhava-se ao produzido pelos cascos de animais. Para representar este som, foi desenhado um animal ungulado.

Segundo a teoria proposta num novo estudo, as aptidões usadas terão sido as mesmas que levaram ao desenvolvimento inicial da linguagem.

Publicado na revista científica Frontiers in Psychology, o artigo sugere que a arte rupestre era efetuada em “hot spots” acústicos, uma vez que os primeiros humanos estavam a converter sons em desenhos.

“A nossa investigação indica que os mecanismos cognitivos necessários para o desenvolvimento da arte rupestre são, provavelmente, análogos aos empregues na expressão do pensamento simbólico, que é a base da linguagem”, afirma Cora Lesure, linguista do MIT e uma das autoras do estudo.

Basicamente, prossegue Lesure, as funções cognitivas necessárias para transformar os fenómenos acústicos em imagens são as mesmas que as necessárias à linguagem.

“Neste sentido, as [pinturas] rupestres representariam uma forma de expressão linguística”, conclui Lesure.

Se estas gravuras determinaram ou não o desenvolvimento futuro da linguagem é, por enquanto, mera conjetura.

Representar o Pensamento

O Homo sapiens moderno surgiu há cerca de 200 000 anos, e os autores do estudo salientam que a linguagem se terá desenvolvido há cerca de 100 000 anos. As formas mais antigas de arte rupestre descobertas datam de há, sensivelmente, 40 000 anos.

“Poderíamos especular que a linguagem humana se terá manifestado como um sistema simbólico abstrato, podendo a sua expressão — na forma de arte rupestre, ou qualquer outra modalidade — ter ocorrido já muito tardiamente”, diz Vitor Nóbrega, linguista da Universidade de São Paulo e autor do estudo.

Em especial, o estudo examinou a gruta de Blombos, na África do Sul, onde figuram gravuras geométricas.

Segundo os investigadores, estas gravuras serão representações externas do pensamento interiorizado.

Esta teoria é contrária à crença partilhada por arqueólogos e antropólogos, que a linguagem não fossiliza, refere Lesure.

Encontrar evidências de quando e como os seres humanos começaram a falar não é fácil. Os antropólogos podem estudar crânios antigos, para verificar quando certos lobos cerebrais responsáveis pela linguagem se terão começado a desenvolver, mas é difícil determinar com exatidão quando é que os humanos começaram a falar, uma vez que a expressão oral será, provavelmente, muito anterior à expressão escrita.

Os arqueólogos teorizaram que as primeiras evidências da linguagem se encontram em objetos como contas ou ossos modificados, que poderão ter sido usados com inúmeras finalidades, desde a contagem dos dias até à marcação de presenças.

Outras Explicações?

“E muito provável que a arqueoacústica explique o posicionamento de algumas pinturas rupestres em grutas em certas ocasiões”, diz April Nowell, arqueóloga da Universidade de Victoria, que estuda as origens da arte.

Mas afirmar que a acústica das grutas terá inspirado representações visuais é um pouco exagerado, continua.

A arqueóloga salienta que as pinturas rupestres foram feitas no “hot spot” acústico da gruta, onde, possivelmente, decorriam as cerimónias e se contariam histórias, o que parece indicar que as gravuras seriam não tanto uma forma de comunicação, mas sim de decoração. Nowell assinala que algumas das imagens mais frequentes encontradas nas grutas referidas no estudo, tais como cavalos e outros ungulados, são imagens encontradas também em objetos no exterior das grutas.

“É importante considerar o fator acústico”, Nowell acrescenta, “mas não creio que seja a única explicação para as gravuras terem sido feitas naqueles locais.”

Lesure acrescenta que o estudo da sua equipa não afirma de forma categórica que a arte rupestre analisada se equipara à linguagem, apenas que as mesmas funções cognitivas poderão ter estado presentes.

“Não há dúvida que as imagens tinham valor simbólico”, diz Genevieve von Petzinger, antropóloga e exploradora National Geographic.

A antropóloga partilha da opinião de Nowell, que não é absolutamente claro que as imagens tenham sido usadas como forma de comunicação, mas ressalva: “Seguramente, não está fora de questão que os sons [na gruta] possam ter enriquecido aquilo que estava a ser desenhado.”

Os arqueólogos continuam em busca das primeiras evidências tangíveis das capacidades linguísticas, e von Petzinger acrescenta, “Continuamos à procura do Santo Graal.”

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