História

Encontrada Numa Praia a Mais Antiga Mensagem Dentro de Uma Garrafa

O achado, com quase 132 anos, fez parte de uma experiência alargada no tempo, desenvolvida por tripulações alemãs para identificar correntes oceânicas. Monday, April 9, 2018

Por Elaina Zachos
Recuperada numa praia australiana em janeiro de 2018, esta é, atualmente, a mais antiga mensagem dentro de uma garrafa encontrada até à data.

No dia 21 de janeiro, a família Illman e uns amigos passeavam por uma praia a norte de Wedge Island, ao largo da costa oeste da Austrália, a cerca de 160 quilómetros a norte de Perth. Quando o carro ficou preso na areia, Tonya Illman e a amiga Grace Ricciardo decidiram ir dar uma volta.

De regresso ao carro, pararam para recolher algum lixo. Illman apanhou uma garrafa acastanhada com letras em relevo, pensando que seria um elemento simpático para integrar a sua estante.

Por exemplo, nesta ilha remota foram encontrados mais 38 milhões de bocados de lixo.

Já no carro, Illman entregou a velha garrafa à namorada do filho, Bree Del Borrello, para ajudar o marido a libertar o carro da areia macia. Ao espreitar para o interior da garrafa desarrolhada, Del Borrello identificou aquilo que lhe parecia ser um cigarro.

Eles retiraram o frágil objeto do interior da garrafa e aperceberam-se de que estava bem enrolado e atado com um pedaço de fio. Só quando chegaram a casa, em Lanceline, é que puderam secar o papel ainda húmido, colocando-o no forno, e assim desvendar o seu conteúdo. Viriam a saber mais tarde que aquele pedaço de papel, de 20 por 15 centímetros, era a mais antiga mensagem encontrada dentro de uma garrafa de que há registo.

"Foi um mero acaso”, diz o marido de Illman, Kym, em declarações ao The Guardian. “Melhor do que isto é impossível.”

Um Pedido de Socorro... Ou Talvez Não

Inicialmente, os Illman reagiram com ceticismo. Mas, dois dias após a descoberta, dirigiram-se ao Museu da Austrália Ocidental, onde se reuniram com Ross Anderson, um curador assistente no âmbito da arqueologia marítima.

Anderson cruzou os elementos do texto escrito a tinta preta, naquele pedaço de papel barato e envelhecido, com as amostras da caligrafia do capitão nos registos do diário de bordo do veleiro alemão Paula e determinou que a mensagem datava de 12 de junho de 1886. Tal significa que passaram 131 anos e 223 dias até que a mensagem fosse encontrada. Anderson acrescenta que a garrafa foi lançada ao mar a partir desta embarcação quando esta cruzava o oceano Índico numa viagem de Cardiff, no País de Gales, rumo à atual Indonésia. Estas conclusões foram corroboradas por peritos do Observatório Naval Alemão.

Naquela altura, as tripulações alemãs levaram a cabo uma experiência que se estendeu ao longo de 69 anos, ao abrigo da qual foram lançadas ao mar milhares de garrafas, com o objetivo de investigar as principais correntes oceânicas. Cada mensagem continha as coordenadas do local onde se situava a embarcação no momento em que a garrafa era atirada ao mar, a par da data e do nome da embarcação. Todos estes detalhes constavam da mensagem que estava dentro da garrafa encontrada por Illman.

A avaliar pelas coordenadas inscritas no papel, a garrafa terá sido atirada ao mar a sensivelmente 966 quilómetros de distância, algures a oeste da América do Sul. Muito provavelmente, a garrafa terá dado à costa ao fim de um ano e terá ficado soterrada na areia.  Anderson supõe que a rolha tenha ficado ressequida e que a garrafa se tenha deslocado por ação de tempestades e fortes chuvadas. Estudos revelam que o porto de origem da embarcação Paula se situava em Marselha, na França.

Até aos dias de hoje, foram encontradas e devolvidas 662 mensagens decorrentes da experiência alemã. A mais recente descoberta, um postal com 108 anos, foi feita na Alemanha em abril de 2015.

A família Illman cedeu o achado ao Museu da Austrália Ocidental até 2020, onde pode ser observado, atualmente, numa exposição aberta ao público.

"Este foi o acontecimento mais notável da minha vida.”, escreve Illman num website dedicado ao achado. “Pensar que esta garrafa se manteve intocada durante quase 132 anos e em perfeitas condições, apesar dos elementos, é difícil de acreditar. Ainda estou a tremer.”

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