História

Mistério da Morte do Rei Tut Resolvido? Talvez Não

A carruagem e, mais tarde, a múmia de Rei Tut arderam, diz o programa de televisão a estrear em breve. Segunda-feira, 2 Abril

Por A. R. Williams

O Rei Tutancámon era ainda adolescente quando morreu. Foi um desaparecimento precoce, para um antigo faraó egípcio, presumivelmente bem alimentado e protegido com brio.

Além disso, foi um momento de grande importância, uma vez que a morte do faraó significou o início do fim da  18.ª dinastia do Egito.

O que poderá ter acontecido?

Os especialistas têm vindo a especular acerca das possíveis causas desta morte desde que o arqueólogo Howard Carter descobriu o túmulo de Tut no Vale dos Reis em 1922.

Agora, uma equipa britânica parece acreditar que resolveu o mistério, e os pormenores serão revelados no próximo domingo num programa de televisão intitulado  "Tutancámon: O Mistério da Múmia Queimada."

Mas será que esta equipa de investigação resolveu mesmo o mistério?

De acordo com notícias divulgadas na imprensa do Reino Unido, a equipa trabalhou com raios X do Tut tirados em 1968.

Uma notícia inclui uma imagem que se assemelha a um TAC, que será talvez um raio X analisado à luz da tecnologia de imagem computorizada. A imagem revela um osso do peito em falta e restos das costelas alinhados ao longo da espinha dorsal — provavelmente esmagados e removidos pelos embalsamadores.

Em 2005 foi realizado um TAC verdadeiro sob a direção de Zahi Hawass, à época presidente do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito. As imagens resultantes deste exame nunca foram divulgadas publicamente, mas revelavam danos muito significativos na caixa torácica e uma perna partida.

Lesões Catastróficas

É evidente que o Rei Tut sofreu algum tipo de traumatismo severo.

A recente investigação britânica usou simulações de choques de automóveis para mostrar que uma carruagem em excesso de velocidade pode ter embatido em Tut num momento em que este se encontrava de joelhos.

É um cenário provável, mas há outras possibilidades.

Uma das causas de morte propostas no momento em que o TAC foi realizado foi a de um acidente com a carruagem.

O rei poderia estar a conduzir uma carruagem durante uma caçada ou uma batalha — atividades a que os antigos soberanos do Egito se dedicavam frequentemente e que faziam parte dos seus deveres régios.

Os danos no peito do Rei Tut também podem ser explicados por um repentino coice de um cavalo — cenário completamente plausível, porque a carruagem do faraó era puxada por cavalos.

Ou terá sido um  hipopótamos a matar Tut? Talvez o faraó estivesse no lugar errado na hora errada — a caçar a pé num pântano quando foi atacado por um hipopótamo.

Hoje, os hipopótamos estão extintos no Egito, mas mais no sul da África os ataques destas agressivas criaturas com 1360 kg, mandíbulas poderosas e incisivos aguçados são lendários. As vítimas podem sofrer enormes dilacerações, feridas de perfuração profundas e ficar com os ossos esmagados, lesões que, se forem, de alguma maneira, combinadas podem ser fatais.

Outros especialistas já avançaram com a ideia de que ladrões da era moderna — provavelmente a operar durante a Segunda Guerra Mundial, altura em que o túmulo de Tut não estava protegido — terão serrado as costelas do faraó para tirar as últimas contas presas na substância viscosa que revestia o peito do soberano.

Materiais Inflamáveis

A substância viscosa é um dos elementos da mais surpreendente revelação do programa de televisão que será exibido em breve: a grande quantidade de resinas e óleos que foi vertida sobre a múmia de Tut para o preparar para a eternidade terá, de alguma maneira começou, começado a arder depois de a múmia ter sido selada em vários caixões encaixados uns nos outros.

A conclusão baseia-se em testes realizados num excerto do corpo de Tut que, pelo que se sabe, foi obtido aquando do exame da múmia em 1968.

A múmia de Tut está, de facto, muito preta. Mas terá sido um fogo a esturricar o faraó?

Alguns egiptólogos acreditam que a carbonização — uma reação química resultante do contacto da múmia com as resinas, estimulada por um calor asfixiante do túmulo — deu a Tut a  cor de Osíris

Mas pegar fogo? Difícil de imaginar.

Para começar, a múmia de Tut sobreviveu.

Será que isso significa que o fogo foi suficientemente grave para o chamuscar e carbonizar, mas não suficientemente quente para o reduzir a cinzas? De acordo com as notícias acerca do programa de televisão, os investigadores acreditam que o fogo atingiu temperaturas de cerca de 200 °C.  A cremação moderna é muito mais quente, com temperaturas entre os 760 e os 982 °C.

Mas mesmo que a simples carbonização fosse possível, a sepultura apresenta evidências que contrariam a ideia de fogo.

O Rei Tut tinha uma capelina de linho com contas na cabeça rapada. Se o corpo do faraó tivesse ardido, não apresentaria esta capelina os mesmos efeitos?

A múmia do Rei Tut foi coberta de joias — pulseiras, colares, pingentes, anéis e amuletos em abundância, feitos de ouro e prata e engastados com pedras preciosas, como a cornalina, o lápis-lazúli, o quartzo e a turquesa. Muitas destas peças encontram-se em exibição no Museu Egípcio, no Cairo, e nenhuma parece ter sofrido qualquer dano provocado por fogo.

Além disso, o Rei Tut tinha três caixões. O do centro era de ouro maciço. Mas os dois exteriores eram de madeira dourada. Se tivesse havido um fogo no interior do caixão de ouro, não teria pelo menos deixado marcas de queimaduras nos caixões de madeira?

Grinaldas Delicadas

E ainda havia as grinaldas. Quando Howard Carter retirou a tampa do caixão exterior, encontrou uma  mortalha de linho coberta com restos de plantas — fios de oliveiras, salgueiros e valisnérias, tiras de papiro entrelaçadas com pétalas de lótus e centáureas, e uma coroa de centáureas dispostas sobre a cabeça. Estavam frágeis e secas, como seria de esperar de plantas recolhidas há 3300 anos e deixadas num túmulo deserto, e não encolhidas por ação do calor de um fogo.

E havia mais. Quando Carter chegou finalmente ao caixão do centro, em ouro maciço, encontrou outra mortalha de linho sobre a secção do torso. E enrolada sob o cintilante retrato da face do faraó jazia uma grinalda com várias camadas  de contas, bagas, flores e folhas.

Se tivesse havido um fogo, não ficariam o linho e a grinalda esturricados também, queimados pelo ouro candente?

É claro que os media podem ter percebido mal as conclusões dos investigadores. Ou talvez as tenham amplificado.  Afinal de contas, "O Rui Tut sofreu um acidente e pegou fogo" é o tipo de frase que atrairá, certamente, a atenção dos leitores.

E o programa de televisão poderá ainda revelar explicações convincentes sobre os aspetos mais enigmáticos do caso e as mudanças que ocorreram para que a pele do faraó ficasse negra.  Mas é muito provável que o Rei Tut continue a guardar alguns dos seus mistérios — incluindo a razão definitiva da morte — como fez durante tantos séculos.

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