A Revolta dos Jovens: Cinco Poderosos Movimentos Conduzidos Por Jovens Ativistas

Desde os estudantes de Parkland até à Primavera Árabe, os adolescentes e jovens adultos fazem história ao impulsionar a mudança social.

Saturday, May 19, 2018,
Por Erin Blakemore
Uma jovem mulher chora na praça Tahir, após o anúncio da renúncia ao poder do presidente ...
Uma jovem mulher chora na praça Tahir, após o anúncio da renúncia ao poder do presidente egípcio Hosni Mubarak. A notícia chegou após 18 dias de contestação popular na região.
Fotografia de Chris Hondros, Getty Images

Olhe-se para o espírito apaixonado que move os jovens de qualquer era e encontraremos o catalisador para a mudança.

Os líderes da iniciativa March for Our Lives não são diferentes. Estudantes de Parkland, na Flórida, que sobreviveram a um trágico tiroteio numa escola em fevereiro deste ano, organizaram um evento para exigir legislação sobre o controlo ao acesso de armas e acabar com os tiroteios em instituições de ensino.

Ainda que criticados por alguns, os adolescentes foram elogiados por outros pelo seu espírito, foco e sagacidade. Mantiveram a mensagem clara, mobilizaram a nação e granjearam o apoio de figuras célebres e políticos, incluindo os antigos inquilinos da Casa Branca, o casal Obama.

Mas eles não são um caso isolado. Estes estudantes são o mais recente elo de uma corrente de longas décadas de jovens ativistas que se posicionam na frente da mudança social um pouco por todo o mundo.

Eis outros cinco movimentos, que à semelhança deste, também foram conduzidos por jovens manifestantes.

MOVIMENTO PELOS DIREITOS HUMANOS

Ativistas dos direitos civis, incluindo jovens manifestantes, participam numa das três marchas do Alabama, desde a cidade de Selma até Montgomery, em 1965. As manifestações foram essenciais para desencadear o processo que conduziu à aprovação do projeto-lei sobre os direitos de voto, que proibia práticas de voto discriminatórias com base na raça.
Fotografia de Buyenlarge/Getty Images

Balcões de restaurantes. A marcha em Washington. A ponte de Edmund Pettus na cidade de Selma, no Alabama.

Os jovens tiveram um papel ativo nos momentos que marcaram o movimento pelos direitos civis e o seu compromisso com a causa estendia-se aos bastidores. Juntos, estes jovens adultos puseram fim à segregação racial, imposta pelas leis de Jim Crow, nas escolas do sul da América, desafiaram o racismo durante as Freedom Rides e impulsionaram a legislação sobre os direitos de voto e os direitos civis.

Entre os grupos de estudantes com maior influência, envolvidos na organização, estava o Comité Coordenador Estudantil pela Não-Violência ou, na sigla inglesa, SNCC, um grupo que defendeu o protesto sem recurso à violência e ajudou a sensibilizar as bases do movimento. Extremamente independentes, o grupo concertou esforços em inúmeras frentes de mudança, suportando a violência física e a repressão estatal pelo caminho. Encorajados pela oposição dos jovens à supremacia branca, o SNCC foi, em tempos, o maior grupo da nação a debater-se pelos direitos civis e o mais bem organizado.

Os jovens que participaram no movimento pelos direitos civis abraçaram aquilo que um dos presidentes do SNCC, John Lewis, designou em tempos por “bons sarilhos”, uma inquietação que não teme, pensada para provocar, desafiar e evoluir no sentido do progresso.

PROTESTOS CONTRA A GUERRA DO VIETNAME

Estudantes protestam contra a guerra do Vietname em frente à embaixada norte-americana em Londres.
Fotografia de Mirrorpix/Getty Images

Mais de dois milhões de jovens foram convocados para integrar as forças militares norte-americanas durante a guerra do Vietname. Não admira, por isso, que os jovens estivessem na vanguarda dos protestos contra o conflito. O movimento estudantil que mobilizou a opinião pública norte-americana contra a guerra começou no início dos anos 60, com os jovens ativistas inspirados pelo movimento dos direitos civis e pela oposição da ala-esquerda à Guerra Fria.

Por todo o país, os estudantes organizaram marchas de protesto, ocuparam espaços de forma pacífica e agitaram as mentalidades contra a guerra. Os protestos inflamaram os ânimos e dividiram a sociedade norte-americana, que debateu se deveria ser permitido ou vedado aos estudantes o direito de se manifestarem. Estudantes desarmados foram mortos em manifestações, como naquela que marcou o dia 4 de maio de 1970, na Universidade de Kent State; outros foram atingidos com gás lacrimogéneo e perseguidos pela polícia. Membros de grupos como Students for a Democratic Society, um dos principais agentes impulsionadores, estiveram sob a mira do FBI.

“Nunca conseguirás o debate de ideias, sendo educado.”

por Michael S. Ansara

“Nós estávamos certos relativamente à guerra,” disse Michael S. Ansara, que liderou um capítulo da história do SDS na Universidade de Harvard. “Nós sabíamos que iríamos provocar uma reação e isso dar-nos-ia uma oportunidade de promover a reflexão e o debate sobre o tema,” disse Ansara a Laszlo B. Herwitz do jornal universitário The Crimson. “Nunca conseguirás o debate de ideias, sendo educado.”

A PRAÇA DE TIANAMENN

Um grupo de estudantes chineses circula de bicicleta em Pequim, empunhando cartazes e procurando reunir apoios para o movimento pró-democracia.
Fotografia de Peter Turnley, Getty Images

“Eu invejo a liberdade que os meus alunos têm aqui,” afirma Rowena He, um professor assistente na Faculdade de St. Michael, em Vermont, e autor do livro Tianammen Exiles: Voices of the Struggle for Democracy in China. Adolescente na China, no fim dos anos 80, relembra: “Quando tinha a idade deles, eu e tantos outros milhares de jovens tomámos as ruas nas cidades do meu país natal e exigimos os direitos básicos que são reconhecidos aos estudantes americanos à nascença e que são dados por garantidos.”

O movimento tornado conhecido à escala global pela violência na Praça de Tianammen não tomou conta apenas da praça. Ele atravessou a China à medida que os jovens exigiam reformas democráticas e a liberalização da economia em face do nepotismo e da recessão económica. Centenas de milhares de ativistas, muitos deles estudantes universitários, invadiram as ruas com cartazes, proferindo discursos e entoando canções.

Nos dias 3 e 4 de junho de 1989, os protestos carregados de emoção tomaram um rumo assustador, quando milhares de soldados desceram à Praça Tianammem e abriram fogo sobre os milhares de estudantes desarmados, esmagando o movimento com tanques e espingardas. O número de baixas permanece ainda hoje desconhecido.  

A China nunca reconheceu, oficialmente, o massacre e mantém uma política de censura relativamente a qualquer informação e diálogo sobre o movimento. Três décadas após a repressão exercida sobre os jovens manifestantes, He diz que “ainda não foi feita justiça às centenas de vidas que foram destruídas pelas armas e pelos tanques.” He e outros companheiros, que estudam o movimento de Tianammen, temem ainda represálias do Partido Comunista Chinês.

A PRIMAVERA ÁRABE

Para alguns, o Twitter e o Facebook personificam o esterótipo de um jovem desligado, sempre de telemóvel na mão. Mas, em 2010, durante a Primavera Árabe, os media ajudaram os jovens a organizar uma revolução inédita, que teve início na Tunísia e se estendeu ao Egipto, à Líbia, ao Iémen, à Síria, ao Bahrain e a outros países de Médio Oriente.  

Frustrados com a corrupção nas forças policiais, as dificuldades económicas, as violações dos direitos humanos e os regimes opressivos, os jovens participaram numa onda de protestos pró-democracia, que transformaram as praças públicas, como a Praça Tahir, no Cairo, em espaços de reivindicação e luta. As manifestações foram desencadeadas pela morte de um jovem tunisino, vendedor ambulante, que se imolou após um agente policial lhe ter confiscado a banca ambulante.

Os jovens ativistas não foram os únicos a integrar as manifestações, que agitaram o mundo árabe por mais de um ano, alimentaram conflitos já existentes, como a guerra civil na Síria, e levaram ao afastamento do presidente egípcio Hosni Mubarak, entre outros.

No entanto, analistas como M. Chloe Mulderig da Universidade de Boston acreditam que a Primavera Árabe “não poderia ter ocorrido sem o empurrão numérico e ideológico de uma vasta massa de jovens revoltados.”

O DIREITO DOS INDÍGENAS À ÁGUA

Dois jovens ativistas, que reivindicam o direito à água, são fotografados em frente às ruínas de uma hogan, uma habitação tradicional da tribo dos Navajos, em Canon Ball, na Dakota do Norte. Os manifestantes ocuparam a reserva de Standing Rock durante meses, numa clara demonstração de oposição contra a Dakota Access Pipeline, tendo incendiado partes das estruturas, quando forçados a abandonar o local em fevereiro de 2017.
Fotografia de Stephen Yang, Getty Images

“Os jovens estão cansados de pensar que não têm um futuro,” diz Micaela Iron Shell-Dominguez. “Uma coisa é tirarem-nos a nossa terra. Agora, vêm para a nossa terra, instalar oleodutos e acabar com a nossa água.”

Shell-Dominguez refere-se a uma série de oleodutos, muito controversos, concebidos para assegurar a distribuição de petróleo nos Estados Unidos e que atravessam ou se situam nas proximidades das terras e dos cursos de águas dos nativos americanos. Estes oleodutos foram alvo de forte contestação por parte de jovens como Shell-Dominguez. 

“Os jovens estão cansados de pensar que não têm um futuro.”

por Micaela Iron Shell-Dominguez

Um desses oleodutos, o Dakota Access Pipeline (DAPL), galvanizou os ânimos dos jovens indígenas. O oleoduto passa perto da reserva índia de Standing Rock, e, em 2016, o anúncio da sua construção gerou grande indignação, que levou milhares de manifestantes a montar um acampamento, o qual se transformou, rapidamente, num local de protestos e detenções. O Conselho Internacional de Jovens Indígenas (IIYC), cujo trabalho procura inspirar, organizar e habilitar os jovens em prol da preservação do ambiente, nasceu da onda de contestação que mobilizou Standing Rock. Hoje, Shell-Dominguez é a mentora e coordenadora de projeto do grupo.

“Cada indivíduo da nossa comunidade devia ter acesso a água potável e ar puro,” afirma. A construção do DAPL prosseguiu, apesar dos protestos, mas o IIYC e outras organizações de jovens continuam a mobilizar-se pela contestação de outros projetos, como o Keystone Pipeline, que constitui uma séria ameaça aos direitos dos indígenas sobre a água.

“Acreditamos que esta terra não nos pertence. Na verdade, nós é que pertencemos a esta terra, afirma. “Cabe-nos devolvê-la à Mãe Natureza.”

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