História

7 Factos Sobre a História Sombria Por Detrás do Dia da Mãe

No princípio, era apenas uma declaração antiguerra. Mas, com o tempo, as batalhas em torno dos direitos sobre o Dia da Mãe tornaram-se recorrentes. Sexta-feira, 4 Maio

Por Brian Handwerk

O Dia da Mãe parece ser uma data insuspeita. Mimar a mãe com um brunch. Comprar flores. Bons momentos.

Mas a história por detrás desta data festiva, que se celebra este domingo nos Estados Unidos e em tantos outros países, está recheada de controvérsias, conflitos e de um consumismo desenfreado. Descubra alguns factos bizarros, mas verdadeiros, que, muito provavelmente, desconhecia.

1. O Dia da Mãe Começou Como um Movimento Antiguerra.

Anna Jarvis é, frequentemente, considerada a fundadora do Dia da Mãe nos Estados Unidos.

Celebrado no segundo domingo de maio, por determinação do Presidente Woodrow Wilson em 1914, alguns aspetos desta data festiva estenderam-se além-fronteiras, por vezes misturando-se com as tradições locais. Jarvis fez tudo para assumir e defender o seu papel como “Mãe do Dia da Mãe” e colocar a tónica nas crianças que celebravam as suas mães. 

Mas houve quem tivesse tido a ideia primeiro, com uma agenda diferente.

Julia Ward Howe, mais conhecida por ter escrito O Hino de Guerra da República, promoveu o Dia da Paz de Mãe no início de 1872. Para Howe e outros ativistas antiguerra, incluindo a mãe de Anna Jarvis, o Dia da Mãe era uma forma de promover a unidade global, após os horrores da Guerra Civil Americana e da Guerra Franco-Prussiana, na Europa.

“Howe apelou às mulheres que se reunissem uma vez por ano, em salões, igrejas ou auditórios, para escutar sermões, ensaios, entoar hinos ou rezar, se assim o entendessem, tudo em nome da promoção da paz”, afirmou Katharine Antolini, uma historiadora da West Virginia Wesleyan College e autora de Memorializing Motherhood: Anna Jarvis and the Struggle for Control of Mother's Day.

Segundo Antolini, várias cidades americanas, incluindo Boston, Nova Iorque, Filadélfia e Chicago, organizavam cerimónias anuais para assinalar o Dia da Mãe a 2 de junho, até quase 1913.

Estes primeiros movimentos do Dia da Mãe tornaram-se populares apenas entre grupos ativistas a favor da paz e desapareceram quando outros agentes ganharam protagonismo.

2. Um Antigo Treinador de Futebol Promoveu uma Versão Inicial do Dia da Mãe e Foi Acusado de “Sequestrar” a Celebração.

Frank Hering, um antigo treinador de futebol e membro docente na Universidade de Notre Dame, também avançou com a ideia do Dia da Mãe, muito antes de Anna Jarvis. Em 1904, Hering promoveu uma concentração em Indianapolis da Irmandade das Águias para apoiar “a atribuição de um dia no ano como uma homenagem nacional às mães e à maternidade”.

VEJA O VÍDEO DE COMEMORAÇÃO DO DIA DA MÃE DA NATIONAL GEOGRAPHIC WILD

Hering não propôs um dia ou um mês em particular para assinalar a data, embora tivesse manifestado preferência para que o Dia da Mãe fosse celebrado a um domingo. Altas instâncias locais da Irmandade das Águias acolheram a proposta de Hering.  A organização ainda descreve Hering e as Águias como “os verdadeiros fundadores do Dia da Mãe”.  

Anna Jarvis não ficou agradada com a ideia do Dia da Mãe ter um “pai” na pessoa de Hering e escreveu um texto demolidor sem data, nos anos 20, que intitulou de “O sequestro do Dia da Mãe: seremos cúmplices?”.

"Façam-me o favor de travar a promoção dos interesses pessoais deste requerente”, escreveu Jarvis, “que tenta, a qualquer custo, arrebatar-me o título legítimo enquanto autora e fundadora do Dia da Mãe, instituído por mim após décadas de trabalho, dedicação, tempo e despesa”.  

Segundo Antolini, Jarvis, que, curiosamente, nunca teve filhos, agia movida pelo seu próprio ego. “Em todos os documentos assinava Anna Jarvis, Fundadora do Dia da Mãe. Essa era a sua identidade.”

3. Franklin Delano Roosevelt Idealizou um Selo Comemorativo do Dia da Mãe. Ou, Pelo Menos, Tentou.

Woodrow Wilson não foi o único presidente a deixar a sua marca no Dia da Mãe. Franklin Delano Roosevelt idealizou, ele próprio, um selo de correio para celebrar a data.

O presidente usou um selo que se destinava, inicialmente, a homenagear o pintor do século XIX James Abbott McNeill Whistler e que integrava o célebre retrato da mãe do artista, Anna McNeill Whistler, sob o título Whistler’s Mother. Roosevelt escreveu uma dedicatória em redor da icónica imagem maternal: “EM MEMÓRIA E HONRA DE TODAS AS MÃES DA AMÉRICA”.

Anna Jarvis não aprovou o conceito e recusou-se a autorizar o uso da expressão “Dia da Mãe” no selo, pelo que ele nunca chegou a ser produzido. “No geral, ela achava o selo feio”, diz Antolini.

4. A Fundadora do Dia da Mãe Detestava Aqueles que se Serviam da Data Para Angariar Fundos.

Desde os primeiros anos do Dia da Mãe, alguns grupos aproveitaram-se da data para angariar fundos para várias causas de beneficência, entre as quais se incluíam mães em situação de carência. Anna Jarvis detestava isso.

“Ela dizia que esses grupos eram piratas cristãos”, dizia Antolini. Hoje em dia, a maioria das pessoas consideraria uma excelente ideia usar a data para a recolha de fundos, com o propósito de apoiar as mães em situação de carência económica ou as famílias de veteranos da Primeira Guerra Mundial ou quaisquer outras pessoas dignas de ser apoiadas, mas ela detestava-os por isso”.

Segundo Antolini, num tempo em que os grupos de beneficência não tinham qualquer fiscalização, Anna Jarvis desconfiava que muitos dos fundos recolhidos não chegavam às pessoas que, supostamente, deveriam ajudar. “Ela indignava-se com a ideia de que a data fosse usada por verdadeiros agiotas como uma forma de ganhar dinheiro”, afirma Antolini.

5. A Mãe do Dia da Mãe Perdeu Tudo na Batalha Para Proteger o Seu Dia.

Não tardou muito para que o Dia da Mãe de Anna Jarvis fosse instrumentalizado por grupos comerciais, apesar do esforço de Jarvis para evitar que a data se transformasse num negócio.

“Transformar o Dia da Mãe numa obrigação de oferecer presentes caros e supérfluos, à semelhança do Natal e de outras datas festivas, não é, de todo, do nosso agrado”, escreveu Jarvis nos anos 20. “Se o povo americano não quer proteger o Dia da Mãe da chusma de oportunistas que tenta desvirtuar o espírito da data, então deixaremos de ter um Dia da Mãe e nós sabemos como”.

Jarvis nunca lucrou com a data, apesar das inúmeras oportunidades que o seu estatuto lhe granjeava, enquanto figura pública. Na verdade, ela ficou falida depois de ter usado os seus próprios recursos financeiros para combater a mercantilização da data.

Com a saúde debilitada e um equilíbrio emocional discutível, Jarvis morreu na miséria aos 84 anos, após ter passado os últimos quatro anos de vida no Sanatório de Marshall Square, diz Antolini.

6. As Batalhas Judiciais Sobre a “Custódia” do Dia da Mãe.

Anna Jarvis sempre considerou deter a propriedade intelectual sobre o Dia da Mãe e não receava mover ações na justiça em sua defesa.

Jarvis colocou um aviso em algumas publicações da International Association Press dedicadas ao Dia da Mãe: “Qualquer instituição de caridade, hospital, organização ou atividade comercial que faça uso de nomes do Dia da Mãe, obras, símbolo ou celebração para obter proventos, fazer vendas ou impressões será considerado impostor pelas autoridades competentes e denunciado a esta associação”.

Segundo Antolini, e atendendo à dispersão dos processos judiciais, é difícil determinar a dimensão do temperamento litigioso de Jarvis, mas um artigo da Newsweek, publicado em 1944, revelou que Jarvis tinha pendentes, a certa altura, 33 ações judiciais, em simultâneo, relativas ao Dia da Mãe.

7. As Flores São uma Tradição Antiga que Perdura… Mais ou Menos.

O cravo branco, a flor preferida da mãe de Anna Jarvis, era a flor original do Dia da Mãe.

“O cravo não deixa cair as suas pétalas, antes aconchega-as no coração, à medida que a vida se esbate. Tal como a flor, também as mães aconchegam os filhos. O amor de uma mãe é eterno” explicou Jarvis, numa entrevista, em 1927.

Atualmente, a escolha da flor mais popular parece ser “a flor preferida da mãe”.

Estas linhas não são sobre as histórias do passado, mas sim sobre o presente: as objeções à angariação de fundos com fins beneficentes e à comercialização desmedida redundaram num vazio.

Feliz Dia da Mãe!

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