História

A Carta que Venceu a Revolução Americana

Em 1777, George Washington enfrentava uma derrota anunciada na guerra. Foi então que criou a primeira operação americana de espionagem.Monday, May 28, 2018

Por Nina Strochlic
George Washington pagou do seu bolso aos primeiros espiões da nação. Aqui surge a estudar um mapa com Nathan Hale, que se apresentou como voluntário para recolher informações entre as linhas britânicas. Nathan Hale não demorou a ser capturado e enforcado.

Em 1777, as colónias americanas encontravam-se em clara desvantagem na luta pela independência da América face à Grã-Bretanha. O Exército Britânico tinha ocupado o porto de Nova Iorque, que era crucial. A prever novos avanços, o Congresso Continental foi evacuado de Filadélfia. A guerra parecia perdida.

Foi então que George Washington, na altura comandante-chefe do Exército Continental, escreveu uma carta que mudou o curso da guerra.

Washington queria a todo o custo descobrir o que estava acontecer em Nova Iorque, mas os batedores do exército não conseguiam aproximar-se o suficiente. O general precisava de alguém que penetrasse as linhas do inimigo, mas quando pediu voluntários, não foram muitos os elementos das tropas que levantaram o braço.

“A espionagem não era vista como digna de cavalheiros”, diz Vince Houghton, historiador residente no Museu Internacional da Espionagem em Washington, D.C. 

George Washington começou a interessar-se pela espionagem quando tinha21 anos e foi espiar os franceses nos Territórios do Ohio. “Uma das coisas que fez particularmente bem foi explorar o ambiente social das sessões de comes e bebes com os oficiais franceses para obter informações úteis”, refere um relatório da CIA.

Até que um jovem capitão do exército chamado Nathan Hale se apresentou como voluntário para a perigosa missão. Uma semana depois foi capturado e enforcado, tornando-se o primeiro espião americano a ser executado no cumprimento das funções, de acordo com o que se sabe até hoje. (Existe uma estátua em memória de Nathan Hale junto à sede da CIA.)

George Washington percebeu que a missão era demasiado complexa para voluntários sem preparação, pelo que decidiu constituir uma organização de espionagem. Desmantelamento

John Jay, que viria a tornar-se Presidente do Supremo Tribunal, era o responsável pela direção da contrainformação na qualidade de chefe da New York State Committee and Commission for Detecting and Defeating Conspiracies (Junta e Comissão para a Deteção e o Desmantelamento de Conspirações do Estado de Nova Iorque). Um dos operacionais de Jay, um mercador chamado Nathaniel Sackett, tinha experiência em escritas e códigos secretos.

Em fevereiro de 1977, Washington escreveu uma carta a Sackett na qual oferecia 50 dólares por mês — do seu próprio bolso — para o estabelecimento do primeiro órgão capaz de conferir aos americanos a “vantagem de obter as melhores e mais precoces informações sobre os planos do Inimigo.”

A carta de Washington criou a primeira operação de recolha de informações da América. “Ele não era um génio militar,” diz um historiador sobre Washington. “O que o tornou bom foi o facto de ter colocado as pessoas certas nas posições certas.”

“Sem a organização edificada por Sackett, muito dificilmente teríamos vencido a guerra”, diz Houghton. “Tínhamos um exército desorganizado e [os britânicos] tinham o maior exército, a maior marinha e a maior economia do mundo. Não éramos nós quem tinha de ganhar aquela guerra.”

Mas o serviço de espionagem da América teve um início inglório. A maioria dos agentes de Sackett não teve sucesso nas funções que lhe foram confiadas — incluindo o próprio Sackett, que foi despedido ao fim de apenas seis meses.

Felizmente para a jovem nação, o substituto de Sackett, Benjamin Tallmadge, de 26 anos, criou aquela que é considerada uma das maiores operações de espionagem da América: a Rede de Espiões Culper (Culper Spy Ring). Composto por amigos de infância de Long Island, o grupo contava com o proprietário de uma loja no interior da cidade de Nova Iorque que recolhia informação, um mercador ambulante que a enviava clandestinamente para fora da cidade e um capitão de um baleeiro que a levava para o acampamento de Washington.

Benjamin Tallmadge assumiu o papel de chefe de espionagem de George Washington durante a guerra. Mais tarde, foi membro da Câmara dos Representantes durante oito mandatos.

Empregando as ferramentas e os ardis do ofício de espionagem do século XVIII —esconder mensagens secretas em penas ocas de aves, utilizar esconderijos (“dead drops”) para deixar as cartas com informações — os operacionais da Rede Culper desmascaram espiões inimigos, desmantelaram um plano de contrafação de dinheiro e impediram que os britânicos sabotassem uma missão de ajuda francesa às colónias.

Depois de cartas importantes terem sido perdidas durante um ataque do inimigo, Tallmadge inventou um código com um “dicionário numérico” que combinava 763 cidades, nomes e palavras com números. (O nome de código de George Eashington era Agent 711.) George Washington pediu também ao médico James Jay (irmão de John) para inventar uma tinta invisível que só pudesse ser revelada através de outro químico e que viesse a “aliviar os medos das pessoas a quem fosse confiada a transmissão” de informação.

A experiência de espionagem de Washington deu frutos. Em 1781, os britânicos renderam-se, em parte devido às informações recolhidas pela Rede Culper e os seus contactos. “Na verdade, Washington não venceu os britânicos em batalha. Venceu-nos na espionagem, pura e simplesmente”, terá dito um oficial de informações britânico depois da guerra.

Nunca nenhum dos espiões da Rede Culper foi capturado e nem Washington chegou alguma vez a saber quais eram exatamente os seus membros. A própria existência do grupo não foi descoberta antes do século XX e, até hoje, ninguém sabe ao certo quantos membros tinha.

Depois da guerra, Washington pediu ao Congresso que lhe fossem reembolsados 17 000 dólares — quase meio milhão de dólares atualmente — pelas despesas de espionagem em que tinha incorrido. Os legisladores acederam a esta pretensão.

A carta de Washington que estabelecia a primeira operação americana de espionagem foi mudando de proprietário até 2003, altura em que passou a ser conservada no Museu Internacional de Espionagem. O documento original é exibido durante um período de dois meses por ano que inclui o Dia dos Presidentes. Na maior parte do ano, é exibido um fac-símile.
Continuar a Ler