História

Como é Que as Aves da Era dos Dinossauros Sobreviveram ao Apocalipse dos Asteroides?

Esporos fossilizados e árvores genealógicas de aves sugerem que a desflorestação foi um fator-chave na sobrevivência de determinadas espécies de aves há 66 milhões de anos.Tuesday, May 29

Por John Pickrell
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Ao atingir a Terra há 66 milhões de anos, um asteroide, com cerca de 14 quilómetros de diâmetro, explodiu com uma força superior a um milhão de bombas atómicas e dizimou três quartos das formas de vida na Terra, incluindo os dinossauros sem penas. Mas sabe-se hoje que alguns membros da árvore genealógica dos dinossauros sobreviveram ao impacto, tendo evoluído para as aves da era moderna.  

A pergunta que se coloca é por que razão algumas aves sobreviveram, enquanto outros animais sucumbiram a um acontecimento de extinção em massa, no fim do período Cretáceo?

Talvez porque o impacto do asteroide e as suas consequências tenham destruído por completo as florestas mundiais, levando à extinção em massa das aves que habitavam as árvores, avançam hoje os investigadores na revista Current Biology.

As únicas aves que sobreviveram eram espécies que habitavam o solo, incluindo parentes ancestrais de patos, galinhas e avestruzes. Após o cataclismo, estes sobreviventes rapidamente evoluíram para as linhagens de aves que se conhecem na atualidade, segundo os paleontólogos coordenados por Daniel Field da Universidade de Bath, no Reino Unido.

“É uma hipótese intrigante que explica tanto a extinção, como a sobrevivência”, afirma Julia Clarke, especialista na evolução de aves da Universidade de Texas, em Austin.

Uma ilustração mostra uma possível linhagem de aves, de pequeno porte, que habitava o solo, em fuga de uma floresta em chamas e que terá sobrevivido ao impacto de um asteroide, que dizimou os dinossauros sem penas.

“Só agora é que nos estamos a debruçar sobre os reflexos que a extinção em massa do período Cretáceo possa ter tido na história da evolução dos principais grupos de animais da era moderna, como as aves, os mamíferos e as plantas com flor”, afirma Field.

“Esta catástrofe global deixou uma marca indelével nas trajetórias evolutivas destes grupos, ao ponto de conseguirmos identificá-la 66 milhões de anos mais tarde.”

FETOS

Field e os colegas coautores do estudo reuniram vastos elementos de diferentes fontes para suportar a sua argumentação. Esse conjunto de elementos inclui dados de novas árvores genealógicas de aves vivas, indícios de novos fósseis de aves descobertos recentemente e uma análise dos esporos e pólenes da camada rochosa que se formou na sequência do impacto.

“O estudo foi ganhando forma gradualmente”, afirma Field. Começou pela análise da forma como a ecologia das aves mudou a história da evolução. Após a análise das relações evolutivas entre mais de 10 000 espécies de aves vivas atualmente, a equipa apercebeu-se de que tais relações sugeriam que os sobreviventes iniciais tinham habitado o solo, remetendo para a possibilidade de uma desflorestação global no passado comum.  

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“Estas análises revelam que os antepassados mais recentes comuns a todas as aves vivas e as linhagens de aves que atravessaram a fronteira do período Cretáceo habitavam, provavelmente, o solo”, afirma Field.

Os investigadores já tinham inferido há muito o impacto do asteroide causado pelos fogos incontroláveis, mas a equipa suporta agora a sua argumentação na devastação total das florestas do planeta. O coautor do estudo Antoine Bercovici, um paleobotânico do Museu de História Natural em Washington, D.C., reuniu dados sobre os esporos fossilizados e as quantidades de pólenes recolhidas de superfícies rochosas em várias regiões do mundo, incluindo Nova Zelândia e Estados Unidos.

Numa fina camada de rocha que se formou durante o primeiro milénio e tal após o impacto, 70 a 90% dos esporos encontrados são provenientes de apenas duas espécies de fetos.

“Esta espiga de feto é a prova que aponta para uma flora de reposição, em que espécies pioneiras rapidamente recolonizam o solo de forma espontânea, tal como vemos hoje os fetos que florescem nas camadas de lava no Havai, após as erupções vulcânicas”, afirma Bercovici.

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Segundo os investigadores, podem ter sido precisos milhares de anos para que as florestas se desenvolvessem até à maturidade, sendo que a sua composição foi alterada para sempre.

Além disso, uma análise dos fósseis de aves mais comuns do fim do período Cretáceo, um grupo primitivo conhecido por enantiornites, sugere que a maioria habitava as árvores. Nenhuma destas aves sobreviveu, o que leva os autores a supor que ter-se-á devido à destruição total do seu habitat.

Mais, fósseis representativos de grupos de aves vivas, recentemente descobertos, que datam do período posterior ao impacto apontam para aves que habitavam o solo, com base nas proporções das suas pernas.

“Estas observações são consistentes com a ideia de que as linhagens de aves que habitavam o solo sobreviveram ao fim do período Cretáceo e que foram, progressivamente, ocupando as árvores, à medida que as florestas mundiais se foram desenvolvendo”, afirma Field. “Todas as diferentes fontes de informação às quais recorremos, desde o registo de pólenes fossilizados e fósseis de aves às inferências baseadas na ecologia das aves da era moderna, suportam, basicamente, a mesma tese de argumentação”.

PREENCHER AS LACUNAS

“Os autores fizeram um excelente trabalho ao apresentar um argumento muito convincente sobre o papel das florestas extintas à escala global na evolução das aves da era moderna”, afirma Luis Chiappe, um especialista em aves primitivas e diretor do Instituto de Dinossauros do Museu de História Natural de Los Angeles, na Califórnia.

“Esta é uma hipótese tormentosa que oferece uma explicação plausível para a extinção de grupos arbóreos de aves primitivas no fim do período Cretáceo”, afirma. Contudo, os dados não explicam as razões que levaram à extinção de um número de enantiornites e outras aves pré-históricas que também não habitavam as árvores.

“Um dos aspetos notáveis deste novo estudo é que pode ser verificado”, acrescenta Clarke. “O mesmo não se pode dizer relativamente às explicações avançadas sobre os motivos que conduziram à extinção dos dinossauros.”

Por exemplo, os investigadores deviam continuar a procurar indícios geológicos de fogos generalizados nas superfícies rochosas espalhadas pelo mundo, para consolidar a explicação da desflorestação global. Field e os seus colegas esperam também preencher as lacunas no registo de fósseis de aves, que é disperso nos primeiros milhares de anos que se seguiram ao impacto.

“Como todas as boas hipóteses, este estudo será pretexto para um novo trabalho de investigação e novas interrogações”, diz Chiappe, e algumas das respostas podem depender da descoberta de novos fósseis em zonas do mundo com um espetro reduzido de vestígios fossilizados.

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